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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
26/05/2006 14/09/2005 5 / 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
100 minuto(s)

A Criança
L'enfant

Dirigido por Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. Com: Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard, Fabrizio Rongione, Stéphane Bissot, Mireille Bailly, Olivier Gourmet.

 

Não é à toa que os planos-seqüência (ou mesmo cenas isoladas concebidas como longos planos ininterruptos) são considerados, por André Bazin e os demais defensores do realismo no Cinema, como instrumento ideal para que a Sétima Arte reproduza, com a maior fidelidade possível, a ambigüidade do mundo real. Sem a presença constante dos cortes (e, conseqüentemente, de uma montagem que manipule o discurso cinematográfico), o espectador enxerga os acontecimentos na tela quase como se estivesse presenciando algo ocorrendo “ao vivo”, o que torna tudo mais palpável e intenso. Este conceito, aliás, é fundamental na carreira dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, responsáveis por este A Criança. Observem, por exemplo, a seqüência na qual Bruno (Renier) procura manter uma conversa com a namorada Sonia (François), que insiste em ignorá-lo: à medida que o rapaz tenta obter uma reação da moça, que permanece em silêncio, podemos perceber claramente a inevitável explosão emocional que se aproxima – e se sentimos o crescimento gradual da ira de Sonia, é porque a montagem jamais se mete entre o público e a garota, o que destruiria nosso poder de observação num momento tão delicado.

 

“Observação”, diga-se de passagem, é a palavra-chave no que diz respeito à obra dos Dardenne (algo que destaquei também em meu texto sobre O Filho, obra-prima que eles dirigiram imediatamente antes de A Criança): ao longo dos 95 minutos de projeção, os cineastas se dedicam a acompanhar uma semana na vida do jovem Bruno, um ladrãozinho barato que, avesso à idéia de arrumar um emprego, prefere pedir dinheiro na rua e a praticar pequenos golpes ao lado de dois comparsas-mirins. Quando sua namorada Sonia volta do hospital, depois de ter dado à luz ao seu primeiro filho, o rapaz não se mostra muito entusiasmado com a idéia de ser pai – e ao ouvir uma receptadora de produtos roubados perguntar se ele já tem algum item para vender, o marginal se dá conta de que tem algo valioso em mãos: uma criança para o mercado negro de adoção.

 

Cientes de que o clichê “uma imagem vale mais do que mil palavras” é, mais do que apenas correto, a própria base do Cinema, os diretores-roteiristas não perdem tempo criando diálogos que expliquem o que se passa na cabeça de Bruno ou mesmo que esclareçam mais sobre o caráter (ou falta de) do protagonista: freqüentemente, eles limitam-se a apontar a câmera para o rapaz, permitindo que acompanhemos suas ações - o que se revela mais do que suficiente para que o conheçamos. Enquanto espera o telefonema que selará a venda do bebê, por exemplo, Bruno brinca despreocupadamente de sujar os sapatos com lama, usando-os para fazer marcas em uma parede – o que revela um assustador descaso com relação ao que está prestes a fazer. Da mesma forma, em um outro instante da projeção, ele ri e faz piadas ao lado de seu jovem cúmplice, como se não estivesse prestes a cometer um crime que, por sua vez, é parcialmente motivado por graves ameaças que recebeu na noite anterior.

 

Esta incapacidade do personagem de refletir sobre seus erros e de se preocupar com o futuro representa, aliás, uma das principais características que o tornam tão inconseqüente e egoísta: quando vê um casaco igual ao seu exposto em uma vitrine, Bruno não hesita em gastar tudo o que tem para comprá-lo para Sonia, jamais considerando o fato de que agora tem um bebê para criar e que, portanto, seria mais razoável economizar a fim de comprar fraldas, roupas, leite e outros itens importantes para a criança (e Sonia, mesmo sendo claramente dedicada ao filho, também é imatura demais para considerar estas questões). Como se não bastasse, Bruno é uma destas pessoas sem a menor ambição que preferem desperdiçar horas de suas vidas atirando pedras em um lago ou jogando fliperama em vez de buscarem algo que lhes proporcione crescimento pessoal – algo que, mais uma vez, a câmera contemplativa dos diretores ilustra com talento.

 

Assim, aos poucos percebemos que a “criança” do título não é exatamente o bebê, como poderíamos supor inicialmente, mas sim o próprio Bruno, cuja imaturidade incorrigível se torna cada vez mais flagrante. Aliás, não seria incorreto caso o filme trouxesse o título no plural, já que Sonia, além de imatura, é ingênua como uma menina de 5 anos, esforçando-se, apesar de todas as desanimadoras evidências em contrário, para acreditar no comprometimento de Bruno para com sua nova família. Neste sentido, é comovente ver as insistentes tentativas da garota para que o namorado assuma sua condição de pai, constantemente lembrando-o de beijar o bebê e procurando envolvê-lo na escolha do nome da criança, mas sempre obtendo respostas pouco interessadas do rapaz.

 

O que, afinal de contas, sente Bruno? Esta é uma das principais questões que este fascinante estudo de personagem apresenta ao espectador. É certo que o protagonista parece se importar genuinamente com Sonia, embora sua covardia o leve até mesmo a culpá-la por seus próprios erros ao ser pressionado por figuras de autoridade; porém, a importância que ele dá à namorada é conseqüência do amor que sente por esta ou da simples necessidade (física, social e/ou financeira, já que vive em seu apartamento) de tê-la ao seu lado? Pois o fato é que Bruno parece, em certos momentos, ser incapaz de nutrir sentimentos reais por quem quer que seja – como comprova seu espanto diante da reação de Sonia ao informá-la sobre a venda do bebê (ele realmente parece ter acreditado que ela não se importaria, o que é revelador). E se ele considera corrigir seu erro, isto se deve mais ao medo da punição do que ao amor que supostamente sente pela namorada.

 

O mais incrível em A Criança, no entanto, é que, apesar de todas as falhas de caráter de seu protagonista, ainda torcemos por sua redenção – uma proeza que o filme alcança sem maniqueísmos (o máximo que faz é permitir que vislumbremos a fria relação que Bruno mantém com a mãe – e, mesmo aqui, o espectador precisa usar a imaginação e o poder de dedução para preencher as lacunas). Assim, cada pequeno indício de mudança é comemorado como uma grande vitória – e uma simples pergunta sobre o filho (“Como está Jimmy?”) já representa um avanço considerável.

 

Repetindo a façanha de O Filho, Jean-Pierre e Luc Dardenne ainda conseguem conceber uma conclusão que, além de soar verdadeira e coerente com tudo o que víramos até então, é inquestionavelmente satisfatória. E mesmo não sabendo o que o futuro reserva para aqueles personagens (e as perspectivas não são animadoras), sentimos uma forte esperança de que, afinal de contas, Bruno, Sonia e Jimmy possam encontrar algum grau de felicidade em suas vidas tão tristes.
``

 

26 de Maio de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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