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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/12/2005 16/09/2005 2 / 5 3 / 5
Distribuidora

Direção

Mark Waters

Elenco

Reese Witherspoon , Mark Ruffalo , Donal Logue , Jon Heder , Dina Spybey , Ben Shenkman , Rosalind Chao , Ron Canada

Roteiro

Peter Tolan , Leslie Dixon

Produção

Laurie MacDonald

Fotografia

Daryn Okada

Música

Rolfe Kent

Montagem

Bruce Green

Design de Produção

Cary White

Figurino

Sophie De Rakoff

Direção de Arte

Maria L. Baker

E Se Fosse Verdade
Just Like Heaven

Dirigido por Mark Waters. Com: Reese Whiterspoon, Mark Ruffalo, Donal Logue, Jon Heder, Dina Spybey, Ben Shenkman, Rosalind Chao, Ron Canada.

E Se Fosse Verdade é um filminho simpático protagonizado por dois atores carismáticos e talentosos. E, ainda assim, aqui estou eu utilizando a palavra `filminho`, obviamente pejorativa, para descrevê-lo e isto não é um bom sinal. Pois a verdade é que por mais engraçadinha e bobinha que uma produção seja, ela jamais deveria inspirar adjetivos apenas no diminutivo, já que isso revela algo nada admirável: falta de qualquer tipo de ambição por parte de seus realizadores. Ora, por mais tola que uma idéia possa parecer, ela deve ser levada a sério no mínimo por quem está disposto a desenvolvê-la: Debi & Lóide é um filme idiota? Sem a menor sombra de dúvida. Mas encara sua própria idiotice com zelo absoluto. Já o diretor Mark Waters e os roteiristas Peter Tolan e Leslie Dixon parecem desmotivados por terem consciência de que longas similares a este já foram feitos e refeitos inúmeras vezes, de uma forma de outra, e adotam uma atitude mecânica, como se estivessem no piloto automático.

O fato de não ser `novo` não implica, necessariamente, que um roteiro está fadado ao fracasso. O próprio Mark Waters provou isso ao dirigir o ótimo Meninas Malvadas, que investia no mais do que batido subgênero `comédia adolescente`. Aqui, no entanto, ele parece ter desistido de se esforçar antes mesmo de rodar o primeiro plano. O resultado é inevitável: por mais que Reese Whiterspoon e Mark Ruffalo se esforcem em criar personagens agradáveis e simpáticos, acabam sendo abandonados pelo filme que os cerca. Sim, compreendemos que a atriz vive uma jovem médica cuja dedicação exagerada à carreira vem comprometendo sua vida pessoal; sim, percebemos que Ruffalo está deprimido em função do fim de seu casamento (qualquer que seja o motivo deste fim; e, sim, entendemos que, depois de um acidente de carro, o espírito da dra. Elizabeth passa a ser visto pelo rapaz. Mas nada disso soa natural ou, no mínimo, interessante, mas apenas... uma historinha esquemática e desgastada. (E voltei aos diminutivos, como podem perceber.)

A princípio, por exemplo, é interessante perceber que David encara a presença de um espírito em seu apartamento de maneira pragmática, procurando encontrar uma solução para o inconveniente em vez de ficar se debatendo com a questão de que está vendo `fantasmas`; porém, quando mais tarde Elizabeth se interessa pelos problemas pessoais do rapaz de forma súbita, sem qualquer justificativa, compreendemos que, na realidade, a objetividade de David nada mais é do que um sinal claro da preguiça dos roteiristas em desenvolver melhor sua gradual aceitação da situação. Além disso, as constantes discussões entre os protagonistas jamais soam verossímeis, revelando-se logo como o velho clichê do `casal que briga o tempo todo apenas para disfarçar a atração que sentem um pelo outro`, utilizado em 9 de cada 10 comédias românticas.

Outro velho recurso do gênero empregado pelo cineasta é a utilização da trilha sonora para comentar/reforçar o que está ocorrendo na tela: cada música parece ter sido escolhida para explicar para o espectador (caso este tenha um QI digno de Rob Schneider) o que os personagens estão sentindo naquele momento. Enquanto isso, o roteiro, sentindo necessidade de colocar mais alguns obstáculos no caminho da heroína a fim de prolongar a duração do filme, acrescenta uma vizinha ninfomaníaca que, é claro, vai gerar algum mal-entendido que leve Elizabeth a questionar a sinceridade do amado – ao menos, por alguns segundos. Aliás, outro `obstáculo` inconseqüente atirado de forma leviana na história pelos roteiristas é aquele relacionado a uma certa decisão que a irmã de Elizabeth deve tomar (uma questão gravíssima que, por incrível que pareça, ela resolve em menos de 24 horas, embora não tivesse a menor obrigação de ser tão temerariamente rápida). E já que estou questionando o roteiro, por que, afinal de contas, Elizabeth sonha com aquele jardim? Qual é a explicação para aquilo?

É claro que, durante a projeção, E Se Fosse Verdade não resiste a investir em situações presentes em praticamente toda comédia envolvendo espíritos: David é visto com desconfiança por todos, já que aparentemente fala sozinho o tempo inteiro, e há o inevitável momento em que Elizabeth entra no corpo do rapaz e tenta assumir o controle de seus atos (algo que Mark Ruffalo retrata com talento, embora jamais tenha a chance de desenvolver a piada, já que o roteiro logo a descarta – o que é uma pena, já que a brincadeira ofereceu ótimas oportunidades para Steve Martin em Um Espírito Baixou em Mim e para Robert Downey Jr. em Morrendo e Aprendendo).

Previsível do início ao fim, E Se Fosse Verdade é um daqueles filmes que deixam o espectador seguro de que, dentro de 90 minutos, um beijo acompanhado por uma música romântica grandiosa tomará conta da tela. E isto não é necessariamente algo ruim; há um certo conforto em saber que tudo dará certo no final. Mas um pouquinho mais de ambição não machucaria ninguém.
``

22 de Dezembro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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