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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/01/2006 28/06/2006 4 / 5 3 / 5
Distribuidora

Soldado Anônimo
Jarhead

Dirigido por Sam Mendes. Com: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Jamie Foxx, Jacob Vargas, Laz Alonso, Lucas Black, Evan Jones, Brian Geraghty, Ivan Fenyo, Dennis Haysbert, Kareem Grimes, Scott MacDonald, Brianne Davis, Chris Cooper.

Em certo momento de Soldado Anônimo, seu protagonista, participante da primeira guerra do Golfo, observa a expressão consternada de um veterano do Vietnã e comenta: `Toda guerra é diferente. Toda guerra é igual`. E ele está certo: por mais que os aspectos políticos, geográficos e econômicos de cada campanha militar variem, as marcas deixadas nos combatentes de todos os lados são invariáveis - é `o horror... o horror` testemunhado pelo Coronel Kurtz.

Baseado no livro autobiográfico de Anthony Swofford, o filme acompanha sua experiência no exército norte-americano, de seu treinamento como atirador de elite aos longos meses que passou na Arábia Saudita à espera do início de uma guerra que, quando veio, durou apenas 4 dias para os soldados da infantaria, já que foi decidida por ataques aéreos e mísseis disparados de bases militares. Assim, em substituição aos confrontos lamacentos do Vietnã, Swofford (vivido por Jake Gyllenhaal) enfrenta o calor do deserto do Golfo enquanto lida com o tédio sem fim. Porém, a falta de `ação` não poupa os jovens soldados das seqüelas psicológicas – e a própria antecipação do início das batalhas é responsável por criar, naqueles rapazes, uma perigosa instabilidade emocional.

Depois de um início franca(e fraca)mente inspirado em Nascido para Matar, o filme ganha personalidade com a chegada do sargento Sykes (Foxx), que enxerga, em Swoff, um candidato em potencial a uma das oito vagas para atirador em seu pelotão – e uma de suas primeiras lições aos aspirantes a assassinos é, apropriadamente, um comentário violentamente irônico sobre a natureza deste crime: `Vocês foram ensinados ao longo de suas vidas: ‘Não matarás!’. Bem... que se foda, esta merda!`. É uma lição cínica e desumana, é claro, mas coerente com a lógica impiedosa do exército – afinal, não é desejável que seus matadores questionem a moralidade do assassinato, não é mesmo? Assim, quando são finalmente despachados para o Golfo, os rapazes já estão contaminados por uma mentalidade que iguala o machismo e a frieza aos conceitos de virilidade e heroísmo.

Condicionados a encarar o `inimigo` como o centro de um alvo (que, ao liberar sua `mancha rosa` – sangue -, provará o valor do soldado), eles confundem patriotismo com xenofobia – e, num dos momentos mais pavorosos do filme, aparecem vibrando, quase num êxtase coletivo, enquanto assistem ao ataque aéreo comandado pelo tenente-coronel Kilgore, em Apocalypse Now (minha referência a Kurtz, no início desta análise, tem outros motivos, portanto), o que demonstra não apenas incompreensão completa sobre o tema daquela obra-prima, como ressalta a sanha assassina gerada pelo treinamento pelo qual passaram. Assim, matar – como se verá adiante, no filme – torna-se não apenas uma obrigação, mas um prêmio, uma forma de compensá-los por tudo que enfrentaram. E não se trata, no caso, de provocar a morte através do impessoal apertar de um botão, como nas guerras modernas, mas de ver o rosto do inimigo através da mira telescópica e testemunhar o momento do impacto do projétil (`Então é assim que eles se parecem!`, comenta Swofford, quando finalmente vê o inimigo através da mira de seu rifle pela primeira vez.)

E qual o motivo de tanta morte e destruição, afinal de contas? Evitar a `propagação do comunismo`? Derrubar um ditador? Ou, como percebe sensatamente um dos companheiros do protagonista, proteger os campos de petróleo que tanto interessam aos Estados Unidos? Seja qual for a razão, é impossível negar que, a partir do momento em que a guerra tem início, isto deixa de importar: manter-se vivo é o fundamental e é um instinto que faz parte da natureza humana; portanto, a política deve ser deixada de lado (pelos soldados, talvez, mas jamais pela sociedade – e o filme Syriana, ainda inédito no Brasil, faz um brilhante questionamento sobre estas motivações políticas e econômicas que levam a tanto sangue).

Infelizmente, Soldado Anônimo parece preocupado apenas em analisar a instabilidade psicológica de seus personagens, esquecendo, no processo, de comentar como a situação que leva a esta instabilidade é gerada: com exceção de dois ou três brevíssimos comentários sobre a política por trás dos conflitos armados, o filme ignora a questão, como se aqueles rapazes vivessem num universo no qual Washington não existe. E, ao investir no humor como forma de estabelecer o absurdo das experiências de Swofford (e acreditem, o longa é surpreendentemente bem-humorado), o diretor Sam Mendes corre o risco de tornar a discussão excessivamente leve.

E aí reside meu problema principal com relação a Soldado Anônimo, que, de modo geral, é um filme interessante, bem realizado e divertido: a maneira descompromissada com que lida com o material. Não, não creio que fosse necessário criar um trabalho pesado para discutir o tema - isto já foi feito brilhantemente em Apocalypse Now, Nascido para Matar, Platoon, Nascido em Quatro de Julho, Tigerland, entre outros. Porém, o roteirista William Broyles (Náufrago, O Expresso Polar) parece dar crédito demais ao Exército: há um soldado, por exemplo, que insiste em questionar as ordens superiores, demonstrando clara desconfiança com relação às motivações de seus oficiais e do governo e, no entanto, nada acontece a ele: é repreendido oralmente (se muito), mas jamais submetido a qualquer tipo de retaliação, como se o exército norte-americano fosse uma instituição que valorizasse a liberdade de expressão acima de tudo (algo que o próprio filme descarta). Aliás, até mesmo as punições impostas a Swofford e seus companheiros são retratadas de maneira divertida, o que alivia o quadro para o espectador.

Para piorar, aquele que supostamente deveria ser o tema principal do filme é boicotado por um equívoco básico: como podemos compreender os danos psicológicos causados a Swofford, que passa por um processo claro de perda de identidade após sua passagem pelo exército, se em nenhum momento o roteiro se preocupa em nos mostrar como o rapaz era em sua vivência anterior? Se ele já não tinha identidade (ao menos para o espectador), como pode perdê-la?

Desta maneira, é possível que os espectadores mais jovens e influenciáveis cheguem a encarar Soldado Anônimo como um verdadeiro instrumento de recrutamento, já que, de modo geral, a experiência do protagonista parece ter sido bastante positiva, mesmo com todos os percalços e horrores enfrentados e testemunhados – principalmente se considerarmos o destaque conferido aos sentimentos de companheirismo e amizade ao longo da projeção.

Neste sentido, Soldado Anônimo, por melhor que seja como obra cinematográfica, revela-se perigosamente dúbio do ponto de vista ideológico. Se viesse com bula, este filme deveria trazer o aviso `Deve ser mantido fora do alcance de crianças e de pessoas imaturas`.
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06 de Janeiro de 2006

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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