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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
27/06/2008 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Direção

Andrew Stanton

Elenco

Ben Burtt , Fred Willard , Sigourney Weaver , Jeff Garlin , John Ratzenberger , Kathy Najimy , Elissa Knight

Roteiro

Andrew Stanton

Produção

Jim Morris

Fotografia

Jeremy Lasky

Música

Thomas Newman

Montagem

Stephen Schaffer

Design de Produção

Ralph Eggleston

Direção de Arte

Bert Berry

WALL-E
WALL-E

Dirigido por Andrew Stanton. Com as vozes criadas por Ben Burtt. E também: Fred Willard, Sigourney Weaver, Jeff Garlin, John Ratzenberger, Kathy Najimy, Elissa Knight.

 

Há cerca de uma semana, fui submetido a uma cirurgia (a terceira – e última, espero – em um ano) e recebi a recomendação de permanecer algumas semanas em repouso absoluto. Nada de ir ao cinema, nada de trabalhar, nada de escrever; apenas descansar, relaxar e permitir que o velho corpo volte à normalidade. Mas eis que surge WALL•E, nova produção da Pixar, e me vejo irresistivelmente atraído à sala de projeção (afinal, estamos falando do estúdio que criou Toy Story, Toy Story 2, Monstros S.A., Procurando Nemo, Os IncríveisCarros e Ratatouille!). E como, depois de assistir à magnífica e apaixonante experiência representada por WALL•E, eu poderia deixar de escrever sobre este filme que parece representar uma espécie de mistura perfeita de Chaplin, Kubrick e Disney?

 

Escrito por Jim Reardon e pelo diretor Andrew Stanton a partir de um argumento concebido por este e Pete Docter, WALL•E já tem início revelando a imagem angustiante do planeta Terra cercado por um verdadeiro anel de lixo, refletindo também o estado de sua superfície. Abandonado pelos humanos depois de se tornar inabitável, o planeta tem, como último ocupante, o robozinho que dá título ao projeto e que passa seus dias exercendo a (agora inútil) função para a qual foi criado: compactar e organizar todo o lixo criado pela humanidade – algo que dá origem a imensas construções de refugo que, de uma estranha maneira, remetem às Pirâmides e às ruínas Maias. É então que uma nave desconhecida deixa na Terra a robô EVA, que imediatamente desperta a curiosidade do solitário WALL•E.

 

Contando com um primeiro ato praticamente livre de diálogos, o filme investe, em sua meia hora inicial, num design de produção que aposta numa paleta apropriadamente apagada que retrata o planeta como um universo de poeira e ferrugem – algo que contrasta de maneira eficaz com as cores fortes e a tecnologia impressionante que serão apresentadas a partir do segundo ato. Além disso, a ótima trilha de Thomas Newman foge das melodias engraçadinhas e ajuda a compor a atmosfera pós-apocalíptica do longa, incluindo, ainda, trechos de canções que normalmente não associaríamos a uma produção supostamente voltada para o público infantil, como “La Vie em Rose” (na voz de Louis Armstrong) e “Assim Falou Zaratustra” (mais conhecida como o “tema” de 2001: Uma Odisséia no Espaço). Estas opções narrativas, porém, se revelam mais do que adequadas, já que a alma do filme consiste na doce trajetória de duas criaturas que, criadas para seguirem cegamente suas diretrizes, gradualmente descobrem a própria individualidade e -  o mais importante – a magia que surge quando encontramos, no outro, algo que nos completa de alguma maneira.

 

Concebido como uma mistura do Número 5 de Um Robô em Curto-Circuito e o E.T. de Spielberg (percebam a similaridade no formato da cabeça, na extensão do pescoço e até mesmo em seu “coração” brilhante), WALL•E também é uma evidência de todas as lições que a Pixar aprendeu com os clássicos da Disney no que diz respeito à antropomorfização de qualquer tipo de criatura: animais, carros ou pedaços de lata – e seus olhos tristes e com “pupilas” dilatadas representam um exemplo básico de como encantar através da vulnerabilidade do personagem (lembrem-se da “carinha” do Gato de Botas, em Shrek 2, realizado pela concorrente PDI/DreamWorks). Mas, mais do que uma simples criação “bonitinha”, WALL•E exibe uma personalidade encantadora: curioso por natureza e solitário por imposição, ele revela uma pureza contagiante ao descobrir beleza nos mais prosaicos objetos, como um isqueiro de metal ou a embalagem de um anel de diamantes (o qual ele imediatamente joga fora).

 

Assim, quando se vê diante de EVA, que ele imediatamente reconhece como uma semelhante, o robô busca estabelecer um relacionamento que modelou a partir daquilo que considera como o “padrão” da interação humana: a seqüência musical “Put On Your Sunday Clothes” de Alô, Dolly, de 1969, e à qual ele assiste repetidamente em uma desgastada cópia em VHS. E demonstrando que uma comédia romântica (algo que WALL•E parcialmente é) não precisa repetir velhos clichês para funcionar, aqui a dinâmica entre o “casal” principal não depende de convenções como “brigam, mas se amam”, já que, em vez disso, vemos como WALL•E conquista EVA apenas com sua tocante personalidade: se inicialmente ela o encara apenas como um exemplar da “fauna” local, gradualmente percebe os atrativos do companheiro que, mesmo que a irrite ocasionalmente por não perceber a seriedade da situação na qual se envolveram, é indubitavelmente uma alma gentil e atenciosa. Aliás, não é nada estranho falar em “alma” ao discutir WALL•E, já que este personagem se mostra infinitamente mais humano do que a maioria absoluta das criaturas unidimensionais de carne-e-osso que costumam protagonizar as superproduções norte-americanas – e, neste sentido, as vozes criadas pelo veterano sound designer Ben Burtt (Star Wars) se revelam fundamentais no processo (e não é à toa que o citei em primeiro lugar ao listar o elenco, no início deste texto).

 

Demonstrando inteligência ao adotar um estilo de direção totalmente diferente daqueles exibidos em Vida de Inseto e Procurando Nemo, o cineasta Andrew Stanton compreende que, em WALL•E, uma abordagem mais realista tornaria a narrativa ainda mais urgente e ressonante e, assim, freqüentemente cria planos instáveis que simulam a câmera na mão, emprega o rack focus com propriedade e investe até mesmo em zooms rápidos que parecem indicar que algum elemento da ação ocorreu inesperadamente, obrigando o operador de câmera a fazer um ajuste rápido (como na cena em que o protagonista é atingido por vários carrinhos de supermercado). Além disso, Stanton cria seqüências de imensa poesia, permitindo que a simples beleza plástica domine momentaneamente a narrativa, como na seqüência em que WALL•E e EVA flutuam no espaço impulsionados pela espuma de um extintor de incêndio e por jatos violeta que se cruzam num balé que remete à Fantasia, de 1940. Isto não impede, também, que o diretor aposte em gags visuais menos sofisticadas, mas não menos divertidas, como ao revelar que até mesmo os depósitos de lixo da luxuosa nave Axioma contam com “ratos”. E se os filmes da PDI/DreamWorks costumam depender exageradamente de referências pop contemporâneas, transformando citações a produções recentes em uma de suas principais fontes de humor (ver Shrek 2), WALL•E homenageia suas influências de forma infinitamente mais sutil e inteligente, como ao conceber o piloto automático AUTO como uma espécie de primo do HAL 9000 da obra-prima de Kubrick.

 

E se tudo que discuti anteriormente já serviria para estabelecer o filme como um clássico instantâneo, a surpresa se torna ainda mais agradável ao constatarmos que WALL•E também revela grandes ambições temáticas, como ao retratar os humanos do futuro como criaturas morbidamente obesas e tristemente inativas, numa crítica ácida às conseqüências de uma sociedade cada vez mais voltada ao consumo e que faz eco a argumentos semelhantes presentes no também fantástico As Bicicletas de Belleville. Impulsionados apenas pelo que lhes ordena a publicidade onipresente, os humanos se encontram cegos para a beleza à sua volta – e se o “modelo” de Alô, Dolly! defende a interação humana como fonte inesgotável de alegria, aqui os habitantes da Axioma jamais desgrudam os olhos das telas que os impedem de enxergarem uns aos outros.

 

Curiosamente, alguns vêm criticando a suposta hipocrisia de um filme que, patrocinado pela megacorporação Disney, ataca o consumismo. Ora, isto apenas enobrece ainda mais o longa, comprovando que, mesmo nas mais impessoais e opressoras corporações, ainda há indivíduos que, operando de dentro, não permitem que a lógica do lucro e da burocracia oprima valores intrínsecos à natureza humana, como a criatividade e o amor pelo novo. Aliás, isto reflete justamente a principal mensagem de WALL•E, o que não deixa de ser um exemplo da Vida e da Arte em sintonia num mesmo projeto, já que os humanos do filme também reencontram sua curiosidade intelectual graças a um produto da indústria: o próprio WALL•E.

 

Celebrando o valor da individualidade no que esta tem de melhor (não o egoísmo, mas a coragem de ser diferente), não é à toa que WALL•E acaba encontrando seus heróis num grupo de robôs “desajustados” – e, neste sentido, o filme de Andrew Stanton acaba se estabelecendo, ao lado de Os Incríveis e Ratatouille, como um dos mais adultos e intelectualmente ambiciosos produzidos pela Pixar, firmando-se como mais um clássico moderno entre tantos já realizados pelo fantástico estúdio de John Lasseter.

 

Observação: Não há cena adicional após os créditos, mas o logotipo da corporação BNL, que domina o universo de WALL•E, faz uma última aparição.

 

28 de Junho de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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