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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/01/2009 01/01/1970 3 / 5 4 / 5
Distribuidora

Foi Apenas um Sonho
Revolutionary Road

Dirigido por Sam Mendes. Com: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Michael Shannon, David Harbour, Richard Easton, Kathryn Hahn, Dylan Baker, Jay O. Sanders, Zoe Kazan, Kathy Bates.

 

Ao escrever sobre O Curioso Caso de Benjamin Button, apontei as preocupantes semelhanças entre aquele filme e Forrest Gump – algo que se tornava ainda mais relevante ao considerarmos que ambos haviam sido escritos pelo mesmo roteirista, Eric Roth. Pois algo parecido me veio à mente ao assistir a este Foi Apenas um Sonho, cuja análise impiedosa das contradições entre a aparência idílica do american way of life do subúrbio e a crua realidade subjacente remete diretamente a Beleza Americana, primeiro longa de seu diretor, Sam Mendes. E, do ponto de vista temático, o cineasta faz realmente o mesmíssimo filme, embora, aqui, decepcione por acabar não fazendo jus ao magnífico livro de Richard Yates no qual se inspirou, mesmo mantendo-se bastante fiel a este.

 

Contando com a vantagem comercial de reunir o casal protagonista da produção que mais arrecadou em todos os tempos (além da coadjuvante Kathy Bates), Titanic, o roteiro de Foi Apenas um Sonho já nos apresenta a Frank (DiCaprio) e April Wheeler (Winslet, esposa de Mendes na vida real) quando estes já têm alguns anos de casamento (a cena na qual eles se conhecem dura pouco mais de um minuto) – e logo percebemos, pela forma com que conversam e até mesmo pela distância que mantêm um do outro enquanto caminham, que o relacionamento encontra-se em crise. Mergulhada no cotidiano entediante de dona-de-casa, April ainda tenta manter vivo seu antigo interesse por uma carreira de atriz, mas a desastrosa e amadora montagem teatral da qual participa em sua pequena cidade expõe não apenas sua falta de talento, mas a dura realidade de que talvez não seja tão “especial” quanto se considerava. Enquanto isso, Frank enfrenta a decepção de perceber que vem se transformando cada vez mais em seu pai, cuja trajetória ele cresceu condenando. Assim, quando April sugere que eles abandonem a vida de mediocridade que vêm levando e se mudem para Paris, onde Frank esteve durante a guerra, um novo e tentador sonho se abre diante do casal: a chance de voltarem a enxergar suas vidas como um caminho promissor e repleto de possibilidades, e não mais como o conjunto de decepções ao qual haviam se acostumado.

 

De certa forma, Frank e April podem ser considerados como uma versão mais jovem dos deprimentes George e Martha de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (interpretados por Richard Burton e Elizabeth Taylor na versão dirigida por Mike Nichols em 1966) – embora, aqui, a constante troca de insultos e de ataques extremamente cruéis seja fruto das angústias existenciais e das decepções mútuas, e não de um ódio recíproco (ainda que eles estejam claramente caminhando nesta direção). Além disso, falta a Frank e April a erudição ou simplesmente a inteligência para que seus insultos se aproximem da qualidade literária das ofensas trocadas por George e Martha – o que, curiosamente, não deixa de reforçar a tão temida mediocridade do casal. Tristes, cansados e solitários, Frank e April são amaldiçoados pela inquietude daqueles que se julgam destinados a grandes feitos e, portanto, é parte de sua tragédia que eles não tenham a inteligência ou a iniciativa para ao menos tentarem compreender que grande “destino” é este que pretendem alcançar.

 

Aliás, é justamente a capacidade que têm de sonhar que compromete de vez a estabilidade do casal: brevemente em sintonia, felizes e esperançoso com a idéia de uma possível fuga, eles parecem finalmente prestes a alcançar uma utópica liberdade de suas amarras sociais – e não é à toa que o casal vizinho aos Wheeler parece tão abalado e ofendido com a notícia da viagem: quando Milly (Hahn) chora ao falar sobre a viagem dos “amigos”, está lamentando, na realidade, sua própria incapacidade de fugir (e quando comemora ao perceber que Paris talvez permaneça apenas nos sonhos de April, está, de fato, em júbilo com o retorno de sua companheira de cela). Como se não bastasse, os Wheeler ainda são obrigados a confrontar a própria fraqueza através dos comentários do instável matemático John Givings, que, saído de um sanatório, encontrou sua própria forma de liberdade ao abraçar o rótulo de insano – e Michael Shannon cria, em apenas três cenas, um personagem que, em sua aparente loucura, mostra-se o mais lúcido de todos ao dissecar, certeira e cruelmente, o cadáver do casamento de Frank e April.

 

Vale dizer, aliás, que as atuações vistas em Foi Apenas um Sonho representam, sem dúvida alguma, o ponto forte do projeto: Winslet, por exemplo, já ilustra a insegurança de sua personagem já numa de suas primeiras cenas, quando, antes do fechar das cortinas de sua terrível apresentação, ela lança um olhar envergonhado ao marido na platéia, já antecipando o medo diante de sua avaliação. Sentindo-se cada vez mais limitada pelo papel de mãe e esposa, ela frustra-se de vez com o colapso de seu projeto de fuga – o que parece romper definitivamente sua última amarra às convenções, levando-a a adotar uma postura niilista que, não por acaso, flerta com a auto-destruição (moral, emocional e física). DiCaprio, por sua vez, cria um homem que se julga na meia-idade ainda aos trinta e poucos anos, revelando uma imaturidade óbvia por baixo do verniz de responsabilidade diante do emprego e da família – e suas ações por vezes impensadas o levam a uma postura de arrependimento, culpa e vergonha diante da esposa e dos filhos. Buscando sempre discutir aquilo que o incomoda (para desespero de sua esposa arredia), Frank parece acreditar ser capaz de convencer April – e a si mesmo – de que tudo está bem apenas através da força da racionalização, assustando-se sempre diante da maneira com que a esposa age e reage levada apenas pelo impulso e pela emoção. Assim, é comovente perceber como, em certo momento, ele se surpreende ao encontrar April estranhamente calma depois de um dia de dolorosas brigas: mesmo feliz e aliviado por vê-la tranqüila, Frank exibe uma inquietação crescente por não compreender aquela mudança brusca, agindo com cautela para não provocar outra explosão ao mesmo tempo em que tenta acreditar que a crise ficou para trás.

 

Conformistas (por comodismo ou pressão) num mundo que valoriza este traço e condena a imprevisibilidade, os Wheeler ainda têm o azar de morar numa rua cujo nome (Caminho Revolucionário) parece ridicularizá-los – e esta alfinetada, melhor trabalhada no livro, aqui surge apenas como um simbolismo sem qualquer sutileza, o que é lamentável. Da mesma maneira, é decepcionante perceber como Mendes e o roteirista Justin Haythe (Refém de uma Vida) suavizam o horror daquelas brigas ao sempre manterem os filhos do casal fora da equação, como se não existissem ou jamais testemunhassem as brigas pavorosas dos pais.

 

Fotografado com beleza pelo sempre competente Roger Deakins (que também salienta o clima claustrofóbico daquela relação ao sempre retratar as paredes se fechando sobre o casal), Foi Apenas um Sonho é terrivelmente prejudicado em função da abordagem distanciada e excessivamente racional de Mendes, que parece estar sempre julgando e condenando seus personagens. Assim, embora possamos até compreender as razões de Frank e April, toda aquela gritaria, retratada com um claro repúdio pelo diretor, acaba impedindo nosso investimento emocional na narrativa, levando-nos a analisar os Wheeler em vez de sentirmos sua dor, transformando-os, com isso, em apenas duas criaturas desagradáveis e presunçosas - e nem mesmo a riqueza temática do plano final é capaz de reverter esta problemática, mas inevitável impressão.

 

Observação: Zoe Kazan, que interpreta a secretária que flerta com DiCaprio, é filha de Robin Swicord, co-autora do argumento de O Curioso Caso de Benjamin Button. Coincidência boba mesmo se considerarmos o primeiro parágrafo deste texto, claro, mas que achei curiosa.

 

30 de Janeiro de 2009

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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