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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/04/2010 01/01/1970 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

Tudo Pode dar Certo
Whatever Works

Dirigido por Woody Allen. Com: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Ed Begley Jr., Michael McKean, Henry Cavill, Conleth Hill, Jessica Hecht, Samantha Bee.

Jazz, Groucho Marx, neuroses, ateísmo, pessimismo, hipocondria: assistir a Tudo Pode Dar Certo, mais recente filme de Woody Allen, é fazer uma viagem à primeira metade da carreira do diretor, quando estes elementos o estabeleceram como um dos grandes autores cômicos do Cinema. De certa maneira, estas características continuaram a permear sua obra ao longo dos 20 anos seguintes (incrível pensar que ele tenha estreado como cineasta há 41 anos – estou propositalmente ignorando O Que Há, Tigresa?, de 66), mas jamais com a mesma regularidade do início, já que tropeços como Celebridades, O Escorpião de Jade e O Grande Furo passaram a se tornar mais comuns. Sim, talvez este retorno no tempo se deva ao fato do roteiro de Tudo Pode Dar Certo ter sido originalmente escrito em 1977, mas, seja como for, o longa funciona bastante bem como uma produção voltada para o mundo profundamente individualista no qual vivemos hoje.

Ex-físico dedicado à mecânica quântica e “quase indicado ao prêmio Nobel”, Boris (David) é um homem profundamente cético que, dominado pela hipocondria e pelo pessimismo, separou-se da esposa por considerar que o casamento era “perfeito demais”. Sem ter a menor esperança com relação ao futuro da raça humano (“Eles tiveram que instalar descarga automática nos banheiros públicos porque as pessoas não são confiáveis nem para dar descarga!”), ele certa noite encontra a jovem Melody (Wood), que, depois de fugir de casa, acaba indo morar com o sujeito embora seja incapaz de perceber a diferença entre as palavras “prótons” e “cretinos”. A partir daí, Boris, mesmo considerando a garota uma imbecil, acaba provocando pequenas transformações em sua forma de enxergar o mundo ao melhor estilo Pigmaleão – com a diferença que, em vez de se tornar uma “lady”, Melody se transforma em... bom, em Woody Allen.

Arrogante e egocêntrico, Boris é apresentado ao espectador de maneira curiosa ao se dirigir diretamente à platéia – e embora a quebra da quarta parede não seja algo novo na filmografia de Allen, é empregada de maneira orgânica e extremamente eficiente neste longa: se inicialmente soa apenas como  uma gracinha narrativa, logo se revela como uma manifestação da excentricidade do protagonista (ou esquizofrenia?) e também de sua genialidade auto-professada, já que ele de fato parece enxergar mais do que seus pares. Além disso, esta é uma forma interessante de escancarar a narração expositiva, tornando-a menos artificial, o que, claro, é um bônus do ponto de vista estrutural. Ainda assim, embora surja como um alter ego adequado de Woody Allen, Larry David acaba soando agressivo quando o cineasta provavelmente se apresentaria apenas sarcástico, o que afasta um pouco o público do personagem (e seu tom de voz constantemente alto acaba se tornando cansativo). Como se não bastasse, a idéia de trazê-lo mancando poderia até acrescentar algo curioso a Boris caso David não se mostrasse absolutamente incapaz de retratar seu manquejar de forma natural.

Enquanto isso, Evan Rachel Wood surpreende como Melody, evitando transformar a garota numa caricatura e conferindo uma inocência importante à sua composição. Com um nome que inicialmente talvez sugira a idéia de que a moça trará alegria (música, melodia) à vida de Boris, a personagem logo faz o caminho inverso, abandonando sua visão otimista e ingênua do mundo e absorvendo – mesmo que sem compreendê-las completamente – as crises existenciais do companheiro, que, para completar, enxerga na moça uma característica fundamental: ela o admira quase tanto quanto ele próprio. Já Patricia Clarkson e Ed Begley Jr. se saem previsivelmente bem em papéis que, embora menores, são fundamentais para estabelecer o tema principal do filme: a liberação da raça humana.

Sim, liberação. Tristemente habituados a uma existência regida por dogmas (religiosos e sociais), convenções e preconceitos, freqüentemente nos proibimos de viver idéias, relações e conceitos que poderiam servir não só como belas experiências, mas também passos importantes rumo à auto-descoberta e ao crescimento pessoal. Neste sentido, a Nova York imaginada por Allen neste filme se estabelece como um oásis no meio de um deserto de repressão, como se a metrópole fosse, em toda sua dimensão, um constante Woodstock (menos, claro, para o protagonista, que se mantém concentrado demais em seu sofrimento masturbatório para experimentar aquele universo). E é neste sentido que o título em inglês faz pleno sentido: sempre caminhando em direção ao fim, temos um tempo limitado demais neste planeta para que ainda fiquemos presos a absurdos fantasiosos imaginados por antepassados em busca de influência e poder – e, assim, devemos aproveitar o que quer que seja que nos faça felizes. Com isso, o título em português se apresenta inadequado ao trair um otimismo inexistente na concepção de Allen; talvez uma tradução mais apropriada (e sugerida por um leitor no twitter) fosse O Que Vier Tá de Bom Tamanho.

Sem grandes invencionismos de linguagem, Tudo Pode Dar Certo traz Woody Allen numa direção ainda mais contida do que o habitual, mas que funciona justamente por não desviar a atenção daquilo que realmente interessa: seus atores. Neste aspecto, nem mesmo a fotografia do competente Harris Savides (parceiro habitual de Gus Van Sant) busca criar uma atmosfera particular – a não ser, claro, a atmosfera de uma “comédia de Woody Allen”, na qual a claridade reflete o tom cômico e a câmera só se move se isto beneficiar nossa visão dos rostos de seu elenco.

Divertido e promovendo algumas grandes risadas, Tudo Pode Dar Certo representa mais um esforço acima da média deste cineasta que, mesmo aos 74 anos, não dá sinais de pretender diminuir seu ritmo de produção. E que provavelmente logo adicionará ao seu currículo o fato de ter batizado uma nova banda - ou alguém duvida de que logo algum grupo irá se apoderar do nome “Esfíncter Anal”?

01 de Maio de 2010

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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