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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
28/03/2008 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora

Traídos Pelo Destino
Reservation Road

Dirigido por Terry George. Com: Mark Ruffalo, Joaquin Phoenix, Jennifer Connelly, Mira Sorvino, Elle Fanning, Sean Curley, Antoni Corone, Gary Kohn.

 

Traídos pelo Destino é um drama barato e maniqueísta que apela para truques narrativos rasos a fim de arrancar lágrimas do espectador e, assim, comprovar o próprio valor. Caso não contasse com um elenco de peso, porém, o filme dificilmente teria escapado de um lançamento direto em DVD ou na televisão norte-americana, já que até mesmo sua pavorosa trilha sonora introdutória (obra do normalmente fraco Mark Isham) parece ter sido reciclada de tantos outros “dramas da semana” produzidos para preencher a programação e atrair anunciantes.

 

Escrito pelo diretor Terry George ao lado de John Burnham Schwartz a partir do livro deste último, o roteiro aborda uma perda que certamente é a pior que um ser humano pode experimentar: a do próprio filho. Violoncelista promissor e filho adorado, o pequeno Josh (Curley) é atropelado diante do pai, o professor universitário Ethan Learner (Phoenix), quando retornavam de um recital ao ar livre. Assustado e com medo de perder o direito de visitação ao filho, o advogado Dwight Arno (Ruffalo), que dirigia o carro responsável pela tragédia, foge sem prestar auxílio, mergulhando numa terrível crise de consciência ao constatar a dimensão do acidente. Enquanto isso, Ethan e a esposa Grace (Connelly) entram em crise em função da insistência do professor em tentar descobrir a identidade do motorista que matou seu filho, o que o leva a negligenciar a família, que conta ainda com a pequena Emma (Fanning).

 

Já de início, Traídos pelo Destino falha ao tentar nos convencer do sofrimento pavoroso experimentado pela família Learner, já que a dor exibida por Ethan e Grace é contida demais: com exceção de um momento ou outro de pranto, eles se mostram excessivamente compostos diante da perda já nos instantes seguintes à tragédia, quando Ethan aceita deixar a cena do atropelamento para retornar para casa ao lado da esposa e da filha – e duvido muito que algum pai abandonaria o corpo do filho no meio de uma rodovia aos cuidados de estranhos. Além disso, em apenas uma semana o sujeito passa a se mostrar obcecado em encontrar furos na Lei relativa a omissão de socorro, ao passo que, menos de um mês depois do acidente, Grace já proclama seu cansaço com relação à forma com que o marido vem lidando com a perda, já que quer “seguir adiante” com sua vida. Um mês?! (E é claro que o diretor Terry George ilustra o sofrimento de Ethan ao retratá-lo incapaz de transar com a esposa - o que não deixa de ser lógico: é preciso estar muito mal para rejeitar Jennifer Connelly, suponho).

 

Mas a mão pesada do cineasta não pára por aí: se a falta de sutileza beneficiou seu impactante trabalho anterior, Hotel Ruanda, aqui ela se transforma num problema impossível de ignorar – e desde os planos de abertura, quando vemos imagens da tranqüila e agradável cidade na qual a história se passará, podemos perceber as intenções maniqueístas de George ao preparar um choque por contraste ao seguir aquelas cenas com a morte de Josh. Da mesma forma, o diretor insiste numa comparação irritante ao apresentar os personagens principais: se Ethan surge engomadinho, barbado e com o cabelo cuidadosamente partido para se estabelecer como um disciplinado acadêmico, Dwight é visto com um informal boné ou correndo com roupas largas. E se a família Learner investe a noite num programa claramente cultural, o advogado e seu filho vão a um jogo de baseball, como se a simples oposição entre “cultura” e “esporte” definisse a realidade daquelas pessoas. Como se não bastasse, Ethan é um pai de família exemplar, enquanto Dwight é divorciado, discute com a ex-esposa e é visto com desconfiança por esta.

 

No entanto, mais frustrantes que os contrastes artificiais são os instantes em que George busca forçar paralelos entre Ethan e Dwight através de uma montagem que contrapõe movimentos similares dos personagens, seja quando estes entram em suas casas ou surgem deitados em seus sofás. Para piorar, o roteiro abusa das coincidências com o intuito de criar conflitos e, assim, não basta que a ex-esposa de Dwight seja a professora de Josh e de Emma; não, não... ele vai além, ultrapassando a fronteira do absurdo ao levar Ethan a contratar Dwight como advogado, numa reviravolta estúpida que atira o espectador para fora da narrativa. E ainda insatisfeito, George concebe vários planos que tentam estabelecer uma forçada ironia dramática ao enfocarem a filha de Ethan ao lado do filho de Dwight, martelando o público com sua dinâmica supostamente “complexa” (e que é apenas tola em sua tentativa óbvia de manipular o espectador). Mas não é só: apelando também para o clichê do sujeito que tenta se entregar, mas não é ouvido por ninguém, Traídos pelo Destino logo se entrega a uma rotina que se limita a acompanhar Ethan enquanto este busca o culpado pela morte do filho enquanto Dwight se entrega à autocomiseração.

 

Prejudicados por personagens unidimensionais, Joaquin Phoenix e Jennifer Connelly até buscam emprestar intensidade aos momentos mais fortes da narrativa, mas a implausibilidade de suas discussões boicota consistentemente o esforço da dupla. E se Mira Sorvino passa (mais uma vez) em branco, a pequena Elle Fanning (irmã de Dakota) exibe o talento da família (já comprovado em Babel) ao criar a única integrante “real” da família Learner, reagindo com verossimilhança às ações e explosões de seus pais – e quando Grace chora desconsolada, Emma age como toda criança ao se entregar aos prantos apenas por ver a mãe desesperada. Finalmente, Mark Ruffalo se sai melhor do que seus parceiros de cena por contar com um personagem mais complexo: Dwight é um homem essencialmente bom e um pai que busca desesperadamente acertar, mas sua desatenção e a covardia momentâneas o lançam em uma terrível espiral de culpa, medo e dor.

 

Aliás, é no esperado confronto entre Ethan e Dwight que Traídos pelo Destino parece apostar suas mais valiosas fichas: afinal, depois de tentar se convencer de que o filho foi morto por um monstro desalmado que tenta usar até mesmo a imunidade diplomática para fugir de sua responsabilidade, como ele reagirá ao constatar que o acidente foi provocado por uma alma atormentada, por um indivíduo comum que teve apenas o azar de se distrair no momento errado? E mais: que tipo de catarse ele poderá experimentar ao “punir” o homem que tanto perseguiu? Lamentavelmente, o filme decepciona mais uma vez ao investir num terceiro ato (novamente) artificial que se preocupa mais em tentar levar o público às lágrimas do que em ser honesto com a natureza de seus personagens.

 

Se você estiver interessado(a) em um interessante exercício comparativo para avaliar a diferença entre um filme dolorosamente autêntico e esta farsa melodramática, sugiro que alugue Acerto Final, dirigido por Sean Penn em 1995 e que traz Jack Nicholson como o pai enlutado que decide matar o motorista que atropelou sua filha. É um trabalho exemplar e angustiante que reforça ainda mais a fragilidade narrativa e a desonestidade psicológica e emocional deste fraco e artificial Traídos pelo Destino.

 

28 de Março de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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