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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
20/10/2006 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Pequena Miss Sunshine
Little Miss Sunshine

Dirigido por Jonathan  Dayton, Valerie Faris. Com: Greg Kinnear, Toni Collette, Steve Carell, Abigail Breslin, Paul Dano, Beth Grant, Mary Lynn Rajskub, Geoff Meed, Paula Newsome.

Quando Pequena Miss Sunshine chegou aos cinemas brasileiros, em outubro do ano passado, eu estava iniciando minha enlouquecida maratona anual na Mostra de São Paulo, que resultou em 53 filmes vistos em apenas 10 dias – e, portanto, não pude publicar nada sobre o longa, embora o tenha incluído em minha lista de destaques de 2006. Desde então, não se passam dois dias sem que eu receba pedidos de leitores para escrever sobre o filme, o que comprova não apenas o imenso carinho que ele desperta em seus fãs como também a necessidade de uma análise mais racional sobre uma história que apela essencialmente para nossas emoções.

Escrito pelo estreante Michael Arndt, o roteiro gira em torno da problemática família Hoover enquanto esta atravessa um período de grandes dificuldades: criador de um método de auto-ajuda que promete guiar seus seguidores rumo ao sucesso, Richard (Kinnear) ironicamente não consegue torná-lo bem sucedido, mergulhando em dívidas ao lado da esposa Sheryl (Collette). Esta, por sua vez, também tem que se preocupar com o irmão Frank (Carell), que tentou o suicídio depois de uma desilusão amorosa que lhe custou também a casa e a carreira. Já o adolescente Dwayne (Dano) mantém há nove meses um voto de silêncio inspirado por Nietzsche, ao passo que a pequena Olive (Breslin) ensaia diariamente com o avô (Arkin) uma dança que pretende apresentar em um concurso que elegerá uma pequena Miss. Quando a menina recebe a notícia de que está concorrendo ao título de Pequena Miss Sunshine, a família embarca em uma viagem de dois dias rumo à Califórnia, durante a qual passará por diversas situações atípicas.

Melancólico como sua bela trilha sonora, o filme oscila com talento entre a comédia e o drama enquanto seus personagens aprendem importantes lições sobre o que é realmente relevante em nossa curta passagem por este planeta. Obcecado com o conceito de “vitória”, Richard não percebe que a raiz da maior parte de seus problemas encontra-se justamente no programa que concebeu para se tornar um vencedor – e que serve apenas para distanciá-lo da família e cegá-lo com relação ao que realmente importa. Tornando-se cada vez mais próximos do espectador à medida que a narrativa se desenvolve, os personagens de Pequena Miss Sunshine têm suas peculiaridades e excentricidades, é verdade, mas isto jamais impede que nos identifiquemos com seus sonhos e frustrações, que sempre soam próximos de nossas próprias experiências (dificuldades financeiras, desilusões amorosas, preocupação com a família, ambições profissionais e assim por diante).

Estreando na direção de longas-metragens depois de uma extensa carreira na Publicidade, o casal Jonathan Dayton e Valerie Faris mantém a narrativa sempre sob controle, optando por uma abordagem mais tradicional que permita que os personagens se desenvolvam sem muitas intromissões de planos que chamem atenção sobre si mesmos ou efeitos de montagem rebuscados. Esta opção pela comunicação rápida e direta com o público, aliás, também pode ser observada na direção de arte, que logo estabelece o lar dos Hoover como um lugar humilde, mas relativamente aconchegante. Da mesma maneira, a introdução do filme nos apresenta separadamente a cada um dos personagens, ilustrando o distanciamento que estes mantêm uns dos outros ao mesmo tempo em que conhecemos seus principais dilemas (Olive sonha em ser Miss; Richard não consegue se tornar exemplo bem-sucedido do próprio programa; Frank não quer mais viver e Vovô se entrega à heroína). Além disso, quando o roteiro de Arndt finalmente coloca todas aquelas pessoas em um mesmo ambiente, durante o jantar, os diretores aproveitam a oportunidade para estabelecer a dinâmica entre os personagens enquanto ressaltam as características de cada um (a rebeldia de Vovô; a crise entre Richard e Sheryl; a curiosidade infantil de Olive; etc). Também é nesta ótima cena que percebemos um leve – mas importante – ressentimento de Sheryl com relação à ótima situação financeira da irmã (reparem na menção irônica à competição de cavalos), o que servirá de contraponto às suas próprias frustrações econômicas, que inspirarão muitas discussões com o marido.

Como é fácil perceber, Pequena Miss Sunshine é uma destas produções que brilham ou fracassam em função da competência de seu elenco – e, felizmente, o sucesso alcançado por estas performances é inegável. Encarnando Richard como um sujeito que parece avaliar a vitória alheia através de conceitos puramente superficiais, Greg Kinnear inicialmente surge como uma figura antipática que não percebe os danos causados à filha por seus conselhos equivocados. Aos poucos, porém, constatamos que Richard é um homem bem-intencionado que ama a família, apesar de nem sempre saber demonstrar este sentimento da melhor forma – e o mais curioso é notar que, embora se julgue um homem seguro e racional, ele mal consegue conter o nervosismo ao ser confrontado por um guarda rodoviário, quando age da pior maneira possível (numa cena que comprova o talento cômico do ator).

Steve Carell, por sua vez, assume o denso papel de Frank com grande força: amargurado com os próprios fracassos e torturado pelo sucesso de um “concorrente”, ele exibe uma doçura tocante através da passividade com que atende aos pedidos da irmã, mesmo que não consiga conter os olhares de desprezo dirigidos ao cunhado. Já o jovem Paul Dano, limitado por não poder se manifestar vocalmente durante boa parte da projeção, compensa a falta de falas com uma intensidade admirável em sua postura em cena – e quando finalmente ganha liberdade para abrir a boca, sua frustração impressiona pelo vigor com que é externada. Toni Collette, por sua vez, surge como o centro emocional da família, demonstrando uma diligência tocante em manter todos unidos mesmo nas piores situações, enquanto o veterano Alan Arkin transforma o Vovô em um indivíduo explosivo, mas carinhoso, divertindo com seu ótimo timing cômico e comovendo com sua preocupação com a neta e o filho (observem como ele acompanha, à distância, a conversa de Richard pelo telefone, chateando-se por perceber que as coisas não parecem ir bem).

E chegamos, enfim, a Abigail Breslin, que representa o elo principal da narrativa, o que não deixa de ser uma imensa responsabilidade para uma atriz tão jovem – e ela se sai maravilhosamente bem. Adorável em seus grandes óculos e com sua pancinha infantil (resultado de uma eficiente caracterização feita pela equipe de maquiagem, já que ela é magra na realidade), Olive é uma criança real, que em nada lembra a precocidade artificial presente nos trabalhos de tantos outros pequenos atores: quando tem vontade de chorar, ela faz biquinho; quando vê o pai brigando com um estranho, se assusta; quando toma um sorvete, sorri de alegria; quando recebe uma boa notícia, dá pulinhos excitados sem conter a própria felicidade; quando gira em torno de si mesma, fica tonta. Como toda criança, Olive é capaz de guardar uma curiosidade por dias – e assim que encontra uma oportunidade, por exemplo, ela logo pergunta se a Miss que admira também gosta de sorvete (uma dúvida que para ela se torna tão importante quanto nossas preocupações adultas). Assim, o espectador passa a se importar com os sonhos da menina, torcendo desesperadamente para que ela se saia bem no tal concurso.

No entanto, Pequena Miss Sunshine é mais ambicioso tematicamente do que revela inicialmente – e o concurso logo se revela não apenas como palco (literal) do terceiro ato, mas como instrumento para uma crítica ácida a uma cultura que incentiva a competição irracional e valores superficiais que nada acrescentam às nossas existências. Utilizando crianças que realmente costumam participar destas afrontas ao bom senso e à beleza natural e inocente da infância, o filme nos apresenta a um bando de criaturas repulsivas (mães e filhas, mas principalmente as primeiras, que deveriam ter mais discernimento) que buscam a erotização precoce de garotinhas que surgem como bonecas pintadas em um esforço pavoroso de emular modelos adultas igualmente nojentas em sua ambição de estabelecer a estética como principal valor da Humanidade. Assim, quando comparamos aqueles monstrinhos maquiados com a doce e espontânea Olive, percebemos que: a) sua apresentação é totalmente inapropriada para o concurso; e b) isto é a comprovação maior de sua beleza, interna e externa. Enquanto suas concorrentes buscam seduzir público e jurados (e têm apenas 7 anos de idade, meu Deus!), Olive quer apenas se divertir – e isto a torna campeã aos nossos olhos. Aliás, o número musical que atua como clímax do filme é absolutamente perfeito por exercer várias importantes funções ao mesmo tempo: diverte, comove, é estranhamente crível em sua falta de realismo, expõe aquela “instituição” (os concursos de beleza) ao ridículo merecido e – o mais fantástico – ainda serve para estabelecer a tão esperada comunhão daquela família.

Utilizando sua já famosa Kombi amarela como metáfora para o fortalecimento dos laços entre os personagens (o veículo só funciona quando todos se unem para empurrá-lo), Pequena Miss Sunshine não tenta oferecer soluções fáceis e artificiais para os problemas da família Hoover – e, assim, quando a projeção chega ao fim, os dilemas (financeiros, emocionais, profissionais) daquelas pessoas continuam a existir. A diferença é que, agora, há a esperança palpável de que eles finalmente compreendam que podem contar uns com os outros para contorná-los.

11 de Fevereiro de 2007

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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