Seja bem-vindx!
Acessar - Registrar

Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/11/2009 01/01/1970 3 / 5 4 / 5
Distribuidora

Os Fantasmas de Scrooge
A Christmas Carol

Dirigido por Robert Zemeckis. Com: Jim Carrey, Gary Oldman, Colin Firth, Robin Wright Penn, Bob Hoskins, Daryl Sabara, Cary Elwes, Fionnula Flanagan.

Já vamos completar uma década desde que o cineasta Robert Zemeckis comandou seu último trabalho usando um set real ou locações. Depois de realizar obras geniais como Contato e a trilogia De Volta para o Futuro, o diretor atravessou uma fase irregular ao lançar os medianos Náufrago e Revelação em 2000 e, talvez sentindo a necessidade de uma auto-renovação, voltou quatro anos depois com o magnífico O Expresso Polar, no qual adotou a técnica do motion capture (que rebatizou de performance capture para salientar o envolvimento dos atores) e que passou a abraçar como seu método preferido de produção. Desde então, lançou o bom A Lenda de Beowulf e retorna agora com este igualmente eficiente Os Fantasmas de Scrooge.

Mas não é só Zemeckis quem retorna aos “filmes de Natal”: mais uma vez interpretando uma criatura avessa aos festejos que passa por experiências capazes de mudar seu temperamento (como no fraco O Grinch), Jim Carrey aqui assume o clássico personagem Ebenezer Scrooge, criado por Charles Dickens em seu moralista, mas eterno Um Conto de Natal, de 1843 (aliás, não me perguntem por que a distribuidora brasileira decidiu estupidamente alterar o título para Os Fantasmas de Scrooge): amargo, pão-duro e cruel, Scrooge maltrata seu fiel funcionário Bob Cratchit (Oldman), ignora seu sobrinho Fred (Firth) e se nega a ceder um centavo de sua imensa fortuna à caridade. É então que o fantasma de seu falecido sócio Marley (Oldman novamente) o visita para informá-lo de que será contatado por três espíritos: os dos Natais Passados, do Presente e Futuros – e que esta será a última chance do velho milionário redimir-se e evitar um castigo temível depois de sua própria morte.

Assim como acontecia em O Expresso Polar e A Lenda de Beowulf, Zemeckis e seus animadores não hesitam em usar os rostos de seus atores como base para a criação do visual dos personagens digitais e, assim, embora surja com queixo e nariz impossivelmente pontudos, Scrooge é obviamente uma versão estilizada e envelhecida de Jim Carrey, que, graças à captura de performance, ganha a oportunidade de emprestar todos os seus maneirismos e expressões faciais marcantes ao protagonista. Da mesma maneira, Bob Cratchit traz as feições de Gary Oldman em sua cabeça mais arredondada e Fred exibe uma versão mais pronunciada do conhecido queixo de Colin Firth. Além disso, a equipe de Os Fantasmas de Scrooge demonstra um bem-vindo cuidado com detalhes como a impressão pronunciada das veias nas testas e pescoços de alguns personagens, embora os velhos problemas da pele com textura de borracha e dos olhos vazios, sem vida, voltem a surgir aqui. Como se não bastasse, há vários instantes em que os movimentos das criaturas digitais soam duros, artificiais, abandonando a fluidez constante que testemunháramos nos longas anteriores do cineasta.

Em contrapartida, o design de produção de Doug Chiang, claramente inspirado nas ilustrações de John Leech que acompanharam a edição original do texto de Dickens, é impecável: da Londres vitoriana percorrida pelos personagens a pé ou em vôos rasantes até a imensa e brilhante sala que se estabelece como uma espécie de quartel-general do Espírito do Natal Presente, Os Fantasmas de Scrooge jamais deixa de impressionar. Da mesma forma, o design de som do premiado Randy Thom (veterano das animações e velho parceiro de Zemeckis desde Forrest Gump) ajuda a conceber o universo do filme como um mundo entre o fantasioso e o real sem jamais sentir a necessidade de ensurdecer o espectador na tentativa de transportá-lo para dentro da narrativa.

Aliás, já que mencionei a fidelidade às ilustrações de Leech, é importante observar também que o roteiro de Zemeckis se mantém incrivelmente próximo ao texto de Dickens, o que é admirável. Infelizmente, sempre que se distancia do original, o filme resvala no ridículo ou no puramente irritante, como no exagero das risadas do Espírito do Natal Presente e na terrível seqüência em que Scrooge se torna inexplicavelmente minúsculo ao (também inexplicavelmente) fugir do Espírito dos Natais Futuros – o que, inclusive, vai contra a própria lógica da trama. Não que seja difícil entender o propósito destas alterações: preocupado em agradar ao público mais jovem, Zemeckis claramente busca acelerar o ritmo da narrativa através da ação, aproveitando também para explorar os recursos do 3D – e, assim, somos mergulhados, contra os interesses da própria história, em rápidas viagens pelos céus e esgotos de Londres, geralmente acompanhando o protagonista por trás num ponto-de-vista de videogame que não faz jus aos talentos do diretor. Como se não bastasse, por ser um filme que exige uma fotografia naturalmente mais sombria, Os Fantasmas de Scrooge acaba sendo prejudicado também pelos óculos 3D, que tornam o filme ainda mais escuro e tornam os detalhes dos cenários praticamente invisíveis.

Seja como for, devo confessar que não lamento a migração (aparentemente definitiva) de Zemeckis para a animação, já que, no mínimo, o cineasta agora terá liberdade absoluta para continuar a criar seus movimentos de câmera imaginativos e que já impressionavam mesmo em seus projetos live-action. Espero apenas que sua fome por filmes de Natal já tenha sido satisfeita.

12 de Novembro de 2009

Comente esta crítica em nosso fórum e troque idéias com outros leitores! Clique aqui!

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

Para dar uma nota para este filme, você precisa estar logado!