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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
22/12/2006 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
104 minuto(s)

Direção

Agnieszka Holland

Elenco

Ed Harris , Diane Kruger , Angus Barnett , Phyllida Law , Matthew Goode , Joe Anderson , Nicholas Jones

Roteiro

Stephen J. Rivele

Produção

Ernst Goldschmidt

Fotografia

Ashley Rowe

Montagem

Alex Mackie

Design de Produção

Caroline Amies

Figurino

Jany Temime

Direção de Arte

Paul Ghirardani

O Segredo de Beethoven
Copying Beethoven

Dirigido por Agnieszka Holland. Com: Ed Harris, Diane Kruger, Ralph Riach, Angus Barnett, Phyllida Law, Matthew Goode, Joe Anderson, Nicholas Jones.

O momento mais interessante de O Segredo de Beethoven, novo trabalho da cineasta polonesa Agnieszka Holland, é aquele em que uma idosa vizinha do compositor manifesta prazer por poder aproveitar a paz proporcionada pela ausência momentânea deste. Ao ser questionada se não seria melhor mudar-se, já que Beethoven é um vizinho tão difícil, a senhora responde que jamais o faria, já que poder escutar as composições do mestre antes de todos é um privilégio do qual não poderia abrir mão. É uma cena simples, mas que resume belissimamente as reações conflituosas provocadas por indivíduos geniais e impossíveis como Beethoven, Kubrick, Brando, Hemingway e tantos outros.

Infelizmente, este é um exemplo raro de inspiração no fraco roteiro de Stephen J. Rivele e Christopher Wilkinson, que, também responsáveis pelos apenas corretos Ali e Nixon, parecem ser os primos menos talentosos da dupla de “cinebiógrafos” Scott Alexander e Larry Karaszewski (Ed Wood, O Mundo de Andy, O Povo Contra Larry Flynt). Criando uma personagem fictícia para dividir a cena com o compositor alemão Ludwig van Beethoven (tratado como “Louie” por um de seus amigos), os roteiristas utilizam a garota (batizada de Anna Holtz e vivida por Diane Kruger) não como ponte para que possamos investigar a personalidade do músico, mas como autêntica protagonista da história, cometendo o mesmo erro que apontei ao escrever sobre SpaceJam, há vários anos: assim como Pernalonga era estupidamente relegado a coadjuvante de Michael Jordan naquele filme, aqui Beethoven se torna quase um detalhe na trajetória emocional de sua inverídica parceira de cena, num desperdício flagrante de um grande personagem. Além disso, Wilkinson e Rivele conferem, ao início do século 19, uma atmosfera implausível de mundo moderno, levando o sobrinho de Beethoven a dizer que deve dinheiro a “pessoas perigosas” e incluindo uma cena em que o personagem-título acena para uma carruagem vazia que, tarde de noite, cruza as ruas de Viena como um táxi em busca de passageiros.

Estudante de música, Anna Holtz (Beethoven insiste em chamá-la por seu nome completo; talvez os roteiristas tenham julgado que esta excentricidade o tornaria mais interessante) é uma jovem tímida que vive em um convento e acredita ter encontrado sua grande oportunidade ao ser aceita como assistente do mestre – e o filme realmente passa a maior parte da projeção enfocando os dilemas da personagem, aparentemente ignorando que o espectador, ciente de que a moça nunca existiu, não terá muita curiosidade em saber se ela conseguirá ou não tornar-se bem-sucedida e famosa. Porém, em uma decisão ainda mais grave, o roteiro chega a responsabilizar Anna pela mudança de uma nota na Nona Sinfonia e, na seqüência em que a obra mais famosa de Beethoven é apresentada pela primeira vez, retrata a garota “soprando” o tempo da música para o compositor, resultando em um momento não apenas falso, implausível e mal conduzido como também ofensivo à memória do músico. Como se não bastasse, o filme ainda utiliza Anna para introduzir uma subtrama romântica dispensável que leva Beethoven a dizer: “O que uma garota jovem como você entende sobre o amor? Oh, Deus... você está apaixonada!”.

Sem revelar nada de novo ou interessante sobre uma das figuras mais fascinantes da música clássica, o longa tenta forçar o público a acreditar que um relacionamento tão intenso, sincero e íntimo poderia surgir entre pessoas tão diferentes em apenas poucos dias de convivência – e a maneira exagerada com que Beethoven é retratado pelo roteiro e pela caracterização pesada de Ed Harris serve apenas para tornar esta intimidade menos plausível. Trabalhando com Agnieszka Holland pela terceira vez (depois de Complô Contra a Liberdade e O Terceiro Milagre), o talentoso ator desta vez oferece uma performance irregular, carregando excessivamente sua composição em determinados momentos – o que, diga-se de passagem, é uma tendência que já exibiu em várias ocasiões. Curiosamente, um dos aspectos mais marcantes de Beethoven é retratado de forma absurdamente casual pelo longa: sua surdez. Na maior parte do tempo, o músico parece ter uma dificuldade apenas moderada em compreender o que lhe é dito e se mostra um exímio leitor de lábios - o que se torna ainda mais difícil de aceitar se considerarmos que Diane Kruger mal abre a boca ao falar.

Aliás, a caricatura não é algo estranho a O Segredo de Beethoven, marcando, também, as péssimas atuações de Ralph Riach (que cria um Schlemmer irritantemente choroso) e, principalmente, de Joe Anderson, que transforma Karl van Beethoven em um canalha frágil e unidimensional. E se Agnieszka Holland falha ao conduzir seu elenco, suas demais decisões não se mostram mais acertadas, resultado em movimentos de câmera gratuitos (como aquele em que olhamos por um buraco de fechadura, logo no início da projeção) e numa montagem repleta de transições capengas (como aquela que segue o travelling à margem de um rio com um movimento semelhante que enfoca Anna chegando ao trabalho). Além disso, a cineasta demonstra falta de imaginação ao repetir várias vezes os planos-detalhe que trazem a ponta de uma pena desenhando notas musicais em partituras e se compromete também ao criar marcações absurdamente artificiais, como no instante em que Anna e o namorado se ajoelham simultânea e falsamente ao se beijarem. Por outro lado, Holland acerta ao criar vibrações que parecem prestes a derrubar a câmera durante passagens mais intensas da Nona Sinfonia, na seqüência já mencionada anteriormente (ainda assim, a diretora tropeça ao mostrar o rosto de uma figurante prestes a dar início ao marcante coro da obra: com uma expressão hilária, a mulher quase leva o espectador às gargalhadas num momento que deveria ser de grande força dramática).

Copiando descaradamente vários elementos do maravilhoso Amadeus, este O Segredo de Beethoven não compreende que a comparação com o clássico de Milos Forman lhe será prejudicial: assim, quando ouvimos Beethoven fazer um discurso contra Deus (“Ele me negou o prazer que concede aos demais: ouvir meu trabalho.”), imediatamente nos lembramos das frustrações similares de Salieri (que, aliás, foi um dos professores do compositor). Da mesma forma, quando Beethoven faz um comentário pouco lisonjeiro acerca do trabalho de Anna, somos levados a recordar da cena em que Mozart engrandece, de improviso, uma composição de Salieri diante do próprio Imperador (e adivinhem só? O Segredo de Beethoven também traz um monarca sem personalidade.). Finalmente, o pecado dos pecados: Holland exibe uma tremenda insensatez ao manter uma cena na qual Beethoven dita uma composição para Anna, estabelecendo uma dinâmica e um ritmo que se tornam patéticos quando comparados a uma das seqüências mais marcantes de Amadeus.

Empalidecendo também diante do belo Minha Amada Imortal, este novo longa não consegue sequer replicar a força do momento histórico em que Beethoven teve que ser virado em direção à platéia para perceber os aplausos entusiasmados do público – e percebam que Holland chega a copiar o plano concebido por Bernard Rose para ilustrar a cena naquele filme. E se tudo isto já depõe contra O Segredo de Beethoven, o quadro só piora quando testemunhamos o instante em que o músico pede que Anna o “lave” – um ato simbólico forçado, sem profundidade (mesmo considerando o contexto religioso do longa) e que surge de maneira tão abrupta que é impossível levá-lo a sério. Assim, cabe mesmo à Nona Sinfonia proporcionar ao espectador o único grande exemplo de força emocional da produção – e, mesmo então, a intensidade da seqüência se deve à música do compositor e não às decisões narrativas do filme.

Quando escrevi sobre Amadeus, comentei que aquele longa estava à altura do homem que o havia inspirado. Lamentavelmente, aqui Beethoven não teve a mesma sorte.

Observação: De onde a distribuidora brasileira tirou o título O Segredo de Beethoven? Que segredo é este que jamais é abordado pelo filme? O mais famoso “segredo” do músico ainda diz respeito à identidade de sua “amada imortal” – algo que esta produção nem chega perto de discutir, tornando a tradução para o português não apenas incorreta, como também mentirosa.

21 de Dezembro de 2006

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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