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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
04/04/2008 01/01/1970 1 / 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
84 minuto(s)

Awake - A Vida por um Fio
Awake

Dirigido por Joby Harold. Com: Hayden Christensen, Jessica Alba, Lena Olin, Terrence Howard, Fisher Stevens, Arliss Howard, Christopher McDonald, Sam Robards.

 

Joby Harold é um roteirista e diretor de primeira viagem. E como tal, ele comete em Awake – A Vida por um Fio um erro básico de estreante: depois de ter uma idéia intrigante para um suspense, ele a desenvolve com tamanho descuido que, no final das contas, o conceito se torna completamente dispensável para o desenrolar da história que foi criada para abrigá-lo.

 

A idéia em questão diz respeito a uma raríssima condição cirúrgica, a consciência anestésica, que ocorre quando um paciente aparentemente sob anestesia geral ainda consegue perceber o que está ocorrendo à sua volta – e é justamente isso que ocorre com o jovem milionário Clay Beresford (Christensen). Herdeiro de um conglomerado financeiro e sob constante supervisão da mãe dominadora, Lilith (Olin), ele esconde de todos o noivado com a bela Sam (Alba), secretária particular desta última, por temer a reação que a notícia despertará. Vítima de uma grave cardiopatia, Clay encontra-se à espera de um doador compatível para que finalmente possa se submeter a um transplante de coração a ser realizado por seu médico e amigo, o Dr. Jack Harper (Howard). Porém, durante a cirurgia, algo sai errado e Clay, consciente mas sem conseguir se manifestar, ouve uma conversa que traz implicações aterradoras.

 

E pronto: a idéia de um paciente anestesiado que se mantém alerta ao ambiente deixa de importar no momento em que surge, já que o fato de Clay ouvir a conversa dos médicos não exerce a menor influência sobre o restante da história, que se desenrolaria exatamente da mesma maneira mesmo se não soubéssemos que o protagonista está “desperto”. Aliás, o recurso passa a ser empregado com o único objetivo de permitir que a reviravolta criada por Harold seja mastigada para o espectador, o que não apenas é decepcionante, mas também ofensivo ao nosso intelecto. Para piorar, a base científica da trama logo é eclipsada por um estúpido mergulho no esotérico, já que Awake gasta um longo tempo de projeção enfocando as experiências extra-corporais de Clay – e se no início julguei que aquilo era apenas uma representação visual dos pensamentos do personagem, logo fui obrigado a constatar que estava enganado e que o rapaz realmente estava passeando pelo hospital e, mais tarde, por uma espécie ridícula de “limbo”.

 

Porém, o mais impressionante é que estes passeios espirituais do protagonista também não fazem a menor diferença para o transcorrer da narrativa, servindo apenas para aumentar o tempo de projeção. Além disso, Harold tenta criar um draminha barato ao usar uma conversa no “limbo” (por falta de termo melhor) para resolver as inseguranças psicológicas do herói – e, no processo, ainda busca gerar suspense através da demora de Clay em resolver o que irá fazer. Como se não bastasse, o roteiro trapaceia até mesmo na dispensável (e desonesta) narração que abre o filme e é feita pelo personagem de Terrence Howard, o que apenas torna todo o processo ainda mais reprovável.

 

O talentoso Howard, diga-se de passagem, paga um alto preço por seu envolvimento neste projeto ao ser obrigado a viver um dos cirurgiões mais inverossímeis que já tive a oportunidade de ver no cinema (e isso inclui Miguel Lunardi em Turistas e Ray Milland em O Monstro de Duas Cabeças): em certo momento, por exemplo, o dr. Jack conduz seu amigo e paciente até uma sala de cirurgia e, depois de levá-lo a se deitar na mesa de operações, descreve com detalhes o que ocorrerá no momento do transplante, incluindo a capacidade do bisturi em atravessar sua pele como se esta fosse manteiga. A justificativa para esta tortura psicológica? “Você precisa estar preparado.”, explica o médico, revelando uma etapa que eu desconhecia fazer parte dos procedimentos pré-operatórios - o que, confesso, me assustou, já que o talentoso cirurgião que abriu meu abdômen duas vezes no ano passado (o inigualável dr. Gustavo Munayer) não exibiu esta preocupação antes de me operar. Como ele pôde arriscar minha vida desta maneira?! Então ele não sabia que eu precisava “estar preparado”?! Por outro lado, resta-me o consolo de saber que ao menos a sala em que fui operado provavelmente manteve-se mais estéril do que aquela vista em Awake, já que duvido que ela tenha visto um entra-e-sai de pessoas sem assepsia prévia como o exibido aqui. Ou talvez eu esteja me iludindo e os médicos tenham até mesmo jogado pôquer e fumado charutos enquanto eu me encontrava apagado ali ao lado. (Isto ao menos explicaria como uma ficha de 25 dólares foi parar na minha vesícula biliar.)

 

Mas se um ator admirável como Terrence Howard surge tão constrangedor neste longa, que chances teriam pobres aspirantes a intérpretes como Hayden Christensen e Jessica Alba? Se o primeiro volta a exibir sua falta de carisma pela segunda semana consecutiva nos cinemas brasileiros (ele protagonizou Jumper, lançado na semana passada), Alba também nos brinda com mais um show de inexpressividade menos de um mês depois de chegar por aqui no terrível O Olho do Mal. Interpretando um paciente cardíaco aparentemente tão saudável quanto um triatleta, Christensen consegue a proeza de ficar à sombra da atriz que vive sua noiva – e que, sejamos justos, conta com a vantagem de ter um corpo escultural que ao menos leva-nos a ignorar a falta de talento de sua dona.

 

Demonstrando uma incompetência como diretor que rivaliza com aquela exibida como roteirista, Joby Harold chega ao ponto de incluir um plano que traz um faxineiro limpando uma igreja durante uma cerimônia apenas para indicar o avançado da hora (e por que alguém estaria varrendo o lugar tão tarde é um mistério que desafia a imaginação). Da mesma maneira, observe a tentativa absolutamente ridícula de gerar tensão na cena em que o anestesista vivido por Christopher McDonald interrompe um delicado procedimento apenas para dizer... não, não vou estragar a surpresa. O momento é tão risível em sua estupidez que merece ser conferido, quase justificando o preço do ingresso.

 

Servindo ao menos para provocar arrepios graças à natureza gráfica das cenas envolvendo cirurgia, Awake é daqueles filmes que tentam contornar seus absurdos científicos através de diálogos como

 

- Mas, doutor, está indo muito rápido! E se...

- Deixe que eu me preocupo com isso!,

 

levando-nos a subentender que a explicação que tornaria aquilo tudo crível ficou implícita no restante da frase interrompida. Pelo menos, ao ocultar o restante da fala, somos poupados de momentos terríveis como aquele em que Clay diz para Sam: “Você acha que meu coração novo vai te amar tanto quanto o antigo?”. (Pode até ser, mas, em seu lugar, eu tomaria cuidado com o nível de açúcar no sangue.)

 

Apesar de tudo, o aspecto mais embaraçoso de Awake reside em sua crença ingênua de que suas reviravoltas são mesmo capazes de surpreender o público, sem perceber que, na realidade, estas ficam claras praticamente desde os primeiros 15 minutos de projeção. O curioso é que, ao descobrir o que está ocorrendo, o personagem de Clay exclama “Deus, como é óbvio!” – ao que retruquei: “Você não faz idéia, meu caro”.

 

04 de Abril de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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