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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
12/10/2006 13/01/2006 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

Deu a Louca na Chapeuzinho
Hoodwinked

Dirigido por Cory Edwards, Todd Edwards, Tony Leech. Com as vozes de Anne Hathaway, Glenn Close, Jim Belushi, Patrick Warburton, Andy Dick, Anthony Anderson, David Ogden Stiers, Xzibit, Chazz Palminteri, Cory Edwards.

 

Técnica não é tudo. Observem, por exemplo, o caso deste Deu a Louca na Chapeuzinho: contando com uma animação de recursos claramente limitados, o filme busca compensar (com sucesso) sua precariedade técnica com um banho de criatividade narrativa e de linguagem. Ao contrário do recente O Bicho vai Pegar, que trazia uma “câmera” (estamos falando de animações, lembrem-se) deselegante e estática, esta produção utiliza movimentos e quadros bem compostos para contar sua história e estabelecer um clima divertido, sendo também beneficiado por um roteiro que sabe explorar a própria premissa.

           

Escrito pelos também diretores Cory Edwards, Tony Leech e Todd Edwards, o filme tem início no clímax da clássica história de Chapeuzinho Vermelho, quando a personagem-título chega à casa da Vovó e encontra o Lobo, disfarçado, ocupando a cama da velhinha. Porém, é aí que o roteiro começa a se desviar daquilo que conhecemos tão bem: quando o Lobo parte para cima de Chapeuzinho, um Caçador estraçalha a janela, invadindo a sala, enquanto a Vovó sai pulando do armário, amarrada e amordaçada. Toda aquela confusão aparentemente atrai a atenção da polícia, que prende os quatro personagens e, então, passa a colher os depoimentos de cada um, encontrando diferentes versões para o incidente – que envolve, diga-se de passagem, um caso que tem arruinado a floresta: o roubo de receitas de guloseimas.

           

Adotando uma estrutura claramente inspirada em Rashômon, o roteiro surpreende justamente por mostrar os mesmos eventos a partir de diferentes pontos de vista – e, a cada vez que um novo personagem narra sua versão, voltamos para o começo do livro de fábulas que abre a projeção, num recurso visual interessante e mais do que apropriado ao conceito do filme. E, assim como no clássico de Kurosawa, à medida que todos vão contando suas experiências, as lacunas vão sendo preenchidas e percebemos que nem tudo parece ter a explicação que imagináramos inicialmente. E, como não poderia deixar de ser numa projeto como este, a metalinguagem desempenha um papel importante: quando um personagem interroga um capanga, por exemplo, este explica ter sido contratado pelo “vilão do filme” – e, mais tarde, o ladrão de guloseimas descreve seu plano maligno com orgulho evidente por pertencer à classe dos “gênios do mal”.

           

Recheado de um humor quase sempre eficiente, Deu a Louca na Chapeuzinho acerta tanto em suas falas (“Por que tem orelhas tão grandes, vovó?” “Para ouvir suas críticas melhor, minha netinha.”) quanto em suas referências e citações, que jamais soam gratuitas e vão de brincadeiras com filmes de Triplo X a Missão: Impossível 1 e 2, passando por Matrix, O Mágico de Oz, A Onda dos Sonhos e Amigos, Sempre Amigos, entre outros. Além disso, cada personagem apresenta características bem definidas que contribuem para torná-lo(a) interessante e único: Chapeuzinho é surpreendentemente cínica e durona; a Vovó esconde um segredo que traz uma nova leitura para suas ações; o “Caçador” quer apenas ser bem sucedido como ator (além de ser particularmente obtuso; e o Lobo revela-se uma versão peluda do repórter Irwin “Fletch” Fletcher, vivido por Chevy Chase em dois longas (e não é à toa que, em certos momentos, a trilha brinca com o tema composto por Harold Faltermeyer para Fletch naqueles filmes). Da mesma forma, os personagens secundários também encantam e divertem por suas peculiaridades, como o Coelho engraçadinho que cruza o caminho de todos; o esquilinho cheio de energia (lembram-se do que escrevi sobre Os Sem-Floresta?; e, é claro, o bode que, vítima de um feitiço, só consegue se comunicar cantando e mantém diversos pares de chifres com multifunções.

           

Ainda assim, apesar de suas inúmeras qualidades narrativas, Deu a Louca na Chapeuzinho não deixa de ser parcialmente prejudicado por sua baixa qualidade técnica: as texturas dos personagens são borrachentas; os movimentos, duros e muitas vezes sem vida; e a interação entre elementos diferentes da animação é precária, como pode ser claramente observado na cena em que o Lobo é arrastado pela correnteza e percebemos claramente a divisão abrupta entre seu corpo e a superfície da água. Felizmente, o trio de diretores demonstra reconhecer o problema, criando algumas maneiras de despistá-lo (ainda que nem sempre de forma eficiente): a câmera agitada que simula o estilo de reportagem ao vivo na “cena do crime” é um exemplo, bem como a câmera lenta que busca estabelecer o confronto entre o Lobo e Chapeuzinho quando estes se cruzam, durante os interrogatórios.

           

Eficiente tanto em sua versão original quanto dublado em português (embora, neste caso, perca a referência a Fúria Sanguinária no número final, já que o “top of the woods” se perde na tradução), Deu a Louca na Chapeuzinho traz, ainda, músicas divertidíssimas e contagiantes, o que se tornou uma raridade nas produções infantis pós-Alan Menken. Agora imaginem se, além de tudo, o filme ainda contasse com o padrão Pixar de qualidade...
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14 de Outubro de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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