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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
14/03/2008 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora

O Olho do Mal
The Eye

Dirigido por David Moreau, Xavier Palud. Com: Jessica Alba, Alessandro Nivola, Parker Posey, Rade Serbedzija, Fernanda Romero, Rachel Ticotin, Obba Babatundé, Chloe Moretz.

 

Embora seja uma adaptação do terror chinês The Eye – A Herança, dirigido pelos irmãos Pang em 2002, o norte-americano O Olho do Mal jamais soa como algo mais do que uma imitação barata: ainda que conte com as mesmas reviravoltas e até mesmo planos idênticos aos daquele longa, o filme produzido pela empresa de Tom Cruise é uma refilmagem dispensável que praticamente destrói tudo o que o original tinha de bom, substituindo o suspense por sustos que dependem mais da trilha sonora do que da história, da direção ou da montagem.

 

Escrito por Sebastian Gutierrez, que não assinou um roteiro que preste em seus dez anos de carreira (os piores foram os de Na Companhia do Medo e Rise: Blood Hunter), este O Olho do Mal traz Jessica Alba como a violinista Sydney Wells, que, cega desde os cinco anos de idade, finalmente é submetida a um bem-sucedido transplante de córneas que recupera sua visão. Infelizmente, a cirurgia traz um efeito colateral: a moça passa a enxergar espíritos raivosos que não aceitam a própria morte, além de seres espectrais encarregados de conduzi-los para o outro mundo (e que também não gostam de ser vistos por uma criatura viva). Determinada a desvendar a natureza de seu recém-adquirido dom, Sydney passa a investigar a identidade da garota de quem herdou as córneas, descobrindo uma história trágica e assustadora.

 

Sabotando a nova versão desde o primeiro segundo de projeção, Gutierrez já tropeça ao abrir a narrativa com um prólogo inexistente no original e que apresenta o espectador à moça que doará sua visão (em todos os sentidos) à protagonista – algo que A Herança reservava para um momento dramaticamente mais eficaz. Com isso, o roteirista já elimina uma das surpresas da história concebida pelos Pang, que inicialmente levavam o público a acreditar que a mediunidade da heroína era inata, somente esclarecendo que se tratava de algo “herdado” quando já nos encontrávamos quase na metade da trama – o que permitia que a narrativa desembocasse no terceiro ato (e numa segunda reviravolta) de maneira mais natural e envolvente. Assim, ao colocar quase todas as suas cartas na mesa logo de cara, O Olho do Mal se torna rapidamente repetitivo, já que somos obrigados a esperar até que a protagonista nos alcance, em vez de desvendarmos os enigmas ao seu lado.

 

Mas não é só: a incompetência de Gutierrez também se revela na maneira com que este substitui a explicação econômica e eficaz com que o terapeuta expunha as dificuldades enfrentadas pela mocinha ao recuperar a visão (usando apenas um grampeador!) por um longo e artificial monólogo que soa terrivelmente expositivo – e, como se não bastasse, o médico aqui vivido por Alessandro Nivola exibe uma propensão preocupante à psicologia barata. Em contrapartida, o roteirista mantém o que o original tinha de pior: as descartáveis narrações em off que abriam e fechavam o filme e que tentavam acrescentar (sem sucesso) um tom poético à trajetória da garota.

 

Já do ponto de vista técnico, O Olho do Mal se mostra claramente superior no que diz respeito à fotografia, já que a crueza da produção chinesa incomodava justamente pela falta de refinamento. Infelizmente, isto de pouco serve à versão norte-americana, já que o mais importante – a inteligência artística dos irmãos Pang – não encontra similar na direção dos franceses David Moreau e Xavier Palud. Enquanto os Pang criavam um angustiante tom de suspense através de composições de quadro inquietantes e movimentos de câmera eficazes, Moreau e Palud basicamente se limitam a planos pouco inventivos – e os momentos de maior inspiração são justamente aqueles que recriam tomadas do original, como no instante em que a câmera desloca a protagonista para o canto esquerdo do quadro enquanto se aproxima de sua orelha esquerda a fim de salientar sua aguda percepção auditiva (naquele instante, ainda superior à visual). Por outro lado, uma das cenas mais surpreendentes do longa chinês (aquela em que finalmente enxergamos o que a mocinha vê no espelho) aqui é diluída a ponto de soar quase anticlimática, o que é uma pena. E se o rack focus (mudanças bruscas de foco) constante da produção de 2002 era uma maneira adequada de simular o gradual ajuste da visão da heroína, aqui isto é substituído por planos simplesmente desfocados, o que, mais uma vez, se revela pouco imaginativo.

 

Contudo, os problemas não param por aí: como se todos estes equívocos já não fossem o bastante para condenar esta refilmagem, O Olho do Mal ainda tem o azar de contar com Jessica Alba no papel originalmente interpretado pela competente Angelica Lee (que voltaria a trabalhar com os Pang no interessante Assombração): não conseguindo nos convencer da cegueira de sua personagem nem mesmo quando é auxiliada por lentes de contato que tornam seus olhos opacos, Alba é uma atriz terrivelmente inexpressiva – e nem mesmo simular tosse em função da fumaça que toma conta de seu apartamento parece ser algo fácil para a moça, o que a coloca abaixo até mesmo de Keanu Reeves como intérprete (isso para não mencionar a forma monocórdica com que recita todos os seus diálogos). Enquanto isso, Alessandro Nivola, um ator normalmente competente, aqui é encarregado de viver aquele que aparentemente é o pior médico do mundo, ao passo que Parker Posey e Rade Serbedzija assumem papéis que poderiam ter sido perfeitamente encarnados por figurantes sem talento.

 

Beneficiado ao menos por não contar com a terrível trilha sonora do original (um ponto fraco dos irmãos Pang), O Olho do Mal é um exemplo perfeito da diferença entre um filme que recicla os elementos do gênero terror de maneira criativa e outro que apenas se limita a copiá-los: embora nada tenha de original, A Herança se estabelecia como um trabalho admirável e com vida própria, ao passo que esta refilmagem nada mais é do que uma cópia pálida de A Última Profecia e O Sexto Sentido. E o fato do original evitar estas mesmas comparações é a prova máxima de sua eficácia.

 

14 de Março de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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