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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/04/2010 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora

Uma Noite Fora de Série
Date Night

Dirigido por Shawn Levy. Com: Steve Carell, Tina Fey, Mark Wahlberg, Taraji P. Henson, Jimmi Simpson, Common, William Fichtner, Ray Liotta, Leighton Meester, Kristen Wiig, Mark Ruffalo, James Franco, Mila Kunis, J.B. Smoove, Olivia Munn.

Decore esta regra: filmes que incluem erros de gravação durante seus créditos finais normalmente falham como comédia – e a lógica por trás da decisão de trazer tropeços dos bastidores provavelmente remete à insegurança do diretor com relação à qualidade do que fez, levando-o a mostrar para o espectador que mesmo que o longa não provoque risadas, sua equipe se divertiu imensamente ao realizá-lo. No entanto, se nem mesmo os erros forem minimamente engraçados, limitando-se a mostrar o elenco rindo das próprias tiradas, a conclusão é ainda mais trágica: o cineasta não entende sequer o conceito de comédia. Ah, sim, e há uma “lei” ainda mais infalível que os cinéfilos devem observar: se o crédito de direção trouxer o nome “Shawn Levy”, não espere exceções que comprovem a regra – o filme será ruim mesmo (o mesmo vale para Dennis Dugan).

Depois de ter conseguido a proeza de sabotar comediantes talentosos como Steve Martin, Ben Stiller e Ricky Gervais, Levy agora se supera ao derrubar dois atores que praticamente estão entre os nomes mais fortes da atual safra de atores cômicos da tevê norte-americana: Steve Carell (The Office) e Tina Fey (30 Rock). Naturalmente divertidos e carismáticos, Carell e Fey aqui vivem Phil e Claire Foster, um casal que vem sentindo o perigo da monotonia que se torna cada vez mais presente em seu matrimônio. Determinado a oferecer ao menos uma noite de diversão à esposa, Phil a leva a um caro restaurante onde acaba roubando a reserva feita por um outro casal – e não demora muito até que estejam sendo perseguidos por uma dupla de assassinos em função da troca de identidades.

Embora investindo num conceito mais do que batido (o do “homem errado”), o roteiro de Josh Klausner até poderia ter conseguido extrair alguma graça da premissa caso o sujeito fosse um pouco mais talentoso ou inteligente – adjetivos que, se considerarmos seus trabalhos anteriores (O Quarto Andar e Shrek Terceiro), não parecem se aplicar a ele. Assim, Klausner praticamente se limita a atirar os protagonistas em situações absurdas e implausíveis até mesmo para uma comédia como esta – como no instante em que o personagem vivido por William Fichtner exige que os dois dancem sensualmente caso queiram falar com ele. Empalidecendo ainda mais diante do similar Forasteiros em Nova York (não confundir com a terrível refilmagem Perdidos em Nova York), o filme atinge o auge da estupidez quando a detetive interpretada pela inexpressiva Taraji P. Henson, ciente de que os Foster haviam invadido uma imobiliária para pegar o endereço do personagem de Mark Wahlberg, decide ir primeiro até o local invadido em vez de seguir diretamente para a casa que, afinal de contas, ela sabia ser a próxima parada do casal.

O desleixo do roteiro, vale dizer, é refletido em todos os aspectos da produção, desde a direção frouxa e sem imaginação de Levy (um picareta cujos péssimos filmes, sabe-se lá por quê, são sempre sucessos de bilheteria) até a lógica interna da narrativa (reparem como primeiro Fey precisa grudar a cara no monitor do restaurante para ler um endereço, já que está sem óculos, mas minutos depois consegue pesquisar o computador da imobiliária sem qualquer problema). Como se não bastasse, o roteiro de Klausner se revela sexista ao retratar as mulheres sempre como criaturas estúpidas (Fey), promíscuas (Wiig), exploradoras (Meester) ou superficiais (Kunis), e racista ao encarar qualquer estrangeiro como uma criatura arrogante (os recepcionistas do restaurante) ou simplesmente excêntrica (a namorada israelense de Wahlberg).

Felizmente, aqui e ali Uma Noite Fora de Série acaba acertando, o que evita que o projeto se torne uma tortura completa – mas isto geralmente ocorre em função de alguma expressão mais divertida de Carell ou de um aparente improviso de Fey. Na realidade, o único momento em que o filme consegue exibir um pouco de domínio técnico na construção de uma gag reside no instante em que o casal entra em um pequeno barco para fugir de seus perseguidores e, depois de uma série de cortes rápidos em planos-detalhe, o montador Dean Zimmerman revela, num quadro aberto e num plano mais longo, o bote percorrendo a água lentamente – e o contraste entre o tamanho dos quadros e a duração dos planos indica no mínimo algum grau de conhecimento por parte de Zimmerman, o que pode representar alguma promessa para o futuro do sujeito na montagem de comédias (ele passou boa parte da carreira como assistente em projetos do gênero).

Desperdiçando figuras como James Franco, Wahlberg e Mark Ruffalo em pontas sem a menor função ou graça, Uma Noite Fora de Série representa uma imensa oportunidade perdida de explorar os talentos de Carell e Fey, que, mesmo sem exibir qualquer química em suas cenas românticas, certamente poderiam formar uma dupla bastante eficaz caso estivessem trabalhando com um material melhor. Ou com um diretor que soubesse fazer algo mais do que apontar a câmera para os atores e autorizar seu assistente de direção a gritar “Ação!”.

Observação: além dos erros exibidos durante parte dos créditos finais, há algumas tomadas alternativas ao final da projeção trazendo Fey e Carell improvisando na cena do restaurante. Mas, não, nada que seja minimamente engraçado.

10 de Abril de 2010

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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