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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
08/07/2006 01/01/1970 4 / 5 5 / 5
Distribuidora

Boa Noite e Boa Sorte
Good Night, and Good Luck

Dirigido por George Clooney. Com: David Strathairn, Robert Downey Jr., Patricia Clarkson, Ray Wise, George Clooney, Frank Langella, Jeff Daniels, Tate Donovan, Dianne Reeves.

 
É incrível (e deprimente) como uma história que se passou há 50 anos pode se revelar tão atual quanto aquela narrada em Boa Noite e Boa Sorte, mas o fato é que o clima conspiratório que hoje toma conta da sociedade norte-americana não é muito diferente daquele provocado pela canalhice de Joseph McCarthy durante a década de 50 – a diferença é apenas de termos, não de realidade: se na época aqueles que questionavam o temido senador eram taxados de “comunistas”, hoje os críticos de Bush e sua corja são questionados quanto ao seu “patriotismo” ou, em casos extremos, classificados como simpatizantes do terrorismo. E se o gigante da mídia William Randolph Hearst (leia-se: Charles Foster Kane) fazia as vezes de “voz oficial” do governo, hoje o papel é desempenhado pelo não menos repulsivo Keith Rupert Murdoch.

O que falta hoje, portanto, é alguém que ocupe o lugar de Edward R. Murrow, lendário âncora da CBS que, em seu programa See It Now, mostrou-se essencial, com suas críticas e reportagens, para a queda de McCarthy. Em vez disso, o jornalismo (brasileiro, inclusive) vem sendo dominado por figuras covardes e sem ética, cuja busca pela verdade cedeu lugar a interesses corporativos e políticos – como comprovam as matérias tendenciosas de determinada revista semanal, de um importante diário paulista e a linha editorial de um famoso jornalista-blogueiro que só se preocupa em noticiar denúncias que favoreçam seus interesses partidários. Assim, com sua coragem, seu zelo profissional e sua ética, a trajetória de Murrow é uma verdadeira aula de jornalismo - e Boa Noite e Boa Sorte deveria ser exibido nas faculdades no mínimo pelo belíssimo discurso feito pelo “personagem” na abertura e na conclusão do filme.

Ambientado em um período de tempo relativamente curto, de outubro de 1953 a maio de 54 (com exceção do já citado discurso, que ocorre em 58), o roteiro escrito por George Clooney e Grant Heslov passa a acompanhar Murrow e sua equipe já no auge do mccarthysmo, quando o clima de paranóia fomentado pelo senador levou a Aeronáutica norte-americana a expulsar um tenente em função de denúncias anônimas relacionadas ao pai do militar – algo que deu origem a um episódio de See It Now dedicado ao caso. A partir daí, Murrow e seu produtor Fred Friendly deram início às pesquisas que resultariam em um programa no qual usariam as palavras de McCarthy contra ele próprio – e, no processo, finalmente fizeram com que o público conhecesse a verdadeira face do senador e inspiraram ações mais críticas por parte de jornalistas e mesmo de políticos.           

Voltando à cadeira de diretor depois de sua estréia na função com o ótimo Confissões de uma Mente Perigosa, Clooney se mostra bem mais contido desta vez, evitando movimentos de câmera rebuscados e concentrando-se mais nos diálogos e no clima de tensão inspirado pelo confronto entre duas grandes forças: a mídia e a política. Esforçando-se ao máximo para resgatar o visual e a mentalidade da época, o diretor utiliza peças publicitárias produzidas na década de 50 e inclui pequenos interlúdios ao longo da narrativa nos quais Dianne Reeves surge cantando clássicos do jazz que, além de conferirem um tom nostálgico ao filme, ainda comentam (mesmo que pontualmente) alguns dos incidentes retratados e sentimentos dos personagens. Aliás, as participações de Reeves representam as únicas intervenções musicais no longa, já que Clooney – seguindo uma tendência cada vez maior entre cineastas contemporâneos – descarta a utilização de trilha instrumental para ressaltar suas idéias (outro exemplo recente: Paradise Now).           

Fotografado em preto-e-branco por Robert Elswit (colaborador habitual de Paul Thomas Anderson) de maneira incrivelmente elegante e evocativa (a utilização de sombras é magnífica),  Boa Noite e Boa Sorte adota um tom sempre realista ao narrar uma batalha feroz travada apenas em edifícios – não há um único plano em externa em todo o filme. Neste sentido, a direção de arte assume um caráter ainda mais importante, recriando a redação e os estúdios da CBS de forma a ser fiel à realidade, mas também artisticamente expressiva ao conotar a frieza e a impessoalidade daquele ambiente. Além disso, os trabalhos de direção de arte e fotografia merecem elogios particulares pela forma impecável com que se encaixam às imagens documentais da época, já que Clooney utiliza fartamente imagens de arquivo para contar sua história.

Aliás, é vergonhoso que a montagem brilhante do espetacular Stephen Mirrione (Traffic, 21 Gramas) não tenha sido indicada ao Oscar, já que Boa Noite e Boa Sorte certamente poderia ser classificado como “ficção documental” em função das constantes transições entre cenas protagonizadas por atores e outras que trazem figuras da vida real – quando Joseph McCarthy surge na tela da CBS, por exemplo, vemos vários figurantes reagindo ao que está sendo dito, além da própria equipe do See It Now. A decisão de Clooney em empregar imagens de arquivo, aliás, confere uma credibilidade adicional ao filme, além de permitir que os espectadores contemporâneos possam, de fato, conhecer McCarthy – e seria difícil, diga-se de passagem, que um ator soasse convincente ao reencenar a resposta enviada pelo senador ao programa de Murrow: nervoso, ofegante e hesitante, McCarthy protagoniza um dos momentos mais constrangedores do filme, quando praticamente sofre um colapso nervoso diante das câmeras (e percebam que nem sequer estava falando ao vivo, mas em um depoimento gravado, o que indica seu nervosismo).           

Mas Clooney, como ator, também faz um ótimo trabalho ao orquestrar as atuações: em meio a um elenco homogeneamente competente, Frank Langella (que também merecia ter sido indicado) merece destaque por conferir complexidade a William S. Palley, presidente da CBS, que é retratado como um homem dividido por suas obrigações corporativas e seu compromisso com a ética jornalística. Enquanto isso, Ray Wise vive o trágico Don Hollenbeck com simpatia e sofrida dignidade, ao passo que Robert Downey Jr. e Patrícia Clarkson trazem um pouco de leveza ao filme com os problemas do casal que deve esconder o matrimônio de seus chefes, que proibiam o casamento entre funcionários. Finalmente, o próprio Clooney, com seu carisma habitual, estabelece um ar de cumplicidade importante entre seu Fred Friendly e o Edward Murrow interpretado por David Strathairn.           

Porém, Murrow, como não poderia deixar de ser, representa mesmo o centro de Boa Noite e Boa Sorte. Jornalista famoso, rico e prestigiado, ele jamais se acomoda com o status adquirido, buscando, em vez disso, assumir novas batalhas que façam jus à influência que sabe exercer sobre o público (alguns dos momentos mais bem-humorados do filme, aliás, são aqueles nos quais um visivelmente torturado e embaraçado Murrow é obrigado a fazer entrevistas triviais com personalidades em voga). Com um ar sempre formal diante e atrás das câmeras, o âncora (com seu indefectível cigarro – ele morreria de câncer de pulmão cerca de dez anos depois) tenta apresentar uma fachada sempre firme e segura, embora, em certos instantes, possamos perceber que há um homem de carne-e-osso por trás daquela armadura: ele sacode os pés nervosamente antes de uma de suas transmissões mais importantes e, após defender-se dos ataques de McCarthy, respira pesadamente depois que o programa chega ao fim. Tudo isso é retratado com grande talento por Strathairn, que enfrenta a dificuldade adicional de ter que viver um personagem contido, reservado, o que sempre é um desafio enorme. Por outro lado, a principal fraqueza de Boa Noite e Boa Sorte diz respeito justamente ao retrato excessivamente idolátrico que pinta de Murrow: o filme certamente ganharia mais dimensão caso tivéssemos acesso a outras facetas do jornalista, como sua vida familiar ou mesmo sua conhecida atração pelo perigo, que freqüentemente o levava a se arriscar em suas reportagens durante a Segunda Guerra e mesmo a correr imprudentemente com seu carro particular. (Aliás, sua insistência em desafiar figuras poderosas não seria uma manifestação desta sua idiossincrasia?)           

Bravamente consciente da importância deste projeto, George Clooney usa Murrow como um símbolo (o que não impossibilitaria um retrato mais complexo) da virtude jornalística: depois de um programa como o que desmascarou McCarthy, sentimos que aqueles homens irão dormir com orgulho naquela noite. Em vez disso, o que temos hoje em dia é uma programação cada vez mais voltada para o fútil, o apelativo e o inconseqüente. A televisão tornou-se, como previu Murrow, apenas “fios e luzes numa caixa”, desperdiçando seu potencial informativo em prol do entretenimento na maioria das vezes vazio e descartável, tornando-se justamente uma arma importante para governantes que querem manter a população distraída e num constante vácuo de informações. Onde está o Globo Repórter da época de Eduardo Coutinho, com suas matérias e denúncias política e socialmente relevantes? O que interessa a vida sexual dos golfinhos ou a magia da pororoca diante do caos da violência e da miséria?           

Boa Noite e Boa Sorte é mais do que um filme interessante e eficiente; é uma lição cívica como aquelas que o próprio Murrow se encarregava de ministrar em seu programa.
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04 de Fevereiro de 2006


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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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