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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/01/2009 01/01/1970 3 / 5 4 / 5
Distribuidora

Sim, Senhor
Yes Man

Dirigido por Peyton Reed. Com: Jim Carrey, Zooey Deschanel, Bradley Cooper, Danny Masterson, Rhys Darby, Fionnula Flanagan, Sasha Alexander, Brent Riscoe, John Michael Higgins, Terence Stamp.

 

Como funcionário de um banco responsável por avaliar pedidos de empréstimo, Carl Allen (Carrey) está mais do que acostumado a dizer “não” para as pessoas; na verdade, está condicionado a isso. Abalado também com o fim de seu casamento, ele se afastou dos amigos e do convívio social, passando a usar a palavra “Não” quase como um reflexo condicionado a qualquer sentença que termine com um ponto de interrogação. Certo dia, porém, Carl é levado a uma reunião de um grupo liderado pelo estranho Terrence (Stamp), criador de um sistema de auto-ajuda baseado no conceito de se dizer “Sim” a todas as oportunidades que se apresentarem – e ao abraçar esta idéia, Carl vê sua vida mudar radicalmente.

 

Comédia inspirada em um conceito simples como tantas outras da carreira cômica de Carrey (“homem ganha poderes divinos”; “homem só consegue dizer a verdade”; “homem tem personalidade dupla”), Sim, Senhor depende imensamente da eterna disposição de seu protagonista de se submeter ao completo ridículo em busca da gargalhada – e, assim, Carrey se entrega ao humor físico e às caretas que marcaram especialmente a primeira metade de sua carreira, conseguindo, no processo, divertir em vários momentos.

 

Infelizmente, isto acaba sacrificando sua composição de personagem, já que Carl surge mais como um objeto de cena, maleável e sempre pronto para ser empregado numa gag, do que como um indivíduo real e tridimensional: em um momento, ele se mostra sério ou mesmo constrangido diante de seu carente chefe no banco (Darby; no outro, não hesita em envolver a cabeça com uma fita transparente que deforma totalmente seu rosto apenas para divertir o sujeito. Da mesma forma, as mentiras que Carl conta para os amigos a fim de fugir dos convites que estes insistem em lhe fazer são sempre óbvias, como se ele fizesse questão de expô-las – algo que certamente não era intenção do roteiro, que não pinta o protagonista como alguém tenta magoar propositalmente os companheiros. Esta busca do ator pela piada, aliás, também compromete o instante em que Carl abraça o conceito da seita liderada por Terrence, quando não conseguimos avaliar se o sujeito está sendo irônico, cínico ou se realmente está se deixando envolver pelo que foi dito ali. Ainda assim, como já mencionado anteriormente, Carrey é bem-sucedido em várias de suas tentativas de humor – como na cena em que, bêbado, tenta enfrentar o acompanhante de uma garota com a qual flertou num bar.

 

Já Zooey Deschanel, embora surja linda como de costume, também traz sua apatia habitual ao encarnar o interesse romântico de Carl como uma garota levemente excêntrica se encanta com a “impulsividade” do sujeito – mas a atriz não consegue reunir energias nem mesmo para rir com naturalidade do namorado, soltando risadinhas preguiçosas que denunciam seu descaso para com o projeto. Já Terence Stamp encarna o papel que normalmente iria para Christopher Walken, fazendo um trabalho razoável com a caricatura que é encarregado de interpretar, ao passo que o raramente valorizado Luis Guzmán é mais uma vez relegado ao posto de quase figurante ao assumir uma ponta não creditada como um suicida em potencial. Com isso, o destaque do elenco secundário fica por conta do desconhecido Rhys Darby, uma espécie de Mike Myers que, por algum motivo que não consigo precisar, surge no filme com um visual que remete claramente ao jovem Michael Caine – mas que, apesar disso, cria um personagem que consegue despertar a simpatia do espectador.

 

Responsável pelo eficiente Separados pelo Casamento, o diretor Peyton Reed aqui peca por jamais conseguir definir o tom que pretende empregar: em alguns momentos, ele opta por um realismo que salienta corretamente o absurdo das situações constrangedoras nas quais Carl se mete, mas, em outros, ele descamba para um besteirol repleto de implausibilidades (e sem a menor graça), como na cena em que o “pastor” vivido por Stamp achata o nariz do protagonista com um microfone sem qualquer motivo. Com isso, o público jamais se situa completamente no que diz respeito às regras da narrativa, rindo de momentos que deveriam ser dramático e experimentando certo incômodo em cenas que supostamente deveriam ser engraçadas.

 

Mas talvez o maior problema do roteiro de Nicholas Stoller, Jarrad Paul e Andrew Mogel (baseado – muito levemente, suponho – no livro de Danny Wallace) resida mesmo em sua absoluta falta de conflitos, já que tudo corre bem para o protagonista na maior parte do tempo. O curioso é que isto seria algo relativamente fácil de corrigir, já que os problemas envolvidos na “obrigação” de se dizer sempre “sim” a tudo poderiam ser uma inesgotável fonte de dificuldades para Carl, o que não acontece. Assim, o trio de roteiristas opta por incluir, já no fim do segundo ato, uma crise terrivelmente artificial no relacionamento de Carl e Allison (Deschanel) – o que não apenas é falho do ponto de vista estrutural como ainda peca por soar falso, como uma simples exigência do roteiro.

 

Um erro que, por incrível que pareça, acaba empalidecendo diante da estúpida piada que encerra a projeção e que foi obviamente encaixada de qualquer maneira quando os realizadores perceberam que o filme “precisava” de uma risada final para mandar o espectador satisfeito para fora do cinema.

 

E que, comigo, teve o efeito inverso.

 

Observação: há uma cena boba e dispensável durante os créditos finais.

 

30 de Janeiro de 2009

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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