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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
26/05/2006 12/08/2005 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Direção

Werner Herzog

Roteiro

Werner Herzog

Produção

Erik Nelson

Fotografia

Peter Zeitlinger

Música

Richard Thompson

Montagem

Joe Bini

O Homem Urso
Grizzly Man

Dirigido por Werner Herzog.

 

O Homem-Urso é uma das maiores obras-primas da carreira de um cineasta que vem conquistando, ao longo dos últimos 44 anos, um lugar mais do que merecido entre os ícones da Sétima Arte – e o que algumas vezes lhe falta de estilo é mais do que compensado pelas complexas discussões que seus filmes (de ficção ou documentários) inspiram. Dono de uma personalidade fascinante, o alemão Herzog certa vez se atirou em um cacto e, em outra ocasião, comeu o próprio sapato (algo registrado em um curta-metragem de 1980) como pagamento de apostas feitas com o elenco de um de seus projetos e com o documentarista Errol Morris, respectivamente. E se isto comprova algo (além de sua excentricidade), é o fato de que ele leva muitíssimo a sério sua palavra e suas ações.

           

Todo bom filme é também um documentário sobre sua época”, disse o diretor francês Eric Rohmer – e algo parecido se aplica a realizadores tão particulares quanto Herzog: através de suas obras, conhecemos também o Homem por trás dos filmes, mesmo que este não tenha a intenção de se deixar conhecer. Assim, ao escrever sobre O Homem-Urso, o envolvente retrato de um indivíduo confuso, não posso deixar de reservar um espaço para seu diretor, cujas filosofias de vida e trabalho são aspectos sempre presentes ao longo da projeção.

           

O Homem: Herzog

 

Em outubro de 2003, o ativista norte-americano Timothy Treadwell, que durante 13 anos manteve o hábito de acampar durante o verão em uma reserva florestal do Alaska habitada por ursos pardos a fim de “protegê-los”, foi morto e devorado (ao lado da namorada) por um dos animais aos quais devotava sua vida. Como legado, deixou mais de 100 horas de imagens gravadas ao longo de suas cinco últimas temporadas ao lado dos ursos – e é a partir deste material, complementado por entrevistas com pessoas que conheceram e conviveram com o ecologista, que Werner Herzog tenta desvendar as reais motivações que levaram o sujeito a adotar um estilo de vida tão perigoso.

           

Racional ao extremo, o cineasta certamente não se contenta com a resposta óbvia (“amor aos ursos”) e, ao longo do filme, acaba deixando evidente que seu interesse por Treadwell não se deve ao trabalho ecológico deste – aliás, Herzog procura até mesmo demonstrar (com sucesso, diga-se de passagem) que as viagens de seu “personagem” ao Alaska não faziam a menor diferença no que dizia respeito à proteção dos animais. E mais: o amor incontido de Treadwell pela Natureza soa, para o diretor, como sinal de uma inocência preocupante, incompatível em um adulto que se julga “funcional”. Ao analisar o choque que o rapaz experimenta ao encontrar uma raposa morta, por exemplo, Herzog manifesta sua visão irremediavelmente pessimista do mundo: “Ele parece ignorar que na Natureza há predadores. Eu acredito que o denominador comum do Universo não é a Harmonia, mas sim o Caos, a Hostilidade e o Assassinato”. Em parte, é isso que torna O Homem-Urso tão brilhante: as filosofias absurdamente contrastantes do documentarista e seu objeto de estudo.

           

Interlocutor sempre atencioso, Herzog divide com realizadores como Eduardo Coutinho e João Moreira Salles o talento para deixar seus entrevistados completamente à vontade – a ponto de levá-los a fazer declarações que denotam elementos comprometedores de suas personalidades (como o piloto de helicóptero que afirma que Treadwell “teve o que merecia” e o médico-legista que, apaixonado pela câmera, parece não perceber como seu sadismo assustador jorra sobre o espectador). Porém, se o cineasta não poupa aqueles que expõem suas vilezas, sua postura diante da vulnerabilidade de certos entrevistados é tocante, como denota o carinho que demonstra ao lidar com Jewel Palovak, ex-namorada e uma das melhores amigas de Timothy Treadwell. Além disso, Herzog, diferentemente do que faz a maior parte dos relatos sobre a morte do ativista, faz questão de se aprofundar também na morte de sua companheira Amie Huguenard, mesmo com todas as dificuldades impostas pela situação (ela aparece apenas três vezes nas fitas de Treadwell e seus pais se recusaram a gravar depoimentos para o filme): desta maneira, o documentarista investiga os diários do ecologista e revela que Huguenard, ao contrário do namorado, tinha medo dos ursos, e que dizer que o casal morreu “fazendo o que gostava” (como alguém afirma, em certo momento) é uma grande mentira – ao menos, no que diz respeito à moça.

           

Outro objeto de fascínio para Herzog, como não poderia deixar de ser, é o próprio material deixado por Treadwell ao longo de cinco anos de gravações – e se não tenta justificar as ações ecológicas do sujeito, o diretor assume outra postura no que diz respeito ao trabalho de Timothy como “cineasta”: em vários momentos, O Homem-Urso se detém no método de trabalho de seu personagem-título, como seu hábito de repetir tomadas e as surpresas que naturalmente surgem durante longos planos sem cortes. E, mesmo exibindo uma curiosidade atípica (para alguém tão racional) sobre a aparente hesitação de Treadwell em abandonar o quadro ao filmar o último plano de sua vida, Herzog demonstra um respeito admirável ao não incluir, no longa, o áudio gravado durante o ataque do urso que matou o casal (acompanhamos apenas a reação do próprio cineasta ao escutar a fita; é como se ele se recusasse a invadir aquele que talvez seja o instante mais íntimo na vida de um indivíduo: sua morte.

           

Ao final de O Homem-Urso, Werner Herzog não apenas cria um tributo comovente a um homem que, na tentativa de se encontrar, acabou se destruindo, como também esclarece aquele que considera o grande equívoco cometido por Timothy: “O que me assombra é que, em todas as caras de todos os ursos filmados por Treadwell, eu não descobri nenhuma simpatia, compreensão ou piedade. Vi apenas a impressionante indiferença da Natureza. Para mim, não existe um ‘mundo secreto dos ursos’, e este olhar vazio revela apenas um interesse entediado por comida”. Já Treadwell leu, na expressão daqueles animais, algo que procurava desesperadamente – e, para Herzog, este erro inspira um sentimento diferente: piedade.

 

O Urso: Treadwell

 

            Bom, ele amaldiçoou todas as estradas e a velha mula

            E ele amaldiçoou o Automóvel

            Disse: ‘Este não é o lugar para um hombre como eu

            Neste mundo novo de asfalto e aço

            Então ele olhou para algum lugar distante

            Para algo que apenas ele podia enxergar

            Ele disse: ‘Tudo o que resta agora dos velhos tempos

            São os malditos coiotes e eu’.

 

É com esta música, na voz triste de Don Edwards, que Werner Herzog conclui O Homem-Urso, um estudo de um personagem real, Timothy Treadwell, que morreu ao lado da namorada sob as presas de um urso pardo – justamente um dos animais aos quais dedicava sua vida, filmando-os durante o verão e realizando palestras no restante do ano (ele não cobrava um centavo para visitar escolas em todos os Estados Unidos, tamanha era sua paixão pelo tema e por crianças). Intitulando-se “O Guerreiro Gentil”, Treadwell insistia que suas viagens anuais ao Alaska eram fundamentais para a proteção dos ursos que moravam em uma grande reserva florestal do Estado – e, para cumprir seus objetivos, não hesitava em entrar em conflito com as autoridades responsáveis pelo parque.

           

A esta altura, você provavelmente já está questionando a lógica da última frase: por que os animais de uma reserva, de um parque, precisariam de proteção? A resposta é simples: não precisavam. Esta é a primeira incongruência na história de Timothy Treadwell que leva Werner Herzog a se interessar pelo ecologista, cujo trabalho chegava a ser considerado, pelos nativos Alutiiq, como desrespeitoso e prejudicial aos ursos, que formavam uma população estável e, portanto, não corriam risco algum de extinção – e a alegação de que a caça ilegal ameaçava os animais é facilmente desmentida por um biólogo da região. Assim, por que Treadwell se forçava a acreditar que sua permanência no local era tão importante? É esta, a pergunta que move O Homem-Urso.

           

Ex-alcoólatra, ator frustrado e sobrevivente de uma overdose, Timothy decidiu, após sua experiência quase fatal com drogas, que era hora de procurar uma persona diferente para si mesmo – e apenas o fato de ter que “procurar” por uma identidade revela um desajuste patente e uma insegurança colossal sobre o próprio lugar no mundo. “Eu não tinha vida”, ele diz a uma raposa, em uma de suas fitas. Infelizmente, a vida que ele encontrou baseava-se, ao menos parcialmente, em mentiras – incluindo um sotaque falso. Desta forma, não é difícil concluir que sua luta pelos ursos envolvia, também, sua própria necessidade de se sentir como parte de algo maior.

           

Passando meses sozinho em meio aos animais, Treadwell gradualmente começou a encarar suas duas câmeras como verdadeiros confessionários, expondo para as lentes seus sentimentos de inadequação, suas frustrações, suas dúvidas sobre Deus, mas também seus sonhos e ambições – e, julgando que suas confissões posteriormente passariam por seu próprio crivo, deixou aberta, no processo, uma janela para que pudéssemos ter a rara experiência de testemunharmos um ser humano rasgando-se completamente diante de nossos olhos, mesmo quando não demonstra estar ciente dos significados escondidos por trás de algumas afirmações. Ao falar sobre suas aventuras amorosas fracassadas, por exemplo, o rapaz cogita que sua vida talvez tivesse sido mais fácil caso ele fosse homossexual – algo que, somado à sua insistência exagerada em afirmar que “ama garotas” e ao seu histórico de negação de identidade, nos leva a questionar sobre uma provável confusão com relação à sua própria sexualidade.

           

Vítima diagnosticada de depressão maníaca, Timothy se negava a tomar os medicamentos necessários por acreditar que seus “altos e baixos” eram parte importante de sua personalidade – e sua insistência em discutir a possibilidade de morrer em um ataque de urso indicava não sua preocupação, mas sim um certo fascínio pela situação, como se precisasse disso para sentir-se vivo. Da mesma maneira, suas ocasionais explosões de cólera diante da câmera soavam mais como necessidade teatral de afirmar-se do que como desabafo real, o que fica claro em sua calma prontamente restabelecida assim que as tomadas chegam ao fim.

           

Igualmente revelador – e comovente – é seu hábito de declarar amor a praticamente tudo que vê em suas passagens pela reserva, de abelhas mortas a raposas e ursos. É como se, em sua necessidade de amar e ser amado, Timothy encontrasse, entre os animais, a liberdade e a confiança necessárias para entregar-se aos próprios sentimentos. Aliás, resume-se, aí, sua história: fugindo de uma Sociedade repleta de intolerância, preconceitos e desonestidade, Treadwell pensa descobrir, na Natureza, o mundo ideal que sempre buscou – e sua paranóia diante de mensagens claramente jocosas de alguns “intrusos” denota o medo que sente de tudo que remete à Humanidade de modo geral. Portanto, quando Herzog compara a geografia tortuosa de determinada região à alma confusa de seu protagonista, a metáfora surge incontestável e dolorosa: para o ecologista, viver entre ursos é algo mais seguro e reconfortante do que ter que se submeter ao julgamento constante de seus pares (e ao chocar-se com o canibalismo dos ursos, distancia-se ainda mais da pose de especialista nos animais e revela sua tristeza ao constatar que seu mundo perfeito não é tão inocente quanto desejava).

           

No final das contas, a vida de Timothy Treadwell resume-se a uma ironia e a uma tragédia. A ironia é que os mesmos ursos que o salvaram, tirando-o do “mundo de asfalto e aço” cantado por Don Edwards, também viriam a tomar sua vida. A tragédia é que, por mais que insistisse na importância de suas atividades na reserva, seu trabalho era vital apenas para uma pessoa: ele mesmo.
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05 de Junho de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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