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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
21/09/2007 01/01/1970 3 / 5 4 / 5
Distribuidora

Ligeiramente Grávidos
Knocked Up

Dirigido por Judd Apatow. Com: Seth Rogen, Katherine Heigl, Paul Rudd, Leslie Mann, Harold Ramis, Jason Segel, Jay Baruchel, Jonah Hill, Martin Starr, Charlyne Yi, Iris Apatow, Maude Apatow, Alan Tudyk.

Não é à toa que Ligeiramente Grávidos, segundo trabalho na direção de Judd Apatow, termina com a bela canção Daughter, que traz os versos “Aquela na água é minha filha / Tudo que ela sabe, eu ensinei. (...) Toda vez que ela pisca / Cega alguém.” – afinal, o filme encara a paternidade como uma responsabilidade difícil, mas com imensas recompensas (e tampouco é coincidência o fato das duas filhas do cineasta aparecerem com destaque no longa). Assim, é quase inevitável sair do cinema com uma sensação agradável, já que mesmo algumas das piadas mais grosseiras do roteiro (também escrito por Apatow) exibem uma inocência cativante.

Parceiro habitual do diretor, o ator Seth Rogen aqui encarna Ben Stone, um destes jovens que se recusam a se tornar adultos, levando uma existência sem compromissos ou propósito. Para justificar a própria inutilidade, ele cria, com um grupo de amigos, um site dedicado a informar os filmes (e respectivos timecodes) nos quais atrizes bonitas surgem nuas. Certa noite, em uma boate, Ben conhece a linda Alison Scott (Heigl), que está comemorando o fato de ter sido promovida a apresentadora do canal E!. Bêbados, eles dormem juntos e, dois meses depois, a garota descobre ter engravidado daquele sujeito grosseiro com quem nunca mais se encontrara. Negando-se a realizar um aborto, ela decide que o mais apropriado é dar uma chance para que um relacionamento amoroso possa surgir entre os dois – uma forçada de barra (uma mulher inteligente e madura sentindo-se “obrigada” a namorar um babaca sem futuro?) que, mesmo implausível, revela-se necessária para que o filme possa acontecer.

Seguindo a linha Will Ferrell, o comediante Seth Rogen não hesita em se submeter ao ridículo para provocar o riso: longe de ser um galã, ele exibe o corpo fora de forma para ilustrar, de maneira econômica, a repulsa que Alison sente ao constatar, depois de sóbria, o erro que cometera na noite anterior – e, da mesma forma, arranca uma boa gargalhada ao encaixar um arroto estratégico em um ponto do discurso apaixonado que faz em um quarto de hotel, lembrando-nos de que Ben, apesar de todos os seus esforços, está longe de ser um “príncipe encantado”. Aliás, Rogen não tenta suavizar a imaturidade de seu personagem: vulgar e irresponsável, ele quase leva o espectador a torcer contra Ben na primeira metade da projeção, já que sabemos que Alison merece alguém infinitamente melhor. Assim, o ator cria um desafio adicional para si mesmo: ele passa a ter que (re)conquistar não apenas a mocinha, mas também o público – e, ao menos neste último caso, é bem-sucedido.

Menos eficaz é o tempo dedicado aos amigos do rapaz, já que, assim como em O Âncora (também produzido por Apatow) e O Virgem de 40 Anos, o protagonista é cercado por personagens secundários que o aconselham/irritam/ajudam/atrapalham ao longo de toda a história. Porém, se havia um equilíbrio nas aparições dos colegas de bancada de Ron Burgundy e nos colegas de loja de Andy Stitzer, desta vez há um claro exagero nas interrupções na narrativa feitas pelos sócios de Ben, que, infelizmente, não são tão engraçados quanto o filme parece acreditar (embora divirtam aqui e ali). Na maior parte do tempo, aliás, o grupo parece ter saído diretamente de um destes fóruns da internet dedicados a discussões rasas sobre filmes populares ou cults – o que abre espaço para referências a Garotas Selvagens, Carrie, a Estranha, Star Wars e, é claro, O Homem-Aranha 3 (aliás, este último é tão citado que passei a acreditar que a Sony/Columbia pagou por este aborrecido merchandising).

Em contrapartida, a atriz Katherine Heigl encontra o equilíbrio perfeito entre a comédia e o drama ao ilustrar o desespero de sua personagem com uma gravidez inconveniente ao mesmo tempo em que investe no humor ao exibir sua frustração com as imbecilidades de seu improvável parceiro romântico. Enquanto isso, Paul Rudd mais uma vez prova que já deveria ser um grande astro ao transformar um papel menor em um dos destaques do longa, sendo auxiliado na tarefa pela atriz Leslie Mann, que vive com talento sua esposa (Mann, diga-se de passagem, é esposa de Apatow e, portanto, mãe das jovens atrizes que aqui vivem suas filhas fictícias). Finalmente, também me sinto compelido a citar a breve participação de Craig Robinson (o almoxarife Darryl da hilária série The Office), que protagoniza uma cena impecável como o dividido porteiro de uma boate popular.

Infelizmente, o roteiro de Ligeiramente Grávidos não exagera apenas no tempo investido nos amigos do protagonista; as referências a celebridades também pecam pelo excesso – e, o que é pior, tornam o filme imediatamente datado. Sim, pode até ser engraçadinho (mas não muito) testemunhar piadinhas sobre Ryan Seacrest (apresentador do American Idol), Jessica Simpson, Jessica Alba, James Gandolfini, Oprah e James Franco, mas, daqui a 5, 10 ou 15 anos, estas citações servirão apenas para deixar o espectador confuso, já que é improvável que alguém faça as associações necessárias para perceber a “graça” (tá, tenho esperanças com relação à longevidade de Gandolfini e Franco. Ainda assim...). Aliás, para constatar a fragilidade deste tipo de piadinha, basta observar um exemplo retirado deste mesmo filme: quando alguém menciona Dom DeLuise, comediante medíocre justamente relegado ao esquecimento, a gag já nasce falha.

Excessivamente longo para uma comédia (mesmo erro cometido em O Virgem de 40 Anos), Ligeiramente Grávidos também é prejudicado pela tendência de Apatow de permitir que seus atores improvisem livremente e por sua ocasional falta de rigor ao deixar que muitas destas brincadeiras permaneçam na versão final do filme. Para sua sorte, no entanto, o longa é suficientemente divertido – e doce – para garantir uma nada hesitante recomendação.

20 de Setembro de 2007

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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