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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
27/03/2009 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora

Direção

Jonathan Demme

Elenco

Anne Hathaway , Rosemarie DeWitt , Mather Zickel , Bill Irwin , Anna Deavere Smith , Anisa George , Tunde Adebimpe , Debra Winger

Roteiro

Jenny Lumet

Produção

Jonathan Demme

Fotografia

Declan Quinn

Música

Zafer Tawil

Montagem

Tim Squyres

Design de Produção

Ford Wheeler

Figurino

Susan Lyall

Direção de Arte

Kim Jennings

O Casamento de Rachel
Rachel Getting Married

Dirigido por Jonathan Demme. Com: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Mather Zickel, Bill Irwin, Anna Deavere Smith, Anisa George, Tunde Adebimpe, Debra Winger.

 

Em O Casamento de Rachel, o cineasta Jonathan Demme e a roteirista estreante Jenny Lumet (filha de Sidney) conseguem estabelecer, através do recorte de apenas um fim-de-semana na vida de seus personagens, um retrato profundamente complexo e tocante das relações entre os integrantes de uma família marcada pela tragédia que, apesar de todas as cicatrizes, tentam olhar com otimismo e alegria para o futuro embora nem sempre sejam bem sucedidos nesta tarefa. Assim como o recente (e excepcional) Feliz Natal, este filme também emprega uma festa familiar como palco de encontros e conflitos que podem servir como início de um longo processo de cura ou como estopim para a ruptura total entre aquelas pessoas – e é realmente admirável que, depois de apenas duas horas mergulhados naquele universo, saiamos do cinema não só com uma grande compreensão sobre os problemas daquela família, mas também envolvidos e movidos pelos personagens.

 

Quando a narrativa tem início, somos apresentados a Kym (Hathaway), que, depois de nove meses numa clínica de desintoxicação, finalmente recebe alta para comparecer ao casamento da irmã mais velha, Rachel (DeWitt). Voltando para casa num dia em que esta se encontra lotada de amigos e parentes, ela é obrigada a ouvir comentários sobre seu passado turbulento (“Eu não te vi em Cops?”) e, depois da felicidade inicial de se ver novamente ao lado de Rachel, as mágoas passadas começam a ressurgir, balançando as duas irmãs. Além disso, aos poucos vamos descobrindo a dimensão dos problemas causados por Kym em função das drogas e como estes, num ciclo interminável, acabaram alimentando sua necessidade de se afundar no vício.

 

Diretor que busca sempre readequar seu estilo de acordo com as necessidades de cada projeto e que, além disso, está acostumado a transitar entre a ficção e o documentário, Jonathan Demme emprega, em O Casamento de Rachel, uma abordagem bastante eficaz ao adotar uma filosofia obviamente inspirada no Dogma 95: usando a câmera sempre na mão e evitando usar uma trilha sonora convencional (todas as músicas e efeitos sonoros são diegéticos, ou seja, são originados pelo que vemos na tela), o cineasta parece se inspirar parcialmente no excelente Festa de Família, embora a família de Kym, mesmo com todos os seus problemas, esteja longe de se parecer com aquela vista no filme de Thomas Vinterberg (além disso, a fotografia de Declan Quinn é infinitamente mais bem cuidada do que aquela do longa de 98, que, claro, era limitado por sua própria filosofia de produção) . Surgindo como uma espécie de vídeo caseiro que documenta o intenso e cansativo fim-de-semana daquelas pessoas, O Casamento de Rachel encontra tempo ainda – como tantos trabalhos de Demme – para fazer rápidos e sutis comentários de ordem política ou social, como na cena em que alguém brinda um convidado da festa, desejando seu rápido retorno do Iraque.

 

Além disso, o ultra liberal (e obviamente otimista) Demme retrata a família e os amigos de Kym como um grupo de pessoas com uma mentalidade artística extremamente aberta que não permite espaço para o preconceito ou mesmo para discutir a inexistência deste: o fato de Rachel estar prestes a se casar com um homem negro (ou de seu pai ser casado com uma mulher negra) é algo que jamais inspira qualquer comentário – assim como, em Filadélfia, o relacionamento entre os personagens de Tom Hanks e Antonio Banderas era abraçado com amor e respeito pela família do protagonista. Neste sentido, é um alívio e mesmo algo promissor que finalmente Hollywood produza obras que não sentem necessidade de comentar seu próprio universo multirracial – e se quebro um pouco este encantamento justamente ao escrever sobre este detalhe, é porque, infelizmente, ainda não vivemos num mundo tão francamente harmonioso como aquele pintado pelo diretor (e sou capaz de apostar que o público sai do cinema com um desejo profundo de um dia poder comparecer a uma festa de casamento como aquela).

 

Não tão harmoniosa, contudo, é a natureza da protagonista da narrativa: ex-modelo (algo que descobrimos através de uma rápida menção a uma capa de revista para a qual ela posou), Kym é claramente uma figura ainda instável e explosiva. Porém, Demme e Lumet, numa decisão inteligente e fundamental para o sucesso do filme, retratam a moça numa reunião dos Narcóticos Anônimos logo no primeiro ato da projeção, permitindo que testemunhemos o envolvimento de Kym e mesmo sua emoção ao ouvir os depoimentos dos companheiros. Com isso, passamos a não ter dúvida alguma sobre a vontade da garota de mudar, de recuperar (ou de encontrar pela primeira vez) um equilíbrio para sua vida. Ao mesmo tempo, somos lembrados de como aquela trajetória é difícil e um simples deslize pode comprometer meses de tratamento, já que, como diz alguém, “uma dose é demais e mil não bastam”. Neste sentido, a simples pressão exercida pelo escrutínio dos parentes e amigos em seu primeiro dia de volta ao lar já pode ser o bastante para derrubar Kym e, assim, compreendemos por que ela desejaria fugir dali o mais rapidamente possível – e Anne Hathaway faz um trabalho soberbo, de total entrega, ao ilustrar todas estas nuances de sua personagem.

 

Rachel, por sua vez, é uma jovem madura e centrada que, embora ame a irmã, ressente a necessidade que esta tem de sempre buscar atrair a atenção de todos - e Kym realmente faz isto, como fica claro no discurso desajeitado e constrangedor que faz no momento dos brindes, quando, ao tentar se colocar como centro da festa, apenas embaraça a si mesma e aos demais convidados. Deslocada durante todo o dia justamente por ser relegada ao papel de coadjuvante, Kym parece ter se habituado a criar problemas até mesmo como forma de se manter sempre em evidência, o que força seu carinhoso pai, Paul (Irwin, maravilhoso, fantástico, impecável), a assumir uma posição terrivelmente exaustiva de intermediário entre a filha problemática e a outra responsável, especialmente em função da ausência da mãe das garotas (Winger), que encontra, no distanciamento emocional, uma forma de evitar não só os confrontos, mas também a responsabilidade de lidar com as filhas.

 

Mas a grande tragédia é que mesmo que se livre completamente do vício e se torne uma adulta equilibrada, Kym jamais poderá se libertar do passado, já que suas antigas ações trouxeram perdas irreparáveis para toda a família. Esta dor sempre presente e subjacente, aliás, é ilustrada por Demme numa cena maravilhosa na cozinha que, depois de se iniciar com uma brincadeira boba envolvendo um lava-louças, subitamente se torna terrivelmente dolorosa ao despertar inesperadas lembranças no normalmente jovial Paul. Porém, mais do que isso: depois de passar quase toda sua vida entrando e saindo de clínicas de desintoxicação e trazendo problemas para a família, Kym promoveu o surgimento de uma dinâmica nada saudável entre todos ali: Rachel, por exemplo, parece só se sentir realmente à vontade quando pode assumir o papel da adulta protetora que deve cuidar da jovem irmã irresponsável – e Rosemarie DeWitt, injustamente ignorada em muitas premiações, é brilhante ao retratar isto sem transformar Rachel numa figura arrogante ou antipática.

 

Pois a verdade é que, quando Kym se encontra bem, todos se sentem à vontade para condená-la por seus erros passados e demonstrar todo o ressentimento causado por estes, ao passo que, ao se mostrar ainda instável, ela permite que os parentes relaxem e assumam confortavelmente os papéis habituais. Neste aspecto, a garota não é a única a estar despreparada para tocar a vida adiante; seu pai e (especialmente) sua irmã também não parecem dispostos a abandonar a velha dinâmica. E o plano final, melancólico e contemplativo, é um lembrete poderoso de que aquela sofrida mas bela família ainda tem um longo caminho a percorrer até alcançar a tão merecida harmonia.

  

13 de Fevereiro de 2009

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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