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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/01/2009 26/11/2008 2 / 5 3 / 5
Distribuidora

Austrália
Australia

Dirigido por Baz Luhrmann. Com: Nicole Kidman, Hugh Jackman, Bryan Brown, Essie Davis, David Gulpilil, David Ngoombujarra, David Wenham, Wah Yuen, Jacek Koman e Brandon Walters.

 

Na década de 60, diretores italianos como Sergio Leone e Alberto Cardone ajudaram a estabelecer o western spaghetti como um subgênero legítimo e admirado a partir da apropriação (e mesmo subversão) de várias convenções do western típico, norte-americano. Pois agora é a vez do australiano Baz Luhrmann tentar criar sua própria variação do tema – e o resultado altamente irregular é algo que poderíamos batizar desde já como western canguru ou, ainda mais apropriado, western kitsch.

 

Escrito a quatro mãos por Luhrmann, Stuart Beattie, Ronald Harwood e Richard Flanagan, Austrália é o tipo da bagunça que poderíamos esperar de um roteiro que combina, na mesma narrativa, as sensibilidades, virtudes e defeitos dos autores de filmes tão diversos quanto Moulin Rouge!, 30 Dias de Noite e O Pianista: assim, embora comece como uma fábula (não é à toa que a fazenda onde boa parte da ação se passa se chama “Faraway Downs”, remetendo ao “far away” – “tão distante” – das histórias infantis), o filme logo se revela um western quando somos apresentados à disputa de terras que leva à morte de Lorde Maitland Ashley, cujo corpo é descoberto por sua esposa recém-chegada, Lady Sarah Ashley (Kidman), de maneira idêntica àquela vista em Era uma Vez no Oeste, quando Claudia Cardinale via os corpos de sua família estendidos sobre mesas de madeira. A partir daí, Sarah, uma afetada aristocrata britânica, inicia uma jornada para conduzir 1.500 cabeças de gado através do deserto australiano, sendo guiada pelo despachado – bruto? – Capataz (Jackman), o que traz ecos claros de Uma Aventura na África ao repetir a dinâmica estabelecida por Katharine Hepburn e Humphrey Bogart. Porém, depois de uma longa seqüência inspirada em Rio Vermelho, de Howard Hawks, Austrália abandona sua trama sobre a condução do gado e se converte num drama de guerra – e mesmo que inclua algumas imagens retiradas de Tora! Tora! Tora! (do qual não gosto, diga-se de passagem), o filme acaba mesmo lembrando o açucarado Pearl Harbor de Michael Bay.

 

E se citei diversas referências cinematográficas ao discutir a história de Austrália, isto se deve ao fato de Luhrmann ter concebido seu filme como uma grande colagem que, longe de refutar a artificialidade, abraça-a sem hesitações, abandonando qualquer grau de realismo ao apresentar-se orgulhosamente como “um Filme!”, com direito a exclamação e maiúscula. É por esta razão, aliás, que a primeira imagem do longa traz o céu com o alaranjado marcante do horizonte que permeava algumas das seqüências mais conhecidas de ... E o Vento Levou ao mesmo tempo em que estabelece que a história se passa em 1939 – justamente o ano de lançamento daquela obra. Trinta e nove, vale dizer, também marcou a estréia de outro trabalho fartamente mencionado em Austrália, O Mágico de Oz, cuja música-tema (“Over the Rainbow”) é ouvida em várias versões ao longo da projeção, transformando-se num símbolo da trajetória do garotinho Nullah (Walters), que, como Dorothy, está sempre tentando voltar ao (ou permanecer em) seu lar. Descendente de aborígenes, Nullah é perseguido pelo governo australiano, que, por cerca de cem anos, tomou estas crianças de suas mães para enviá-las para centros estatais nos quais eram treinadas para trabalhar como criadas da população branca – um crime hediondo promovido pela Austrália que, acreditem ou não, só deixou de acontecer já na década de 70 (o ótimo Geração Roubada, de Phillip Noyce, discute a tragédia). É lamentável, portanto, que Baz Luhrmann inicie seu filme com um letreiro no qual aborda a questão de maneira séria apenas para depois usá-la como pretexto para um drama rasteiro; usar temas reais como pano de fundo para o entretenimento não é algo condenável por natureza (e pode até ser importante), mas empregá-los sob falsos pretextos apenas para tentar incutir relevância política e social a uma superprodução é sempre reprovável (vide O Curioso Caso de Benjamin Button).

 

Mas isto, creio, já seria de se esperar vindo de um cineasta que declaradamente ama o espetáculo (seus demais filmes – entre eles, o magnífico Moulin Rouge! - integram a trilogia “Cortina Vermelha”, que já explicita, em seu nome, a natureza teatral, de show, do diretor). E, em seus aspectos estéticos, Austrália é realmente admirável: Luhrmann e a diretora de fotografia Mandy Walker criam planos memoráveis e quadros elegantemente compostos, acentuando o aspecto cinematográfico da narrativa ao freqüentemente recortarem seus atores diante de horizontes belíssimos claramente inseridos através do uso do greenscreen. Além disso, o uso constante de câmera lenta e a trilha grandiosa de David Hirschfelder ajudam a estabelecer Austrália como uma produção que faz questão de sempre lembrar o espectador de que este se encontra no cinema, num jogo metalingüístico interessante. Aliás, o interesse de Luhrmann pelo espetáculo é tão grande que, logo depois de retratar o ataque ao porto de Darwin, ele afasta sua câmera ostensivamente num plano aéreo que atravessa as nuvens enquanto a trilha segue um crescendo – e sou capaz de apostar que o diretor chegou a cogitar seriamente a possibilidade de incluir, neste ponto, um imenso letreiro de “INTERMISSION” (“intervalo”), como nas grandes superproduções de lendas como Cecil B. De Mille.

 

Infelizmente, a busca de Austrália por uma identidade cinematográfica acaba levando o filme a oscilar perigosamente entre tons terrivelmente díspares: assim, ao letreiro inicial sério se segue uma narração fabulesca que logo é substituída por uma abordagem semi-cômica, de screwball comedy (ei, que tal western screwball?), que, por sua vez, cede espaço a uma espécie de road movie que, finalmente, se transforma num drama de guerra – tudo isso enquanto Luhrmann berra “Épico! Épico!” em nossos ouvidos. Neste aspecto, a principal vítima da abordagem esquizofrênica do cineasta é Nicole Kidman, cuja personagem muda de comportamento e personalidade à medida que o filme troca de gênero: assim, inicialmente ela surge careteira e caricatural, caminhando rapidamente enquanto sacode os braços ostensivamente e soltando gritinhos de choque em resposta a tudo que vê. Gradualmente, no entanto, ela se converte numa mulher mais real e forte, encontrando o centro de sua personagem apenas ao concentrar-se no amor desta pelo garotinho Nullah – quando, infelizmente, já é um pouco tarde demais para que Lady Sarah se transforme numa figura minimamente verossímil. (E numa nota particular: jamais comento a aparência física de atores quando isto não é relevante para a análise de suas performances, mas a inexpressividade de Kidman e sua testa sempre congelada são impossíveis de ignorar. Como uma atriz, que depende da expressão para viver, pode sabotar-se com tanto botox? Triste.)

 

Já Hugh Jackman se beneficia por receber a tarefa de interpretar um clichê: o homem forte e bruto cuja virilidade é sua principal (ou mesmo única) característica relevante. Apresentado ao público através de um close de seus olhos que remete a planos similares na “Trilogia dos Dólares” de Leone (e Jackman realmente lembra o jovem Clint Eastwood), o Capataz tem “símbolo sexual” escrito na testa – e não é à toa que, ao retratá-lo se banhando, Luhrmann e Walker o cobrem com uma luz dourada enquanto Jackman literalmente posa para a câmera numa posição mais apropriada a uma estátua de mármore do que a alguém que está se lavando (mas, claro, o artifício faz parte do jogo). Já Bryan Brown, ícone australiano dos anos 80, e David Wenham (o Faramir de O Senhor dos Anéis) se limitam a interpretar vilões caricaturais que sempre encaram os heróis com olhares cínicos e maldosos.

 

Sem conseguir estabelecer os limites da narrativa no que diz respeito ao sobrenatural, Austrália também falha ao jamais deixar clara, para o espectador, a verdadeira natureza do enigmático Rei George (vivido por David Gulpilil, o excelente rastreador de Geração Roubada): por que ele parece ser capaz de saltar de um lugar a outro quase instantaneamente? E por que, em alguns momentos, ele é visível para os demais personagens, voltando a desaparecer segundos depois? O garotinho Nullah é realmente detentor de poderes mágicos ou não? Em certos instantes, o filme parece sugerir que tudo não passa da imaginação do garoto (incensada, claro, por algumas coincidências), mas em outros ele realmente parece ser capaz de fazer “mágica” – o que não explica, claro, por que ele surge tão amedrontado no terceiro ato. (Mas talvez seu maior poder seja o de não envelhecer, já que ao menos dois anos se passam na história sem que o garoto cresça um centímetro ou passe por qualquer alteração física aparente.)

 

Caso tivesse terminado com a chegada do gado no porto de Darwin, Austrália seria um filme menor de Luhrmann, mas ainda assim divertido, correto do ponto de vista narrativo e plasticamente interessante. Porém, ao se prolongar por mais de uma hora em um drama raso e carregado de clichês (incluindo o do amante que julga que a parceira encontra-se morta), o filme se torna arrastado, ainda mais confuso em seu tom e auto-indulgente a ponto de converter suas experiências estéticas em uma verdadeira tortura para o espectador.

 

Western torture talvez seja, afinal, o melhor nome para o que quer que seja que Baz Luhrmann criou aqui.

 

24 de Janeiro de 2009

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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