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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
12/03/2010 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Ilha do Medo
Shutter Island

Dirigido por Martin Scorsese. Com: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Patricia Clarkson, Michelle Williams, Emily Mortimer, John Carroll Lynch, Ted Levine, Jackie Earle Haley, Elias Koteas e Max von Sydow.

Ilha do Medo é O Iluminado de Martin Scorsese. Girando em torno de um protagonista amargurado que se encontra aprisionado numa edificação remota e que é obrigado a lidar com os fantasmas (metafóricos ou reais) locais, o filme se apresenta como um terror psicológico angustiante cuja atmosfera se revela tão ou mais importante do que sua trama – e não é à toa que, nos créditos finais, uma canção profundamente melancólica surge anunciando/celebrando/lamentando a “amargura da Terra”, já que a narrativa justifica plenamente esta descrição.

Estabelecendo seu tom sombrio já em seu primeiro plano, quando vemos um barco surgindo no meio da névoa acompanhado de uma trilha de cordas que parece prenunciar uma tragédia que se avizinha, o longa escrito por Laeta Kalogridis a partir do livro de Dennis Lehane nos apresenta a um herói que já surge em cena com um ferimento na testa, os olhos vermelhos e psicologicamente abalado (“Controle-se, Teddy!”, ele diz para si mesmo em sua fala de abertura). Agente federal torturado pela morte da esposa, que morreu num incêndio provocado por um lunático, Teddy é escalado para viajar até a Shutter Island do título original a fim de investigar o desaparecimento de uma paciente da instituição psiquiátrica ali situada: uma mulher que afogou os três filhos pequenos. Acompanhado de seu novo parceiro, Chuck (Ruffalo), ele enfrenta a resistência do principal médico da prisão-hospício, Dr. Cawley (Kingsley), que percebe que o agente talvez tenha motivos particulares para tentar fechar a instituição.

Contando com um design de produção hábil em estabelecer o clima ameaçador e claustrofóbico exigido pelo roteiro, Ilha do Medo é mergulhado em uma paleta triste e sufocante desde o início, quando os agentes vividos por DiCaprio e Ruffalo surgem vestindo roupas de tons escuros e arenosos (no caso do primeiro, o único contraponto reside em sua gravata verde que, presente de sua falecida esposa, representa justamente seu obsessivo apego ao passado). Complementado pelo constante cinza do terreno rochoso que cerca a ilha e pela fotografia evocativa do sempre brilhante Robert Richardson, o filme é repleto de planos magníficos como aquele em que vemos uma central telefônica localizada no único ponto iluminado de uma vasta sala dominada pela escuridão ou ainda aquele em que vemos grossas gotas de chuva ricocheteando no chão em alguns pontos brilhantes criados por clarabóias em um corredor – isto para não esquecermos do fabuloso momento em que dezenas de ratos parecem compor uma camada coesa sobre a rocha na qual o herói tenha abrir caminho. Além disso, Richardson é inteligente ao contrapor a escuridão dominante da narrativa aos flashbacks superexpostos que, assim, ganham simultaneamente a característica de um passado (literalmente) luminoso e inquietante.

Dominado por um clima conspiratório, já que todos os personagens parecem estar escondendo algo do protagonista, Ilha do Medo conta com um elenco fascinante – e mesmo surgindo em pequenas aparições (quase pontas), intérpretes como Elias Koteas (que se tornou um sósia de De Niro, velho parceiro de Scorsese), Jackie Earle Haley, John Carroll Lynch, Emily Mortimer e Patricia Clarkson conseguem se sobressair em cenas que não só movem a história para frente como ainda surgem como destaques isolados. Enquanto isso, Ben Kingsley cria um psiquiatra que, paradoxalmente, desperta nossa desconfiança crescente justamente por parecer tão razoável e sensato – e o veterano Max von Sydow, como seu colega Dr. Naehring, exala inteligência e ameaça ao surgir como um quase representante dos médicos nazistas que escaparam impunes no pós-Guerra.

E se Mark Ruffalo mais uma vez encarna um tipo complexo e carismático (e seu leve aceno de cabeça para Kingsley, no ato final da história, é ao mesmo tempo tocante e trágico), Leonardo DiCaprio recebe a difícil tarefa de encarnar um protagonista atormentado por lembranças e que na maior parte do tempo aparece fragilizado e vulnerável às investidas de seus inimigos. Aliás, é curioso observar como o sujeito, embora se julgue forte e determinado, é praticamente tratado como um paciente assim que pisa na ilha: atacado por forte enxaqueca e por enjôo do mar, ele é imediatamente medicado e, mais tarde, quando sua roupa é molhada pela chuva, acaba recebendo um uniforme que mal o diferencia dos demais pacientes da instituição – e não demora muito para que suas conversas com Kingsley e von Sydow remetam mais a uma sessão de terapia do que a um interrogatório propriamente dito. Fechando o elenco, não deixa de ser interessante perceber a inteligência de Scorsese ao escalar justamente Ted Levine para interpretar o diretor da prisão-hospício, já que, mais conhecido por viver o insano Buffalo Bill em O Silêncio dos Inocentes, ele parece representar a definição perfeita da máxima “os loucos tomaram conta do hospício”.

Porém, é ao retratar o tormento do herói em função de suas memórias que Ilha do Medo realmente ganha contornos de obra-prima: trazendo constantemente flashbacks e/ou delírios nos quais os planos são dominados por materiais em suspensão (neve, chuva, cinzas ou papéis), o filme ilustra a natureza etérea, inconstante e angustiante das lembranças de Teddy ao mesmo tempo em que, de um ponto de vista puramente analítico, fascina pelo brilhantismo de seus simbolismos – como no instante, por exemplo, em que vemos Michelle Williams parcial e quase simultaneamente carbonizada, ensopada e sangrando. Da mesma maneira, a fantástica montadora Thelma Schoonmaker investe em cortes secos que, trazendo saltos abruptos na imagem, remetem também a uma atmosfera de pesadelo e alucinações.

O que nos traz, claro, de volta à trama do longa – e caso ainda não tenha visto Ilha do Medo, sugiro que interrompa sua leitura (mesmo!) neste ponto e retorne somente após tê-lo conferido: ainda que a atmosfera da narrativa seja, como já dito, mais importante do que a história em si, não há como negar a beleza da construção do roteiro de Kalogridis: reparem, por exemplo, como logo de início Kingsley descreve o estado mental da desaparecida Rachel Solondo como girando em torno de uma ficção complexa e elaborada para que ela possa justificar para si mesma sua presença no hospício (o que, claro, acaba se revelando exatamente o caso de outro personagem). E percebam, também, como já em suas primeiras cenas DiCaprio revela não saber o que ocorreu com seu isqueiro, o que o obriga a carregar ostensivamente fósforos (arma de um incendiário) durante toda a projeção – um sinal de sua confusão mental tão revelador quanto o instante em que uma outra paciente pede água e percebemos várias marcas de copos sobre a mesa à sua frente antes mesmo que ela ponha o copo ali. Além disso, não é à toa que os guardas da ilha parecem sempre tensos diante de Teddy, mesmo quando ele “chega” à ilha pela primeira vez – e é curioso notar como todos parecem despreocupados e não exibem qualquer esforço para procurar Rachel, já que, claro, sabem que isso seria inútil. Finalmente, é preciso admirar detalhes como a dificuldade de Chuck em carregar sua arma (algo denunciado pela maneira atrapalhada com que a entrega ao supervisor da segurança), já que, na realidade, não tinha o menor hábito de portá-la.

Emocionalmente devastador em seus minutos finais (o plano em que DiCaprio surge abraçado aos três filhos, no lago, representa o instante de maior terror da projeção), Ilha do Medo ainda conta com um desfecho não apenas impecável, mas enriquecido também por uma trágica ironia. Incapaz de alcançar a auto-redenção (e como poderia, depois de tudo o que viveu?) e frustrado em suas tentativas de fugir de si mesmo, já que seus médicos insistem em trazê-lo “de volta”, Teddy finalmente descobre a maneira definitiva de deixar seu sofrimento para trás – e sua fala final representa desde já um dos momentos mais emblemáticos da carreira de Scorsese ao indicar a decisão do protagonista de usar deliberadamente a loucura que o dominara no passado como uma farsa que permita sua auto-destruição.

E assim como o Jack Torrance de Nicholson era finalmente “absorvido” pelo espírito do Hotel Overlook em O Iluminado, o Teddy Daniels de DiCaprio parece decidir que o labirinto de insanidade que usara como mecanismo de defesa era o que de melhor havia feito por si mesmo – e melhor seria se perder ali para sempre do que ser resgatado e conviver com a natureza trágica e monstruosa de sua própria vida.

Observação: ao final dos créditos, surge um aviso de que o estúdio não aceitou um centavo das companhias de tabaco para exibir os atores fumando compulsivamente ao longo da projeção – um cuidado que indica a mudança radical de Hollywood diante do antes “sofisticado” ato de fumar.

13 de Março de 2010

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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