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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
17/12/2004 28/05/2004 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

Galera do Mal
Saved!

Dirigido por Brian Dannelly. Com: Jena Malone, Eva Amurri, Mandy Moore, Macaulay Culkin, Heather Matarazzo, Patrick Fugit, Chad Faust, Martin Donovan, Mary-Louise Parker.

O que esperar de uma comédia adolescente intitulada A Galera do Mal e cujo cartaz traz uma cantora-pop-transformada-em-atriz com as mãos postas em prece e uma atriz teen com chifrinhos rabiscados (sim, rabiscados) em sua cabeça? Particularmente, confesso que aguardava 90 minutos de tortura disfarçada de obrigação profissional. O que eu certamente não antecipei foi que A Galera do Mal pudesse me surpreender com uma inteligente discussão sobre aceitação, fé e as conseqüências repugnantes do fundamentalismo religioso – tudo isto em uma embalagem divertida e irreverente.

Escrito pelos estreantes Michael Urban e Brian Dannelly (que também assume a direção), o filme se passa em uma escola de segundo grau que segue orientação evangélica e cujos alunos, portanto, estão constantemente dizendo `Aleluias`, `Aceite Jesus!` e fazendo protestos em frente a clínicas de aborto. Uma das pessoas mais ativas de sua classe, a jovem Mary namora o igualmente evangélico Dean – e, certo dia, é surpreendida pela revelação de que este acredita ser gay. Convencida de que seu dever cristão é `salvá-lo`, Mary decide oferecer sua virgindade em troca da recuperação do namorado, chegando a exclamar `Obrigada, Jesus!` logo após a primeira transa. Infelizmente, não apenas Dean é enviado para um centro religioso para `desgayficação`, como ela ainda fica grávida. Enquanto enfrenta uma crise espiritual, Mary aproxima-se de Cassandra, a única judia da escola, e passa a questionar os valores de sua amiga Hilary Faye, a garota mais popular do colégio e uma cristã que parece acreditar ser seu dever converter o resto do mundo.

Interpretada pela cantora Mandy Moore, Hilary Faye (todos sempre dizem seu nome completo) é uma espécie de mistura entre a Tracy Flick de Eleição e as `plásticas` de Meninas Malvadas, provando ser capaz de tudo para alcançar seus objetivos, sejam estes a realização de uma festa de formatura impecável ou a `salvação da alma` de Cassandra. Embora não conheça o trabalho de Moore como cantora, admito que tornei-me seu admirador graças à coragem em assumir um papel nada simpático (que desempenha com talento) em uma produção como esta, que certamente encontrará sua parcela de detratores, como discutirei adiante. E o melhor é que Hilary Faye está longe de ser uma `vilã` tradicional de filmes sobre colegiais: ela toma atitudes reprováveis, é verdade, mas é inegável que, à sua própria maneira, ela acredita estar agindo em prol de um bem maior e até mesmo ajudando aqueles que se `desviaram do caminho`.

Da mesma forma, a jovem Jena Malone transforma Mary (sim, o nome é significativo) em uma personagem tridimensional que, com seus questionamentos complexos e relevantes, ilustra com propriedade as dúvidas e crises próprias da adolescência – tudo com um humor irresistível que explora com sagacidade o universo no qual a garota vive. (E jamais pensei que pudesse rir ao ouvir alguém dizer: `Por favor, faça com que eu esteja com câncer!`, o que comprova que toda regra tem mesmo sua exceção.) Mas não são apenas Malone e Moore que se destacam; todo o elenco secundário de A Galera do Mal merece aplausos, do irônico paraplégico vivido por Macaulay Culkin à insegura beata de Heather Matarazzo, passando pelo compreensivo skatista de Patrick Fugit, o diretor jovial (e obviamente inspirado nos televangelistas) de Martin Donovan e a mãe emocionalmente carente interpretada por Mary-Louise Parker (é bom vê-la novamente!). E o que dizer de Eva Amurri, que rouba todas as suas cenas como a rebelde Cassandra? (Durante todo o filme, fiquei impressionado com sua semelhança física com a Susan Sarandon da época de Rocky Horror Picture Show – e foi com surpresa que descobri que Amurri é filha da atriz.)

Porém, a maior virtude de A Galera do Mal é mesmo a inteligente discussão que apresenta sobre as contradições do fundamentalismo religioso, que, sob a desculpa de seguir a `palavra` de Deus, acaba gerando todo tipo de discriminações e propagando um ódio cuja intensidade suplanta, e muito, o amor que supostamente move os radicais. Sempre achei irônico constatar que algumas das pessoas que mais se julgam cristãs e próximas a Deus (ou Cristo, como desejarem) são justamente aquelas que demonstram possuir preconceitos arraigados contra aqueles que deveriam ser seus semelhantes (e, coincidência ou não, justamente esta semana a Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP entrou com um processo contra duas grandes emissoras evangélicas, acusando-as de veicularem programas que incitam o preconceito religioso e racial). Para estes `devotos`, é mais fácil condenar do que perdoar; associar ao `Diabo` aqueles de quem se discorda é uma tentativa simplória de dizer `Meu sistema de valores é superior ao seu`. E isto é mais do que lamentável; é trágico.

`Por que Deus nos fez tão diferentes se deveríamos ser todos iguais?`, indaga Mary, em certo momento, tocando numa ferida que os fundamentalistas (de qualquer religião) procuram sempre evitar. Afinal de contas, somos apenas humanos e, como tais, falhos; é impossível querermos estar à altura das `exigências` espirituais daqueles que se julgam mais `próximos` do divino – e é apenas natural que, em nosso dia-a-dia, nossos sentimentos e instintos entrem em conflito com a suposta `perfeição` exigida por tais evangelistas. Encarar a Bíblia como algo em preto-e-branco (como diz um personagem do longa) é ignorar que (como lembra outro) vivemos em um mundo de cinzas. A Bíblia (ou o Talmude, o Sutra Lótus ou o Corão, não importa) não deveria ser usada como arma, mas como instrumento de aceitação. O objetivo da Humanidade deveria ser a união, não a cisão provocada pela fé cega e intolerante.

Aliás, sou capaz de apostar que, assim como aconteceu nos Estados Unidos, A Galera do Mal acabará sendo atacado por algumas congregações brasileiras, que o acusarão de ser `anti-religião` – uma afirmação ridícula, já que o filme é, antes de tudo, pró-aceitação. E se você for um daqueles que consideram esta produção como algo profano ou desrespeitoso, é melhor ficar atento(a): é possível que você esteja se tornando apenas mais uma Hilary Faye.
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17 de Dezembro de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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