Dirigido por Baz Luhrmann. Com: Nicole Kidman, Hugh Jackman, Bryan Brown, Essie Davis, David Gulpilil, David Ngoombujarra, David Wenham, Wah Yuen, Jacek Koman e Brandon Walters.
Na década de 60, diretores italianos como Sergio Leone e Alberto Cardone ajudaram a estabelecer o western spaghetti como um subgênero legítimo e admirado a partir da apropriação (e mesmo subversão) de várias convenções do western típico, norte-americano. Pois agora é a vez do australiano Baz Luhrmann tentar criar sua própria variação do tema – e o resultado altamente irregular é algo que poderíamos batizar desde já como western canguru ou, ainda mais apropriado, western kitsch.
Escrito a quatro mãos por Luhrmann, Stuart Beattie, Ronald Harwood e Richard Flanagan, Austrália é o tipo da bagunça que poderíamos esperar de um roteiro que combina, na mesma narrativa, as sensibilidades, virtudes e defeitos dos autores de filmes tão diversos quanto Moulin Rouge!, 30 Dias de Noite e O Pianista: assim, embora comece como uma fábula (não é à toa que a fazenda onde boa parte da ação se passa se chama “Faraway Downs”, remetendo ao “far away” – “tão distante” – das histórias infantis), o filme logo se revela um western quando somos apresentados à disputa de terras que leva à morte de Lorde Maitland Ashley, cujo corpo é descoberto por sua esposa recém-chegada, Lady Sarah Ashley (Kidman), de maneira idêntica àquela vista em Era uma Vez no Oeste, quando Claudia Cardinale via os corpos de sua família estendidos sobre mesas de madeira. A partir daí, Sarah, uma afetada aristocrata britânica, inicia uma jornada para conduzir 1.500 cabeças de gado através do deserto australiano, sendo guiada pelo despachado – bruto? – Capataz (Jackman), o que traz ecos claros de Uma Aventura na África ao repetir a dinâmica estabelecida por Katharine Hepburn e Humphrey Bogart. Porém, depois de uma longa seqüência inspirada
E se citei diversas referências cinematográficas ao discutir a história de Austrália, isto se deve ao fato de Luhrmann ter concebido seu filme como uma grande colagem que, longe de refutar a artificialidade, abraça-a sem hesitações, abandonando qualquer grau de realismo ao apresentar-se orgulhosamente como “um Filme!”, com direito a exclamação e maiúscula. É por esta razão, aliás, que a primeira imagem do longa traz o céu com o alaranjado marcante do horizonte que permeava algumas das seqüências mais conhecidas de ... E o Vento Levou ao mesmo tempo em que estabelece que a história se passa em 1939 – justamente o ano de lançamento daquela obra. Trinta e nove, vale dizer, também marcou a estréia de outro trabalho fartamente mencionado em Austrália, O Mágico de Oz, cuja música-tema (“Over the Rainbow”) é ouvida em várias versões ao longo da projeção, transformando-se num símbolo da trajetória do garotinho Nullah (Walters), que, como Dorothy, está sempre tentando voltar ao (ou permanecer em) seu lar. Descendente de aborígenes, Nullah é perseguido pelo governo australiano, que, por cerca de cem anos, tomou estas crianças de suas mães para enviá-las para centros estatais nos quais eram treinadas para trabalhar como criadas da população branca – um crime hediondo promovido pela Austrália que, acreditem ou não, só deixou de acontecer já na década de 70 (o ótimo Geração Roubada, de Phillip Noyce, discute a tragédia). É lamentável, portanto, que Baz Luhrmann inicie seu filme com um letreiro no qual aborda a questão de maneira séria apenas para depois usá-la como pretexto para um drama rasteiro; usar temas reais como pano de fundo para o entretenimento não é algo condenável por natureza (e pode até ser importante), mas empregá-los sob falsos pretextos apenas para tentar incutir relevância política e social a uma superprodução é sempre reprovável (vide O Curioso Caso de Benjamin Button).
Mas isto, creio, já seria de se esperar vindo de um cineasta que declaradamente ama o espetáculo (seus demais filmes – entre eles, o magnífico Moulin Rouge! - integram a trilogia “Cortina Vermelha”, que já explicita, em seu nome, a natureza teatral, de show, do diretor). E, em seus aspectos estéticos, Austrália é realmente admirável: Luhrmann e a diretora de fotografia Mandy Walker criam planos memoráveis e quadros elegantemente compostos, acentuando o aspecto cinematográfico da narrativa ao freqüentemente recortarem seus atores diante de horizontes belíssimos claramente inseridos através do uso do greenscreen. Além disso, o uso constante de câmera lenta e a trilha grandiosa de David Hirschfelder ajudam a estabelecer Austrália como uma produção que faz questão de sempre lembrar o espectador de que este se encontra no cinema, num jogo metalingüístico interessante. Aliás, o interesse de Luhrmann pelo espetáculo é tão grande que, logo depois de retratar o ataque ao porto de Darwin, ele afasta sua câmera ostensivamente num plano aéreo que atravessa as nuvens enquanto a trilha segue um crescendo – e sou capaz de apostar que o diretor chegou a cogitar seriamente a possibilidade de incluir, neste ponto, um imenso letreiro de “INTERMISSION” (“intervalo”), como nas grandes superproduções de lendas como Cecil B. De Mille.
Infelizmente, a busca de Austrália por uma identidade cinematográfica acaba levando o filme a oscilar perigosamente entre tons terrivelmente díspares: assim, ao letreiro inicial sério se segue uma narração fabulesca que logo é substituída por uma abordagem semi-cômica, de screwball comedy (ei, que tal western screwball?), que, por sua vez, cede espaço a uma espécie de road movie que, finalmente, se transforma num drama de guerra – tudo isso enquanto Luhrmann berra “Épico! Épico!” em nossos ouvidos. Neste aspecto, a principal vítima da abordagem esquizofrênica do cineasta é Nicole Kidman, cuja personagem muda de comportamento e personalidade à medida que o filme troca de gênero: assim, inicialmente ela surge careteira e caricatural, caminhando rapidamente enquanto sacode os braços ostensivamente e soltando gritinhos de choque em resposta a tudo que vê. Gradualmente, no entanto, ela se converte numa mulher mais real e forte, encontrando o centro de sua personagem apenas ao concentrar-se no amor desta pelo garotinho Nullah – quando, infelizmente, já é um pouco tarde demais para que Lady Sarah se transforme numa figura minimamente verossímil. (E numa nota particular: jamais comento a aparência física de atores quando isto não é relevante para a análise de suas performances, mas a inexpressividade de Kidman e sua testa sempre congelada são impossíveis de ignorar. Como uma atriz, que depende da expressão para viver, pode sabotar-se com tanto botox? Triste.)
Já Hugh Jackman se beneficia por receber a tarefa de interpretar um clichê: o homem forte e bruto cuja virilidade é sua principal (ou mesmo única) característica relevante. Apresentado ao público através de um close de seus olhos que remete a planos similares na “Trilogia dos Dólares” de Leone (e Jackman realmente lembra o jovem Clint Eastwood), o Capataz tem “símbolo sexual” escrito na testa – e não é à toa que, ao retratá-lo se banhando, Luhrmann e Walker o cobrem com uma luz dourada enquanto Jackman literalmente posa para a câmera numa posição mais apropriada a uma estátua de mármore do que a alguém que está se lavando (mas, claro, o artifício faz parte do jogo). Já Bryan Brown, ícone australiano dos anos 80, e David Wenham (o Faramir de O Senhor dos Anéis) se limitam a interpretar vilões caricaturais que sempre encaram os heróis com olhares cínicos e maldosos.
Sem conseguir estabelecer os limites da narrativa no que diz respeito ao sobrenatural, Austrália também falha ao jamais deixar clara, para o espectador, a verdadeira natureza do enigmático Rei George (vivido por David Gulpilil, o excelente rastreador de Geração Roubada): por que ele parece ser capaz de saltar de um lugar a outro quase instantaneamente? E por que, em alguns momentos, ele é visível para os demais personagens, voltando a desaparecer segundos depois? O garotinho Nullah é realmente detentor de poderes mágicos ou não? Em certos instantes, o filme parece sugerir que tudo não passa da imaginação do garoto (incensada, claro, por algumas coincidências), mas em outros ele realmente parece ser capaz de fazer “mágica” – o que não explica, claro, por que ele surge tão amedrontado no terceiro ato. (Mas talvez seu maior poder seja o de não envelhecer, já que ao menos dois anos se passam na história sem que o garoto cresça um centímetro ou passe por qualquer alteração física aparente.)
Caso tivesse terminado com a chegada do gado no porto de Darwin, Austrália seria um filme menor de Luhrmann, mas ainda assim divertido, correto do ponto de vista narrativo e plasticamente interessante. Porém, ao se prolongar por mais de uma hora em um drama raso e carregado de clichês (incluindo o do amante que julga que a parceira encontra-se morta), o filme se torna arrastado, ainda mais confuso em seu tom e auto-indulgente a ponto de converter suas experiências estéticas em uma verdadeira tortura para o espectador.
Western torture talvez seja, afinal, o melhor nome para o que quer que seja que Baz Luhrmann criou aqui.
24 de Janeiro de 2009
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Sarah Ashley é uma aristocrata inglesa que viaja para a Austrália durante a Segunda Guerra Mundial para defender a terra que herdou de sua família. Lá ela conhece Drover, um rude vaqueiro que concorda em lhe ajudar em sua batalha contra os invasores. Juntos, eles se envolvem em uma jornada épica e romântica, enquanto precisam enfrentar os horrores da guerra e os bombardeios japoneses que ameaçam separá-los e destruir tudo aquilo que conquistaram.