Seja bem-vindx!
Acessar - Registrar

Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
19/02/2010 01/01/1970 1 / 5 / 5
Distribuidora

Um Olhar do Paraíso
The Lovely Bones

Dirigido por Peter Jackson. Com: Saoirse Ronan, Mark Wahlberg, Stanley Tucci, Rachel Weisz, Susan Sarandon, Rose McIver, Reece Ritchie, Nikki SooHoo, Michael Imperioli, Thomas McCarthy.

Até hoje, Peter Jackson tinha um currículo impecável como diretor: mesmo suas bobagens de início de carreira, como Náusea Total, Fome Animal e Meet the Feebles, divertiam pelo descompromisso e pela irreverência – e de 1994 em diante, ele se estabeleceu de vez como um cineasta a ser levado a sério, começando com Almas Gêmeas, passando pelo eficiente Os Espíritos e chegando, claro, à trilogia O Senhor dos Anéis e à refilmagem de King Kong. Assim, a última coisa que eu poderia esperar seria que, a esta altura de sua invejável carreira, Jackson desse um tropeço como este pavoroso Um Olhar do Paraíso, que certamente estará em minha lista de piores do ano.

Baseado no livro de Alice Sebold, o roteiro co-escrito pelo diretor e suas parceiras habituais, Fran Walsh (sua esposa) e Philippa Boyens, traz a história de Susie Salmon (Ronan), uma garota de 14 anos que, morta pelo vizinho (Tucci), passa a acompanhar a obsessão de seu pai (Wahlberg) em encontrar o assassino enquanto percorre o tal “paraíso” mencionado no título brasileiro e que parece ter sido gerado a partir das sobras do design de produção de Amor Além da Vida. Além disso, também temos o privilégio de observar a adolescente lidando com a frustração de jamais ter conseguido comparecer ao encontro marcado com sua paixão da escola, Ray (Ritchie), ao mesmo tempo em que sua família se desintegra sob o peso de sua morte.

Sem demonstrar ter qualquer domínio sobre o tom da narrativa, Jackson concebe, aqui, uma colcha de retalhos que combina de maneira atrapalhada e frustrante uma história de dor e angústia com outra que se concentra na fantasia e nos efeitos visuais, permitindo que uma prejudique a outra de forma irreparável. Como se não bastasse, o experiente cineasta ainda atira ao longo da projeção várias seqüências de alívio cômico protagonizadas pela avó vivida de maneira constrangedora por Susan Sarandon, investindo em montagenzinhas nas quais vemos a mulher apagando um pequeno incêndio com a água de um vaso de flores, tentando lavar roupas e brincando com a espuma ao lado dos netos – e é realmente assustador que Jackson não tenha percebido o erro óbvio em saltar de uma cena de humor para outra em que vemos Wahlberg obcecado em capturar o assassino da filha e, então, para outra em que ouvimos a narração melancólica da protagonista.

Mas a fragilidade do projeto não se limita a isso: embora conte com inchados 135 minutos de duração, o filme não consegue sequer justificar a presença de vários de seus personagens, desde a avó até a jovem médium que mora ao lado de uma vala imensa, passando pela melhor amiga de Susie no pós-vida. Por outro lado, Mark Wahlberg, competente como de hábito, faz um bom trabalho ao retratar a angústia do pai da garota e sua determinação em buscar o culpado, ao passo que Rachel Weisz assume a tarefa impossível de encarnar uma mulher que, em certo ponto, não resiste à pressão e abandona a família para... colher orquídeas! E se a já citada Sarandon surge patética como a avó de Susie, a jovem Saoirse Ronan, tão eficiente em Desejo & Reparação (e mesmo no bobinho Nunca É Tarde para Amar), acaba retratando bem a confusão da protagonista – talvez por estar realmente perdida em meio a um estúdio dominado pelo greenscreen que viria a ser substituído posteriormente pela avalanche de efeitos visuais. Finalmente, o injustamente indicado ao Oscar Stanley Tucci inicia a narrativa construindo bem um personagem frio e cruel, destacando-se especialmente ao ilustrar a respiração ofegante de um homem que antecipa o instante em que poderá dar vazão à sua psicopatia – mas o fato é que eventualmente o personagem se transforma numa caricatura ridícula, o que faz jus à sua patética cena final e à obviedade das sombras projetadas pela armação de seus óculos, que conferem a ele uma aparência demoníaca.

Mas talvez o erro mais grave de Um Olhar do Paraíso seja sua total incapacidade de conferir peso à tragédia que serve como centro da história: a morte de Susie. Evitando retratar o crime em si (em vez disso, Jackson copia a morte de Patrick Swayze em Ghost), o filme falha até mesmo ao apresentar as demais vítimas do criminoso – numa seqüência que serve de desculpa para que o cineasta cite/homenageie uma imagem infinitamente mais angustiante do clássico O Mensageiro do Diabo, quando vemos um corpo oscilando sob a água. Além disso, mesmo quando tenta criar momentos mais incômodos, o esforço do filme soa artificial, como na cena em que todos parecem olhar de maneira inexplicavelmente intensa para Mark Wahlberg quando este busca algumas fotos no shopping. E quantas vezes Jackson acha necessário repetir os planos em que Susie passeia de bicicleta diante da casa de seu futuro assassino até se certificar de que o espectador já compreendeu sua mensagem? (Resposta: 372.) Para concluir, só não condeno a obviedade do simbolismo contido no globo de neve que traz um pingüim preso num “mundo perfeito” porque, diante do restante da projeção, esta é uma das melhores sacadas do longa.

Pois o fato é que embora seja constantemente atacado por privilegiar os efeitos visuais em detrimento da história, esta é a primeira vez em que Peter Jackson realmente parece cometer este equívoco (afinal, como ele poderia criar O Senhor dos Anéis e King Kong sem a WETA Digital?): depois de um início mais pausado no qual recria com propriedade um subúrbio norte-americano na década de 70, o cineasta simplesmente interrompe a narrativa para acompanhar a jornada de Susie para o além-vida, empregando desde simples distorções de lente e enquadramentos inclinados até complexos efeitos criados em computador, gastando boa parte do primeiro ato apenas nestas seqüências. Porém, ainda que o pequeno planeta à la Pequeno Príncipe seja bonitinho e que as garrafas gigantes contendo modelos de barcos sejam impressionantes, Jackson deixa de lado o mais importante: explicar as regras que regem aquele mundo, já que, por mais que o filme tente sugerir que Susie consegue influenciar o que ocorre do lado de cá, praticamente todos os eventos mais importantes da trama teriam acontecido exatamente da mesma forma ainda que a garota estivesse presa no seu túmulo – a não ser claro, que nos concentremos no ridículo reencontro (novamente inspirado em Ghost) entre a menina e o namoradinho saído de High School Musical.

Incluindo a sugestão de que gravidez na adolescência faz parte de um “final feliz” e revelando uma auto-indulgência que beira o egocentrismo ao incluir referências a O Senhor dos Anéis e King Kong, Peter Jackson transforma Um Olhar do Paraíso numa bagunça que, ao tentar forçar três gêneros numa única narrativa, surge apenas como uma experiência entediante cujos personagens, supostamente humanos, jamais chegam a exibir um milésimo da complexidade e do apelo dos hobbits, elfos e gorilas gigantes presentes nos filmes anteriores de seu antes infalível diretor.

19 de Fevereiro de 2010

Comente esta crítica em nosso fórum e troque idéias com outros leitores! Clique aqui!

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

Para dar uma nota para este filme, você precisa estar logado!