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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
19/09/2008 01/01/1970 1 / 5 / 5
Distribuidora

Missão Babilônia
Babylon A.D.

Dirigido por Mathieu Kassovitz. Com: Vin Diesel, Michelle Yeoh, Mélanie Thierry, Gérard Depardieu, Charlotte Rampling, Mark Strong, Lambert Wilson.

 

Não sou grande fã de Mathieu Kassovitz como cineasta, embora o julgue um ator competente (mas não espetacular). Ainda que tenha dirigido o marcante O Ódio, o francês certamente gastou todos os créditos conquistados com aquele trabalho em seus filmes subseqüentes, como o caótico Rios Vermelhos e, claro, sua primeira incursão em Hollywood, o absurdo Na Companhia do Medo. Porém, por mais decepcionantes que sejam estes dois últimos, nada indicava que Kassovitz pudesse realizar algo tão pavoroso quanto Missão Babilônia – e mesmo que o diretor tenha rejeitado publicamente o longa, afirmando não ter tido controle sobre o corte final, seria preciso um verdadeiro milagre para transformar o que vemos aqui em um filme minimamente passável.

 

Escrito pelo próprio Kassovitz ao lado de Joseph Simas e Eric Besnard a partir do livro de Maurice G. Dantec, o roteiro tem início com uma narração em off feita pelo protagonista e que imediatamente nos informa de sua morte – o que, claro, já implica que o filme trapaceará no terceiro ato ou se revelará uma bobagem com os dois pés no esotérico. Partimos, então, para um longo flashback (claro) que nos apresenta ao anti-herói Toorop (Diesel), que, numa Rússia pós-apocalíptica, surge como um ex-mercenário convocado pelo sombrio Gorsky (Depardieu, sob uma maquiagem que opta inexplicavelmente por aumentar seu já considerável nariz) para transportar um “pacote” até Nova York. O pacote em questão é a jovem Aurora (Thierry), que passou toda a vida num convento “noelita” (a religião predominante na Terra do futuro) e que, acompanhada pela freira Rebeka (Yeoh), pode carregar o futuro ou o fim da humanidade. Perseguidos por grupos rivais determinados a capturar Aurora, Toorop e a irmã Rebeka devem proteger a moça enquanto percorrem o longo e inóspito caminho até os Estados Unidos.

 

Uma Terra semi-destruída e praticamente entregue à anarquia? Uma jovem que pode carregar, no útero ou no sangue, o futuro do planeta? Um sujeito cínico que gradualmente redescobre o próprio idealismo? Se você se lembrou do magnífico Filhos da Esperança, sinto desapontá-lo(a): Missão Babilônia é, no máximo, uma versão “Forrest Gump” da obra-prima de Alfonso Cuarón, já que, no lugar das implicações políticas e sociais, traz diálogos sobre como um personagem criou um “supercomputador” ou previsões que, vistas em retrospecto, não fazem o menor sentido (por que Aurora afirma, por exemplo, que será morta se for entregue aos noelitas?). Como se não bastasse, Kassovitz desperdiça o forte elenco ao transformar Gérard Depardieu em uma caricatura grotesca e insignificante, Charlotte Rampling numa figura inexpressiva em sua tentativa de soar enigmática e Lambert Wilson em... bom, o francês sempre se repete em seu tipo cínico e antipático, então sua frágil performance não representa surpresa.

 

Buscando alcançar algum tipo de relevância através de breves menções ao aquecimento global e ao fanatismo religioso, Missão Babilônia ainda tenta usar uma demagógica crítica às corporações para disfarçar os inúmeros momentos de merchandising escancarado presentes ao longo da projeção – e o avião pintado com a logomarca de um refrigerante soa tão ridículo quanto os zepelins da Goodyear que se tornaram marca registrada da filmografia de Daniel Filho. Além disso, ao incluir citações a filmes como O Poderoso Chefão e O Mágico de Oz, o longa consegue apenas salientar, através da comparação, a própria pobreza artística, o que não deixa de ser irônico.

 

Competente ao menos no que diz respeito aos efeitos visuais, este trabalho de Kassovitz traz alguns planos interessantes ao buscar imaginar um futuro que contrapõe grandes avanços tecnológicos à decadência do mundo pós-bomba nuclear – e mesmo que os trilhos construídos sobre uma cratera supostamente deixada pelo impacto da bomba não façam muito sentido (que os construiu ali? E por que justamente naquele ponto?), a imagem não deixa de ser eficaz à sua própria e equivocada maneira. Do mesmo modo, o diretor demonstra alguma ambição ao ilustrar o início da jornada de Aurora através da passagem por um túnel que separa o passado harmonioso da moça e seu instável futuro – mas os méritos de Kassovitz param por aí, já que, entre outras coisas, ele se mostra absolutamente incapaz de conceber uma seqüência de ação que não surja terrivelmente confusa e mal coreografada. E se os travellings que registram as reações de Toorop e Auroda no instante em que esta faz uma revelação soam clichês ao extremo ainda piores são os repetidos planos em que Kassovitz afasta sua câmera para revelar que seus personagens se encontram no interior de algum meio de transporte (algo que Brian De Palma esgotou em seu Missão: Impossível, de 1996).

 

Mas não é só: preso ao roteiro esquemático que ajudou a escrever, o diretor desenvolve a dinâmica entre os personagens de maneira brusca, inverossímil. Em um instante, Toorop mantém Aurora e Rebeka à distância apenas para, minutos depois, surgir rindo ao lado das duas em uma tenda, como se tivessem se transformado subitamente numa família. Vale dizer, aliás, que esta cena é uma das piores do longa, já que inclui ainda o clichê do herói que, ao ser medicado pela mocinha, solta gemidos que provocam risos nas garotas e, claro, o instante inevitável em que alguém pergunta se o sujeito não “tem uma mulher que possa cuidar (dele)”. Para piorar, Kassovitz tenta estabelecer, do nada, uma tensão sexual entre Toorop e Aurora – isto depois de gastar um bom tempo estabelecendo a moça como uma quase criança, o que transforma o protagonista num quase pedófilo.

 

Ator que certamente demonstra possuir carisma, Vin Diesel infelizmente atravessa Missão Babilônia no piloto automático, deixando que sua voz marcante e seu físico imponente façam todo o trabalho, ao passo que Michelle Yeoh, normalmente uma atriz admirável, se entrega à construção capenga de sua personagem, cujo comportamento oscila de maneira inexplicável ao longo da narrativa (e basta dizer que, em certo instante, ela soca um sujeito sem qualquer motivo aparente, embora tenha se estabelecido inicialmente como uma pacifista que só agiria de maneira violenta para se proteger).

 

Porém, por piores que sejam os problemas presentes nos dois primeiros atos do filme, estes nem se comparam aos pavorosos 20 minutos finais, que parecem ter sido montados de qualquer maneira para concluir a narrativa rapidamente, incluindo várias elipses que tentam amarrar todas as pontas de forma capenga (basta dizer que, de repente, uma personagem surge à beira da morte depois de escapar de perigos bem maiores – incluindo uma explosão, já que, aparentemente, sua pele é à prova de fogo). E é possível que isto tenha sido apenas um problema na projeção da sala em que assisti ao longa, mas o surgimento de legendas sem que a voz de Vin Diesel pudesse ser ouvida me fez acreditar que até mesmo o responsável pela tradução no Brasil resolveu tentar ajudar o diretor ao incluir uma explicação improvisada que tornasse tudo minimamente satisfatório.

 

E só o fato de considerar que algo absurdo assim seria possível já indica o grau de estupidez atingido pelo filme.

18 de Setembro de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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