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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
22/02/2008 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Na Natureza Selvagem
Into the Wild

Dirigido por Sean Penn. Com: Emile Hirsch, Catherine Keener, Jena Malone, Vince Vaughn, Hal Holbrook, Kristen Stewart, Brian Dierker, William Hurt, Marcia Gay Harden.

 

Há, na trajetória do jovem Christopher McCandless, um belo documentário em potencial para o cineasta Werner Herzog, que certamente enterraria os dentes sem dó na jornada do rapaz, que traz várias similaridades com seu magnífico O Homem-Urso: assim como Timothy Treadwell, McCandless se afasta voluntariamente do convívio em sociedade, trocando a Humanidade pela Natureza somente para ser derrotado impiedosamente por esta. A diferença, claro, é que (citando Lord Byron) Christopher “não ama menos o Homem; mas mais a Natureza”, ao passo que Treadwell era anti-social por definição.

 

Adaptado a partir da biografia escrita pelo talentoso Jon Krakauer, o roteiro do diretor Sean Penn enxerga seu protagonista como um jovem extremamente sensível cujos olhos se enchem d’água apenas com a visão dos animais em seu habitat. Abandonando seus pais e a irmã depois de se formar, McCandless parte numa viagem sem rumo através dos Estados Unidos com o propósito não muito bem definido de viver uma experiência autêntica de auto-descoberta – e, no processo, se relaciona com todo tipo de indivíduo que cruza seu caminho, demonstrando, assim, um interesse genuíno em estabelecer ligações interpessoais que o ajudem a crescer (outra diferença importante com relação a Treadwell).

 

Sem tentar se convencer de que tem algum tipo de “missão” grandiosa (como proteger os ursos ou o Alasca), McCandless está – embora não o admita - simplesmente fugindo de seu passado – e seu propósito não declarado (aliás, inconsciente) é encontrar alguma forma de preencher o vazio interior deixado pela relação conturbada com os pais. E, ao contrário do “Homem-Urso” de Herzog, o rapaz não revela uma desejo inconsciente de cometer suicídio; buscar o perigo não era sua intenção, embora sua falta de preparo para lidar com as circunstâncias nas quais se meteu revele uma trágica e fatal imaturidade. Ao procurar uma existência frugal que talvez o completasse como ser humano, McCandless descobriu principalmente o lado impiedoso da Natureza que julgava benevolente – e é uma triste ironia que, no fim, ele tenha buscado um frágil abrigo justamente num símbolo da vida urbana: um ônibus.

 

Jamais encarando Christopher de maneira romantizada (uma das inúmeras virtudes deste Na Natureza Selvagem), o roteiro de Penn não hesita em ilustrar as facetas mais cruéis e egoístas do rapaz: embora seus pais estivessem longe de representar um exemplo de boa criação, é inegável que a reação de McCandless é tão ou mais cruel do que os erros cometidos pelos parentes – e deixá-los sem notícias suas por anos é algo que, como pai, considero absolutamente imperdoável. Além disso, embora se julgue superior ao materialismo de seu pai, o jovem demonstra sua própria futilidade ao queimar o dinheiro que possui, dando mais importância ao simbolismo de seu gesto (relevante apenas para si mesmo) do que às considerações práticas de que aquela quantia poderia representar imensa ajuda para indivíduos necessitados.

 

Por outro lado, McCandless possui uma natureza inquestionavelmente gentil – e seu interesse em ouvir o que os outros têm a dizer é algo admirável. Lamentavelmente, seu rancor desmedido pelo próprio passado (que soa como uma crise pequeno-burguesa diante dos problemas reais e gigantescos enfrentados por tantas outras pessoas) acaba tornando-o cego para o que há de bom em sua vida, transformando-o num jovem que leva tudo excessivamente a sério e contrastando-o, por exemplo, com o divertido malandro vivido de maneira carismática por Vince Vaughn. Esforçando-se para jamais criar raízes onde quer que seja (ele demonstra verdadeira aversão ao conceito de “lar”), Christopher acaba contrariando sua própria natureza, já que, embora demonstre curiosidade pelo que seus amigos dizem (como mencionado acima), ele ignora sistematicamente os conselhos que recebe, optando, em vez disso, por acreditar em seu próprio discurso imaturo sobre os “males da Sociedade”.

 

Surgindo como uma surpresa espantosa (especialmente para quem, como eu, o considerava um intérprete fraco e sem carisma), Emile Hirsch oferece uma performance magnífica em seu minimalismo: sem investir em grandes explosões emocionais, ele ilustra a natureza contraditória e amargurada de Christopher McCandless através do olhar e da expressão de encantamento diante do mundo “real” que tanto admira e de sua clara atração pela solidão. Além disso, sua transformação física ao longo da narrativa é chocante, rivalizando com aquelas experimentadas por Christian Bale em O Operário e Tom Hanks em Náufrago. Da mesma forma, Penn, como ator talentoso, demonstra sensibilidade ao guiar o restante do elenco, desde a nômade Jan, vivida por Catherine Keener como uma mulher que esconde, em sua alegria aparente, as dores de um passado bem mais doloroso do que o de Christopher, até o veterano Hal Holbrook, que comove no papel de um indivíduo que, paralisado pelo medo de sofrer, simplesmente deixou de viver, descobrindo, através do jovem McCandless, novas e maravilhosas possibilidades diante do mundo.

 

Rodado inteiramente em locações através dos Estados Unidos, Sean Penn e o diretor de fotografia Eric Gautier investem na autenticidade ao filmarem nos pontos reais da jornada do protagonista, incluindo o ônibus que o abrigou de maneira quase surreal em sua última parada. Com isso, Na Natureza Selvagem assume um caráter documental que talvez deixasse o próprio Herzog orgulhoso – e o impressionante plano final do filme (que me lembrou de uma versão extrema do último close de Janet Leigh em Psicose) merece figurar entre os grandes momentos do Cinema em 2007.

 

Embalado por uma trilha sonora tocante e inesquecível, Na Natureza Selvagem se encaixa perfeitamente na filmografia de Sean Penn, que, como diretor, parece se especializar em histórias tristes e desesperançosas que buscam investigar a natureza humana através do que ela tem de mais angustiante (vide o maravilhoso A Promessa). Ainda assim, há, aqui, um toque de otimismo inexistente em seus trabalhos anteriores, já que Christopher McCandless, embora inicialmente pregue que a felicidade não pode ser encontrada nas relações humanas, demonstra compreender, afinal, que este tão desejado estado de espírito só é real quando compartilhado.

 

Pena que esta epifania fundamental só ocorra quando já é tarde demais para que possa ser realmente aproveitada.

 

23 de Fevereiro de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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