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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/09/2006 14/07/2006 3 / 5 / 5
Distribuidora

Dois é Bom, Três é Demais
You, Me and Dupree

Dirigido por Anthony Russo, Joe Russo. Com: Owen Wilson, Matt Dillon, Kate Hudson, Michael Douglas, Seth Rogen, Ralph Ting, Sidney Liufau, Lance Armstrong.

 

Em sua ainda curta carreira (ela só “engrenou” realmente em 1998), Owen Wilson criou, para si mesmo, uma persona cinematográfica inconfundível: a de sujeito tranqüilão, sossegado, sempre interessado em se divertir e fazer amizades – e não é à toa que suas performances menos inspiradas são aquelas em que tenta criar algo diferente, como em Atrás das Linhas Inimigas e A Casa Amaldiçoada, já que, embora dono de um ótimo timing cômico, ele tem se mostrado um ator com alcance limitado. Felizmente, isto não é problema em Dois é Bom, Três é Demais, que depende exclusivamente deste tipo que se tornou uma quase especialidade de Wilson.

           

Escrito pelo estreante Mike LeSieur, o filme traz Matt Dillon e Kate Hudson como Carl e Molly Peterson, recém-casados que são obrigados a hospedar um dos melhores e mais antigos amigos de Carl, o instável Dupree (Wilson, que também produziu o longa). Enquanto tenta desenvolver um projeto importante na empresa comandada por seu sogro, que o detesta, Carl deve lidar com o modo desleixado de seu amigo, que parece não perceber que dormir completamente nu no sofá da sala do casal não é algo exatamente apropriado. Incomodada com o tempo cada vez maior que o marido vem passando no trabalho, Molly inicialmente fica enlouquecida com as atitudes absurdas de Dupree, mas, aos poucos, os dois começam a se dar bem – o que traz problemas ainda maiores para todos.

           

Concentrando-se principalmente na personalidade imatura de Dupree, Dois é Bom, Três é Demais diverte por saber conduzir sua narrativa com humor crescente: quatro anos depois de comandarem o mediano Tudo por um Segredo, os irmãos Anthony e Joe Russo parecem ter aprendido algumas lições importantes e preparam com carinho cada gag e cada novo incidente, permitindo que a própria escalada dos acontecimentos leve o espectador a antecipar as novas confusões provocadas pelo personagem de Wilson. Além disso, o filme inclui pequenos momentos de “calmaria” que servem justamente para baixar a guarda do público, que acaba sendo surpreendido logo depois por outro tropeço do sujeito: depois de invadir o quarto de Carl e Molly durante uma transa para usar o banheiro, por exemplo, Dupree prepara um belo café-da-manhã para o casal, o que parece indicar sua compreensão do erro cometido. Logo depois, no entanto, ele comparece a uma entrevista de emprego durante a qual seu descomprometimento com a vida adulta fica patente. Assim, nunca sabemos muito bem o que esperar de Dupree, já que, se em um momento ele demonstra dificuldade para compreender informações óbvias, em outro surge lendo uma revista da organização Mensa, que se orgulha por reunir apenas membros com QI superior a 98% da população (é claro que isto pode ser interpretado como má construção do personagem, uma falha grave do roteiro – e é mesmo -, mas acaba contribuindo para aumentar a imprevisibilidade e, conseqüentemente, a graça de Dupree).

           

Enquanto isso, Kate Hudson confere imenso charme à Molly, que acaba representando a única voz da Razão em todo o filme. Aliás, neste sentido, Dois é Bom, Três é Demais lança um olhar claramente tendencioso sobre as mulheres, que são vistas como criaturas dominadoras que parecem determinadas a podar os impulsos (e os momentos de diversão) de seus maridos. Quando Molly chega em casa e surpreende Carl assistindo a um jogo com os amigos, estes ficam claramente amedrontados, como crianças que acabaram de ser surpreendidas fazendo algo errado pela mãe – e, de fato, Molly acaba assumindo uma atitude quase maternal com relação a Dupree, incentivando seus sonhos e consolando-o em seus fracassos. Já Matt Dillon se torna, neste aspecto, um estereótipo da figura paterna: sempre ausente, já que trabalha o tempo todo, preocupa-se apenas com questões profissionais e se mostra mal-humorado quando tem que assumir alguma tarefa domiciliar – e sua impaciência crescente com Dupree o configura quase como pai rigoroso de um adolescente sem juízo. Na realidade, os papéis interpretados por Hudson e Dillon são ingratos, já que acabam funcionando quase sempre como escada para as graças de Wilson. Já Michael Douglas, como o sogro de Carl, tem algumas boas oportunidades de encarnar o tipo cínico e maldoso que sabe fazer tão bem e, no processo, oferece mais uma boa performance.

           

E, por falar no personagem de Douglas, uma das boas gags visuais do filme envolve justamente seu escritório que, numa referência clara aO Professor Aloprado de Jerry Lewis, traz uma poltrona incômoda cujo objetivo claro é deixar os interlocutores do empresário em uma posição vulnerável e submissa – e é claro que Carl é obrigado a ocupá-la algumas vezes. Além disso, outra brincadeira curiosa feita pelos irmãos Russo diz respeito a Mandy, por quem Dupree se apaixona e cujo rosto jamais é revelado pelos cineastas – o que, ao contrário da abordagem confusa feita por M. Night Shyamalan em A Dama na Água (ao enquadrar a atriz Cindy Cheung), tem um propósito narrativo claro: o de tornar a garota uma figura idealizada, que é como Dupree a enxerga apesar das razões contrárias a isto.

           

Infelizmente, em vários momentos, Dois é Bom, Três é Demais deixa a sutileza de lado e parte para tentativas forçadas de fazer humor, como a seqüência que mostra Dupree procurando Carl pela cidade ou o instante em que o vemos mergulhando pedaços de frango frito em um copo de leite como se fossem biscoitos. E se a piadinha envolvendo Touro Indomável diverte por se encaixar perfeitamente na situação em que é utilizada, os dez minutos finais de projeção decepcionam pela maneira implausível com que tentam solucionar todos os conflitos apresentados ao longo da trama – especialmente os problemas de Carl com o sogro.

           

De todo modo, o filme consegue divertir de forma descompromissada e demonstra que Owen Wilson realmente se sai melhor quando abandona quaisquer ambições de se revelar um ator versátil e abraça o estilo boa-praça que encarna tão bem.

 

Observação: Há uma cena adicional após os créditos finais.
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15 de Setembro de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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