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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
14/03/2008 09/11/2007 2 / 5 / 5
Distribuidora

P2 - Sem Saída
P2

Dirigido por Franck Khalfoun. Com: Wes Bentley, Rachel Nichols, Simon Reynolds.

 

Ao listar o nome dos integrantes principais do elenco de P2 – Sem Saída, logo acima, pensei seriamente em incluir as palavras “e o decote de Nichols” ao final. Aliás, seria mais do que justo, já que, de fato, o tal decote é a grande estrela do filme. Vou além: toda a trama de P2 nada mais é do que uma mera desculpa para enfiar a belíssima atriz num vestidinho branco justo e encharcá-la a fim de que ele fique ainda mais grudado em seu corpo escultural. Neste sentido, esta é uma produção quase impecável (só não chega a ser por não permitir que o vestido fique transparente depois de molhado).

 

“Que machista nojento”, muitas leitoras provavelmente estarão pensando neste momento – e compreensivelmente. Porém, assim como argumentei em meu texto sobre Os Gatões: Uma Nova Balada, peço que atribuam a culpa (ou, ao menos, a maior parte dela) ao filme e à própria Rachel Nichols, já que esta certamente tinha consciência de estar sendo utilizada como isca sexual para convencer os espectadores masculinos a investirem dinheiro nos cada vez mais caros ingressos de cinema (e, posteriormente, no DVD). Ou talvez ela tenha achado que a história concebida por Grégory Levasseur, Alexandre Aja e Franck Khalfoun (o quê? Três roteiristas?!) representaria uma metáfora para o isolamento crescente do indivíduo num mundo globalizad...

 

Não, impossível. Ambientado na noite de Natal, o longa mostra a jovem advogada Angela Bridges (Nichols) sendo perseguida na garagem do prédio em que trabalha pelo perturbado segurança do local, o jovem Thomas (Bentley). Vazio em função do feriado, o edifício se torna palco de uma disputa intelectual de resistência física enquanto perseguidor e perseguida (hehehe, o filme me fez regredir à adolescência) trocam agressões que incluem choques elétricos, garfadas, spray de pimenta, porretadas e por aí afora. O mais frustrante é que, inicialmente, Angela parece reagir aos problemas de maneira verossímil e sensata, chegando a forçar-se a manter a calma ao perceber que está lidando com um indivíduo psicologicamente desequilibrado. Gradualmente, porém, a necessidade de criar conflitos torna o roteiro cada vez mais absurdo e ridículo – a começar pela estupidez da garota ao não aproveitar uma conversa com a mãe pelo telefone para pedir socorro (algo que teria encerrado o filme aos 20 minutos de projeção, obviamente).

 

Porém, mesmo que ignoremos a burrice da moça (alguns podem alegar que ela não quis irritar seu captor, preferindo arriscar a vida ao descartar um pedido de socorro), P2 logo passa a forçar a barra ao exigir que acreditemos que Angela ficaria congelada diante da tevê, por exemplo, mesmo sabendo que Thomas pode surgir a qualquer momento. E por que o rapaz, mesmo irritado com as escapadas da moça, soltaria seu rottweiler em seu encalço sabendo que o animal poderia estraçalhá-la, já que ele jura, até o último momento, não ter a intenção de feri-la? E por que, oh, Deus, a unha da garota se parte gratuita e inexplicavelmente apenas por encostar no chão? (A resposta a esta última pergunta é fácil: falta de cálcio!)

 

Mas nada disso importa: para manter a impressão de que algo dramático está ocorrendo (mesmo quando estamos simplesmente vendo planos-detalhe do alto-falante no painel do elevador ou uma unha se partindo sem motivo), a terrível trilha sonora investe no exagero, chegando a se tornar ridícula ao incluir acordes dramáticos no momento em que a mocinha tropeça e cai de madura (a dupla responsável pela trilha se apresenta como “tomandandy”, o que reflete sua incrível inventividade. Tom e Andy, percebeu? Uau.). No final das contas, a verdade pura e simples é que P2 – Sem Saída não tem uma história interessante o bastante para preencher os minutos que dura.

 

E isto é uma pena, pois é visível, o esforço que Wes Bentley faz para tornar seu personagem absurdo em uma figura mais ou menos crível e trágica. Esforçando-se para parecer simpático em seu primeiro encontro com Angela, Thomas é um sujeito solitário que, sem qualquer habilidade social, parece adotar um comportamento que julga apropriado (em sua visão distorcida) para alguém que se encontra perdidamente apaixonado – e não é à toa que ele se torna ainda mais assustador justamente quando tenta fazer brincadeiras como uma pessoa comum. Aliás, sua falta de contato com a realidade é tamanha que, mesmo quando a situação assume contornos gravíssimos, ele questiona se Angela deseja que ele seja “demitido”, sem aparentemente perceber que seus atos, quando descobertos, acarretarão em algo bem mais sério do que uma reprimenda por parte de seu chefe.

 

Infelizmente, apesar de seu potencial para ser um personagem interessante, Thomas é tragicamente burro. Tão burro, diga-se de passagem, que mesmo as ações mais estúpidas de Angela assumem um contorno de genialidade se comparadas às atitudes do rapaz. E isto, para os propósitos da narrativa, é fatal, já que ele jamais surge como uma ameaça real à garota – e não é à toa que, mesmo fisicamente mais forte, é ele quem mais se machuca ao longo da projeção. Enquanto isso, Rachel Nichols não se revela particularmente expressiva, limitando-se aos gritos que o roteiro exige (o que, talvez por isso, não seja sua culpa). De todo modo, ela se sai admiravelmente bem naquilo que é o mais importante: o já discutido decote, que merecia um Oscar especial – talvez o Jean Hersholt, o “Oscar Humanitário” (ora, aquele decote pode pôr fim a guerras, eu garanto!).

 

Substituindo a tensão pelo choque, P2 jamais faz jus aos esforços anteriores da dupla Aja-Levasseur, como o surpreendentemente eficaz Viagem Maldita. Aliás, se este usava a violência como clímax de um suspense bem construído, desta vez a história vai diretamente ao gore, criando aquele tipo de cena que, de tão exagerado em seu teor gráfico, choca e diverte simultaneamente, levando o espectador a rir de sua própria reação ao ver tanto sangue e vísceras. (E os fãs de Buñuel ficarão felizes com a homenagem feita a Um Cão Andaluz no terceiro ato da trama – e estou certo de que o cinema estará repleto de admiradores do espanhol.)

 

Trazendo uma série de fotos ironicamente alegres em seus créditos finais (o que demonstra ou uma incrível coragem ou uma estarrecedora estupidez por parte do diretor), P2 – Sem Saída tem um ou outro momento eficiente, como a boa montagem na seqüência em que Angela tenta alcançar um carro de polícia, mas, de modo geral, é um descartável filme de gênero. Ou melhor: só não é descartável porque, afinal de contas, oferece O Decote.

 

O que me faz pensar que, talvez, P2 (“pê dois”) seja uma sutil referência sonora – e me desculpem a vulgaridade – ao seu atrativo principal (“peitões”). E que talvez a continuação se chame P3 e seja protagonizada por aquela prostituta marciana com três seios de O Vingador do Futuro e...

 

Hum... não. A referência não funcionaria em inglês. E “sutileza” é um conceito que os realizadores de P2 indubitavelmente desconhecem.

 

03 de Janeiro de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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