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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/11/2007 28/09/2007 4 / 5 / 5
Distribuidora

No Vale das Sombras
In the Valley of Elah

Dirigido por Paul Haggis. Com: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Josh Brolin, James Franco, Jason Patric, Barry Corbin, Frances Fisher, Wes Chatham, Jake McLaughlin, Mehcad Brooks, Jonathan Tucker, Brent Briscoe.

 

No Vale das Sombras, novo trabalho do roteirista e diretor Paul Haggis (Crash), é uma obra que se propõe a discutir vários temas relevantes, fazendo-o com certa eficácia: o efeito desumanizador da guerra; o desperdício de vidas em um conflito sem sentido; a tendência dos poderosos de varrer a sujeira para debaixo do tapete; o medo de que não conheçamos realmente quem são nossos filhos; e até mesmo sexismo. Infelizmente, parte da força destas mensagens é diluída pela decisão de Haggis de embalá-las em um pacote de filme de gênero, permitindo que a estrutura esquemática de um longa policial se torne mais importante do que os subtextos que contém.

 

Quando o filme tem início, somos apresentados a Hank Deerfield (Jones), um oficial de carreira do exército norte-americano que recebe uma ligação informando que seu filho Mike (Tucker), soldado recém-chegado do Iraque, não retornou à base depois de uma licença. Preocupado com o comportamento atípico do rapaz (que certa vez se apresentara mesmo com uma fratura exposta), Hank viaja até a cidade na qual se encontra o quartel e, não muito tempo depois, vê-se diante do corpo carbonizado e mutilado do filho. A partir daí, ele utiliza sua experiência como ex-investigador do exército para tentar descobrir o que realmente aconteceu, sendo auxiliado na tarefa pela detetive Emily Sanders (Theron). Enfrentando a resistência dos próprios militares, Hank conta apenas com uma pista deixada pelo próprio filho: uma série de vídeos gravados no celular do rapaz que trazem trechos de suas experiências sangrentas no Iraque.

 

A maneira com que Haggis emprega os vídeos para pontuar a trama, aliás, representa um dos pontos mais fracos do filme: revelados gradualmente (os arquivos são recuperados individual e lentamente por um hacker), eles fornecem a Hank pedaços maiores do quebra-cabeça, obviamente se tornando mais importantes à medida que novos trechos são apresentados (no lugar do protagonista, eu já pediria de cara que o tal hacker trabalhasse preferencialmente no último arquivo). Aliás, o mesmo se aplica a um pacote enviado por Mike para a casa dos pais antes de sua morte: sem motivo aparente, Hank pede que a esposa não o abra – e é claro que Haggis utiliza o conteúdo “surpresa” do envelope para encerrar a narrativa, o que soa artificial e gratuito mesmo que resulte num fechamento tematicamente eficaz. Da mesma maneira, a parábola de Davi e Golias, que dá título ao filme no original, é encaixada de forma terrivelmente forçada em seus temas principais, surgindo pouco adequada ao propósito de resumi-los ou mesmo de simbolizar os esforços do próprio protagonista.

 

Em contrapartida, o roteiro tem mais sucesso ao comentar, de maneira sutil, as contradições de uma sociedade que determina que seus jovens ainda não têm idade para consumir bebidas alcoólicas, mas são velhos o bastante para morrer pelo país – e o fato de Mike ter o corpo esquartejado e carbonizado é um símbolo perfeito das seqüelas psicológicas e emocionais que a guerra tivera sobre o rapaz, já que este fora completamente destruído muito antes de retornar aos Estados Unidos. (E a explicação para o apelido que ele ganha dos companheiros, “Doc”, demonstra para Hank que ele já havia perdido o filho muito antes deste ser morto.)

 

Hank, aliás, representa mais um ponto alto na carreira de Tommy Lee Jones, que, se considerarmos seu desempenho espetacular em Onde os Fracos Não Têm Vez, teve um ano realmente brilhante. Patriota a ponto de não tolerar ver uma bandeira norte-americana hasteada de forma incorreta, o sujeito jamais abandonou os hábitos da caserna, dedicando concentração absoluta a tarefas como engraxar os sapatos e arrumar a cama. Extremamente metódico (como podemos observar no momento em que corta caprichosamente um pedacinho de papel a fim de aplicá-lo num corte de barbear), Hank é um homem triste e cansado – e, neste aspecto, o rosto marcante do ator, com suas olheiras profundas e infinitas rugas, conta a história do personagem sem que nada precise ser dito. Apesar de procurar manter seus sentimentos sob controle (e, principalmente, ocultos de quem quer que seja), ele mal consegue disfarçar o abalo provocado pela notícia da morte do filho – e o talento de Jones ao ilustrar um átimo da reação de Hank antes que este se recomponha é o bastante para que aplaudamos seu talento e sua inteligência.

 

Mas ele não é o único que merece elogios: num papel minúsculo, Susan Sarandon resiste à tentação de exagerar nas reações de Joan, esposa de Hank, a fim de atrair a atenção do espectador. Em vez disso, ela retrata a dor profunda daquela mãe de maneira contida, como se, no fundo, Joan estivesse se preparando há anos para ouvir aquela notícia, posto que já perdera outro filho em combate. Enquanto isso, Charlize Theron faz um trabalho discreto, mas eficaz, como a policial Emily Sanders, que enfrenta o peso de criar um filho sozinha ao mesmo tempo em que é obrigada a agüentar o preconceito de seus colegas machistas. Pragmática e realista, Emily não tem qualquer ilusão sobre a natureza de seu trabalho, que encara como um emprego, não uma carreira (suas palavras) – e a forma como se lembra de pegar um recibo para justificar um pequeno gasto espelha perfeitamente suas constantes dificuldades de mãe solteira.

 

Encerrando a narrativa com um simbolismo tocante (especialmente por partir de Hank), No Vale das Sombras representa uma visão pessimista sobre a máquina de guerra norte-americana (aliás, de qualquer país). E quando vemos um jovem soldado chegar para ocupar a cama que antes pertencera a Mike, enxergamos nele não as infinitas promessas de uma vida em seu começo, mas a triste e sombria perspectiva de mais um garoto prestes a ser destruído em nome de um governo que jamais retribuirá o amor e a confiança que lhe foram dedicados.

 

28 de Novembro de 2007

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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