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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/01/2009 01/01/1970 3 / 5 5 / 5
Distribuidora

A Troca
Changeling

Dirigido por Clint Eastwood. Com: Angelina Jolie, John Malkovich, Colm Feore, Jeffrey Donovan, Michael Kelly, Geoffrey Pierson, Denis O’Hare, Amy Ryan, Eddie Alderson, Jason Butler Harner, Gattlin Griffith.

 

Embora afirme ser inspirado por uma história real ocorrida em Los Angeles no final da década de 20, A Troca aborda, na verdade, dois incidentes que acabaram se intercalando de maneira pavorosa: a ação de um serial killer canadense na Califórnia e o desaparecimento de uma criança em Los Angeles e a luta de sua mãe para encontrá-lo. Infelizmente, ao tentar lidar com estas duas narrativas, o filme de Clint Eastwood adota uma estrutura equivocada que o torna infinitamente mais longo do que o ideal, enfraquecendo ambas as tramas ao jamais explorá-las adequadamente.

 

Escrito por J. Michael Straczynski, um roteirista que construiu a carreira na televisão (chegando a assinar, na década de 80, mais de vinte episódios das séries de animação He-Man e She-Ra), A Troca emprega seus minutos iniciais para estabelecer a relação carinhosa entre Christine Collins (Jolie), uma mãe solteira, e seu filho Walter (Griffith). Quando o garoto desaparece misteriosamente, Christine solicita a ajuda da corrompida polícia de Los Angeles, que, meses depois, anuncia publicamente ter encontrado a criança. No entanto, ao se ver diante de um menino que não conhece, Christine denuncia o equívoco, recebendo, como resposta, a sugestão de “experimentar” o garoto por alguns dias – como se este fosse um eletrodoméstico na garantia. Ao insistir no erro da polícia, porém, a mulher acaba sendo internada em um hospício que, para todos os efeitos, nada mais é do que um depósito de delatores das ações irresponsáveis do departamento policial da cidade e onde o eletrochoque é usado não como tratamento, mas como punição.

 

A primeira metade de A Troca representa, aliás, um ótimo exercício narrativo sobre a frustração da protagonista diante da recusa da polícia em levá-la a sério. Incompetentes e corrompidos, os altos oficiais do departamento se mostram mais propensos a intimidar a população do que em ouvi-la – e não hesitam em usar o poder que detêm para afastar qualquer inconveniente que surja em seus caminhos. Com isso, o desespero crescente de Christine torna-se mais do que justificado, assim como sua angústia ao tentar provar a própria sanidade apenas para perceber que, não importa o que diga, o cruel psiquiatra responsável por sua internação irá distorcer suas palavras com o intuito de chantageá-la.

 

Contando com o belíssimo design de produção de James J. Murakami, o filme faz um trabalho de recriação de época impecável, acertando também nas cores sem vida que dominam os cenários que retratam o hospício. Neste sentido, a direção de arte faz uma eficiente dobradinha com a fotografia de Tom Stern, que, além de ressaltar a falta de vida no hospital psiquiátrico, ainda mergulha os gabinetes dos poderosos oficiais de polícia na sombra. Enquanto isso, Eastwood estabelece um clima de mau presságio já ao mostrar o pequeno Walter despedindo-se da mãe enquanto esta parte para o trabalho, quando afasta sua câmera lentamente do garoto no instante em que ele acena tristemente pela janela. Em contrapartida, o veterano cineasta, responsável também pela trilha sonora, erra ao investir em músicas que, mesmo criadas a partir de apenas algumas notas simples em instrumentos de cordas, soam intrusivas e aborrecidas.

 

Repetindo o estoicismo da Mariane Pearl que viveu em O Preço da Coragem, Angelina Jolie encarna, em A Troca, outra mulher disposta a tudo para encontrar um membro desaparecido de sua família – e o fato é que a atriz retrata com sensibilidade a dor de uma mãe que enfrenta a pior tragédia imaginável para quem tem filhos. Aliás, a performance de Jolie é tão eficiente que, mesmo que o filme não tente explicar as ações da mulher, compreendemos por que ela aceita levar uma criança estranha para casa, precisando se ver diante de evidências irrefutáveis para finalmente rejeitá-la: trata-se de um desejo irrefreável e irracional de ter o filho de volta associado a um temor compreensível diante das autoridades que insistem em convencê-la a ficar com o garoto – e é apenas ao render-se de vez àquele desejo que ela encontra forças para finalmente enfrentar este temor. Contudo, se Jolie merece aplausos por sua entrega emocional à personagem (e Amy Ryan se destaca em seus poucos minutos em cena), o habitualmente eficiente John Malkovich parece confuso ao compor o reverendo Briegleb, encarnando-o com o tom cínico de um vilão ainda que ele seja claramente um dos “mocinhos” da trama (o que pode confundir também o espectador). Para finalizar, Jeffrey Donovan e Colm Feore limitam-se à unidimensionalidade ao encarnarem os corrompidos oficiais que controlam a polícia como homens que parecem determinados em fazer apenas o mal.

 

Mas o grande problema de A Troca é mesmo estrutural: com 90 minutos de projeção, o principal conflito desenvolvido pelo filme (a luta de Christine para ser ouvida) é resolvido de maneira satisfatória, dando a impressão de que a narrativa caminha para seu desfecho – quando, na realidade, ainda temos quase uma hora por vir. É neste ponto, aliás, que o roteiro passa a desenvolver uma segunda história, que, girando em torno do monstruoso Gordon Northcott (Harner, excelente), praticamente abandona seu tom de denúncia no que diz respeito às ações da polícia de Los Angeles a fim de se converter num filme sobre um cruel serial killer. Infelizmente, a esta altura torna-se impossível desenvolver apropriadamente o personagem do criminoso, o que leva Straczynski a ignorar sua terrível história de vida (que inclui o fato dele ter sido fruto de uma relação incestuosa entre sua irmã e seu pai e de ter obrigado a mãe a ajudá-lo em seus crimes).

 

Como se não bastasse, Eastwood, não percebendo a redundância narrativa que irá cometer, emprega um longo tempo ao retratar dois julgamentos cujos desfechos são claros para o espectador antes mesmo que a primeira cena chegue ao fim. Para piorar, o cineasta ainda se entrega a uma longa seqüência que ilustra com detalhes a execução de um criminoso, demonstrando, neste momento, já não ter mais qualquer idéia sobre o tipo de filme que pretendia fazer – e maior prova disso é que os letreiros finais revelam os destinos de personagens que haviam abandonado a projeção há mais de meia hora, quando a história havia atingido seu segundo desfecho possível (e que também foi prontamente ignorado por um roteiro que parece não querer – ou saber - chegar ao fim).

 

Claramente concebido como uma isca para a Academia (não é à toa que a transmissão do Oscar de 1935 recebe destaque em outra cena totalmente dispensável), A Troca é ancorado por uma forte performance que, infelizmente, está a serviço de um filme irregular. E é bastante provável que Eastwood tivesse plena consciência da fragilidade do longa, já que, para mandar o espectador para fora do cinema com uma mínima sensação de satisfação, ainda chega a omitir a informação de que, alguns anos depois dos fatos aqui narrados, o chefe de polícia James E. Davis voltou ao poder como se nada tivesse acontecido – uma desonestidade narrativa que decepciona ainda mais por partir de um diretor que, há pouco tempo, abraçou posições e temas polêmicos ao realizar dois ótimos filmes como Menina de Ouro e Cartas de Iwo Jima, mas que aqui parece tristemente acovardado diante da vontade de agradar seu público. 

 

24 de Janeiro de 2009

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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