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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/01/2009 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora

Direção

Michel Gondry

Elenco

Jack Black , Mos Def , Danny Glover , Mia Farrow , Melonie Diaz , Marcus Carl Franklin , Sigourney Weaver

Roteiro

Michel Gondry

Produção

Michel Gondry

Fotografia

Ellen Kuras

Música

Jean-Michel Bernard

Montagem

Jeff Buchanan

Design de Produção

Dan Leigh

Figurino

Rahel Afiley , Kishu Chand

Direção de Arte

James Donahue

Rebobine, Por Favor
Be Kind Rewind

Dirigido por Michel Gondry. Com: Jack Black, Mos Def, Danny Glover, Mia Farrow, Melonie Diaz, Marcus Carl Franklin, Sigourney Weaver.

 

Ao longo de sua carreira, o diretor francês Michel Gondry nunca fugiu dos problemas técnicos que surgiam à sua frente. Na realidade, ele sempre pareceu fascinado pelo desafio de contornar estes obstáculos de maneira criativa, sem precisar apelar para a facilidade oferecida por largos orçamentos. Assim, foi um dos primeiros a conceber a técnica das fotografias que, tiradas simultaneamente ao redor de um objeto ou pessoa, criam a sensação da câmera flutuando em um ambiente “congelado” (algo que os irmãos Wachowski refinariam com sua “bala mágica” em Matrix) e sua parceria com a cantora Björk se tornou célebre pela inventividade dos vídeos produzidos. E se a maior parte dos cineastas optaria pelos efeitos de computador na concepção da cena em que Jim Carrey se encontra fisicamente diminuído, em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Gondry mais uma vez demonstrou seu talento para soluções alternativas ao planejar um cenário que, com objetos de cena construídos para simular determinadas alterações na perspectiva, criava o efeito necessário sem empregar manipulação digital. Aliás, a atração de Gondry por este tipo de “brincadeira” é tão grande que, em seu tempo livre, ele chegou a produzir diversos vídeos para seu canal no YouTube - como aquele em que resolve um cubo mágico com os pés.

 

Pois este aspecto do temperamento artístico do diretor é a base de Rebobine, por Favor, cujo roteiro (também de sua autoria) gira em torno de dois amigos, Mike (Def) e Jerry (Black), que decidem recriar de maneira caseira várias das principais superproduções de Hollywood depois que um acidente desmagnetiza todas as fitas VHS do estoque da locadora pertencente ao bondoso Elroy Fletcher (Glover). Ameaçado de despejo caso não faça um amplo reparo no prédio em que vive, ele parte numa viagem de pesquisa a fim de tentar descobrir como modernizar seu negócio sem saber que, em sua ausência, Mike e Jerry vêm alcançando grande sucesso com os filmes “suecados” que produzem (o termo nasce de uma explicação improvisada para os clientes sobre a origem das fitas empregadas pela dupla e que, vindas da Suécia, seriam mais caras do que o habitual). Empregando uma câmera VHS barata e efeitos improvisados, os dois amigos dirigem versões caseiras de obras como Os Caça-Fantasmas, Conduzindo Miss Daisy, King Kong e 2001 – Uma Odisséia no Espaço, tornando-se populares na vizinhança e atraindo a atenção até mesmo dos grandes estúdios.

 

Recriando movimentos de câmera dos longas originais e empregando até mesmo trechos de suas trilhas sonoras (imagino que o departamento legal da New Line tenha passado meses obtendo as autorizações dos produtores destes filmes), Gondry não se furta nem mesmo de usar seus vídeos “suecados” como breves comentários críticos dos projetos recriados – como ao apontar (acertadamente) que Bill Murray é o centro absoluto de Os Caça-Fantasmas ou ao sugerir (também acertadamente) que Conduzindo Miss Daisy soa perigosamente condescendente em sua mensagem supostamente edificante. Não me lembro de quem escreveu (Truffaut?) que a única maneira de se criticar um filme é fazendo outro filme, mas trata-se de uma idéia curiosa, embora impraticável, que Gondry parece adotar em certa escala neste seu trabalho.

 

De todo modo, mais interessante do que os breves comentários sobre os longas abordados é a inventividade do diretor ao se manter fiel aos limites de seus personagens ao conceber suas produções “suecadas”: assim, para recriar o efeito de um fantasma atravessando a parede, Gondry (leia-se: Mike e Jerry) emprega o corte seco que, com a câmera mantida em posição fixa, substitui o plano da criatura diante da parede por outro no qual ela já saiu de cena, criando a ilusão capenga de que ela cruzou o obstáculo. Da mesma maneira, uma pizza se transforma numa poça de sangue, numa cena retirada de Os Donos da Rua, ao passo que um jogo de perspectiva faz com que Jerry, caracterizado como King Kong, “agarre” a dublê de Fay Wray em seu quarto no alto de um prédio. Aliás, há um longo plano, em certo instante de Rebobine, por Favor, em que vários filmes são “suecados” num único movimento sem cortes que comprova o admirável virtuosismo técnico do cineasta, estabelecendo-se como o momento mais memorável do longa.

 

Além disso, é claro que sua natureza auto-referencial transforma o filme numa grande homenagem ao próprio cinema – e um exemplo disso é a “noite americana” extremamente porca que Jerry concebe ao acionar o efeito de “visão noturna” da câmera, encontrando uma outra solução absurda, mas hilária, para que os rostos dos atores surjam sem distorções em cena. Curioso, também, é observar como ele aponta acertadamente que todas as cenas noturnas em externas exigem que o chão esteja molhado, mas sem parecer entender exatamente por que isto ocorre (facilita o trabalho de iluminação e restabelece a profundidade do campo), ou como Mike emprega um ventilador para simular a velocidade de 16 quadros por segundo do período do cinema mudo. E mais: numa seqüência particularmente interessante, os protagonistas entrevistam várias pessoas acerca de um músico famoso com o propósito de realizarem uma espécie de docu-drama e, com os depoimentos colhidos, tentam organizar a estrutura do filme a partir da ordem das fitas com as gravações – exatamente como muitos roteiristas fazem durante a elaboração de seus projetos ao empregarem cartões coloridos contendo cenas específicas da trama.

 

Mas Gondry se revela ainda mais ambicioso em sua abordagem narrativa ao empregar o filme também como um comentário sobre a pasteurização das superproduções contemporâneas de Hollywood: convencido de que sua locadora só precisa ter duas seções (comédia e ação), Fletcher decide se livrar do estoque de documentários e clássicos ao perceber que boa parte do público moderno busca apenas o escapismo e o entretenimento descerebrado, num comentário ácido (e tristemente preciso) sobre o Cinema atual. Além disso, o diretor dá uma alfinetada na paranóia dos grandes estúdios no que diz respeito à pirataria ao mesmo tempo em que celebra a democratização da Sétima Arte graças à tecnologia digital, que facilita não apenas a reprodução das obras, mas também sua realização.

 

Doce em seu amor declarado pelo Cinema, Rebobine, por Favor falha apenas por não ser tão engraçado quanto parece se considerar e também por seu final que, emprestado de Cinema Paradiso, é artificial e oferece uma resolução que, na realidade, nada soluciona. Ainda assim, não há como negar o encantamento proporcionado pela seqüência em que vemos as expressões sonhadoras e sorridentes da platéia que assiste à última produção de Mike e Jerry – especialmente se constatarmos que, em maior ou menor grau, também estamos sendo submetidos àquela mesma magia.

 

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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