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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
04/11/2005 02/12/2005 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

Cidade Baixa
Cidade Baixa

Dirigido por Sérgio Machado. Com: Lázaro Ramos, Wagner Moura, Alice Braga, José Dumont, Dois Mundos, Maria Menezes, João Miguel, Débora Santiago, Harildo Deda, Valéria.

Um dos maiores trunfos do Cinema brasileiro reside em nossas imensas diversidades culturais e geográficas. Em um mesmo ano, conseguimos produzir obras como O Homem que Copiava e Amarelo Manga ou, no caso de 2005, Casa de Areia, 2 Filhos de Francisco e Crime Delicado – todos ótimos, mas tão diferentes uns dos outros quanto possível em linguagem, temática e ambientação. Ainda que nossa produção permaneça concentrada no eixo Rio-São Paulo, é reanimador constatar que, cada vez mais, filmes produzidos em outras regiões vêm chegando ao público, como é o caso deste Cidade Baixa, que nos apresenta a uma região de Salvador que se torna verdadeira personagem da história, influenciando as atitudes dos protagonistas de maneira inegável.

Dirigido por Sérgio Machado (também co-autor do roteiro, ao lado de Karim Aïnouz), o filme gira em torno de Deco (Ramos) e Naldinho (Moura), dois amigos de infância que trabalham juntos transportando cargas em seu pequeno barco. Certo dia, eles oferecem uma carona para Karinna, uma prostituta tão pé-de-chinelo que aceita transar com os dois em troca do transporte e de 40 reais. Ainda assim, Deco se deixa apaixonar pela garota e, ao perceber que Naldinho também parece encantado (embora tente ocultar), a relação dos amigos é abalada. Aos poucos, a situação vai se tornando mais intensa até alcançar um patamar realmente perigoso.

Mantendo a câmera constantemente em movimento, Machado e o diretor de fotografia Toca Seabra criam uma atmosfera nervosa que se torna ainda mais tensa graças ao caráter opressor assumido pelo ambiente no qual os personagens estão inseridos. Trata-se de um mundo de miséria, sem esperanças, e constituído de casas e prédios com paredes sujas e descascadas que refletem a falta de perspectivas de um futuro melhor para aquelas pessoas. Através de seqüências nas quais, com a câmera na mão, somos levados a mergulhar naquela realidade, o filme nos leva a compreender as ações de Deco e Naldinho, que, embora cientes das conseqüências do que fazem, são igualmente frutos da pobreza na qual foram criados. Além disso, ao adotar uma postura `neo-realista` e trazer os rostos de pessoas reais para o longa, Machado enriquece o projeto, tornando-o ainda mais autêntico.

Ao mesmo tempo, o cineasta estreante procura pontuar a narrativa com bom humor, que é explorado através não apenas dos diálogos (`É vinte dólar only o boquete solamente.`), mas das situações criadas pelo roteiro (como o assalto a uma farmácia). Da mesma forma, Machado (auxiliado por Fátima Toledo) se sai admiravelmente bem na condução de seus atores, do elenco secundário aos protagonistas – e embora certamente não seja difícil arrancar uma boa performance do sempre genial José Dumont (que impressiona em sua pequena participação, demonstrando o cuidado de até mesmo exibir uma rouquidão condizente com seu personagem), o fato é que Cidade Baixa traz atuações homogeneamente esmeradas, nos apresentando, inclusive, ao fascinante Dois Mundos (que interpreta uma figura com o mesmo nome, o que, confesso, me deixou curioso com relação à sua história pessoal).

Já Wagner Moura e Lázaro Ramos, que até quatro anos atrás eram meros desconhecidos do grande público, hoje surgem como verdadeiros veteranos, estabelecendo uma dinâmica perfeitamente natural entre Deco e Naldinho (o que não é de se espantar, considerando-se que os atores são grandes amigos). Exibindo uma cumplicidade mais do que adequada à história dos personagens, a dupla leva o público a acreditar naquele relacionamento e a lamentar quando este parece se desintegrar – algo que se revela inevitável, considerando-se a sensualidade do obstáculo que surge no caminho dos dois, a bela (e talentosa) Alice Braga, que já encantara o inocente Buscapé de Alexandre Rodrigues em Cidade de Deus. Compreendendo a natureza absurdamente humilde da prostituta Karinna, a atriz foge de qualquer vestígio de glamour, maquiando-se em excesso e exibindo o cabelo mal pintado, ficando a anos-luz de ser Uma Linda Mulher.

Porém, o elemento mais fascinante do trabalho de Braga reside na composição psicológica da personagem: plenamente ciente do poder que exerce sobre os dois rapazes, Karinna mal consegue ocultar o prazer que sente ao vê-los disputando sua atenção. Sim, ela afirma que não gosta de vê-los brigando, mas é óbvio que gosta, e muito (quando Deco tenta dispensá-la, por exemplo, a moça se afasta em um rebolado sedutor cujo efeito sobre o outro ela conhece muito bem.) – e só exibe sinais de arrependimento ao perceber que talvez tenha ido longe demais, permitindo que a situação se tornasse perigosamente explosiva. Aliás, o roteiro de Cidade Baixa se preocupa muito mais em abordar as relações entre os três personagens do que em desenvolver uma estrutura narrativa com trama bem definida ou reviravoltas – as ligações entre aquelas pessoas são o centro do filme. E não é à toa que o sexo assume um papel tão importante neste contexto: em uma existência desprovida de bens materiais e distinção social, o prazer sexual adota uma importância ainda maior, servindo como rara oportunidade de felicidade ou prazer momentâneos.

Outro aspecto bem trabalhado do filme, vale dizer, reside no subtexto homossexual presente no relacionamento entre Deco e Naldinho. Ao longo da narrativa, Machado insinua repetidas vezes que há uma atração sexual sublimada (ou mesmo reprimida) entre os dois amigos – e, neste sentido, a disputa de ambos pela atenção de Karinna serve como um meio interessante para que possam, indiretamente, realizar este desejo. Observem, por exemplo, a cena em que os três protagonistas dançam de forma libidinosa: com a moça entre Deco e Naldinho, um deles estica os braços para tocar o outro, num abraço sutil, mas inconfundível. E não é por simples curiosidade que Naldinho olha pelo buraco da fechadura enquanto o amigo se despe para transar com Karinna. Assim, quando os dois se desentendem graças à prostituta, é tão válido dizer que eles estão com ciúmes dela como estão um do outro.

No entanto, embora eficiente na maior parte do tempo, o filme falha em um aspecto importante: a escalada da tensão entre Deco e Naldinho não é ilustrada com a clareza necessária, culminando em um `rompimento` que parece artificial. Sim, do ponto de vista racional, compreendemos e aceitamos a situação, mas emocionalmente ela soa falsa, pouco convincente. Em contrapartida, Cidade Baixa beira a perfeição em seu clímax, brindando o espectador com um desfecho que, além de corajoso (já que não se preocupa em amarrar todas as pontas soltas, o que seria totalmente inverossímil), é poético e carregado de uma ironia triste, mas inevitável.

Em sua cena final, com seus planos-detalhe, closes e trocas de olhares, o filme resume toda a complexidade de uma situação impossível – e, por isso mesmo, impactante e riquíssima do ponto de vista dramático. Uma conclusão adulta para um projeto idem.
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07 de Novembro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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