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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/05/2005 27/09/2004 5 / 5 / 5
Distribuidora

O Segredo de Vera Drake
Vera Drake

Dirigido por Mike Leigh. Imelda Staunton, Richard Graham, Adrian Scarborough, Alex Kelly, Daniel Mays, Eddie Marsan, Heather Craney, Ruth Sheen, Lesley Sharp, Peter Wight, Helen Coker, Jim Broadbent.

Vera Drake é uma senhora gentil, doce e caridosa que parece dividir todo o seu tempo entre atividades voltadas sempre para o próximo, nunca para si mesma: quando não está limpando com dedicação as casas de suas ricas patroas, Vera anda de um lado para outro em seu bairro pobre na Londres do início dos anos 50, fazendo visitas à mãe doente, aos vizinhos ainda mais miseráveis e preparando o jantar para o marido e seus dois filhos, já adultos. Sua família, aliás, é um exemplo de harmonia e união – e, ainda que levem uma vida humilde, os Drake estão sempre sorrindo, demonstrando que, para eles, os bens materiais nada significam frente à felicidade que sentem.

Assim, é com uma certa surpresa que descobrimos que, entre um chá e outro, Vera é especialista em realizar abortos caseiros, sendo bastante requisitada por mulheres simples que, por um motivo ou outro, não querem levar a gravidez adiante. Sem enxergar o que faz como `aborto`, mas sim como uma mera questão de `ajudar garotas em necessidade`, a personagem-título exibe enorme segurança ao colocar seus métodos em prática, como se fosse uma vovó cuidando de um machucadinho bobo das netas. No entanto, não é desta forma que a Lei enxerga as atividades de Vera Drake – e, quando finalmente é confrontada por um policial, a (até então) sorridente senhora percebe que as conseqüências para sua família serão devastadoras.

Evitando entrar em discussões sobre as implicações morais/religiosas do aborto (exemplo que seguirei nesta análise), o veterano cineasta Mike Leigh adota um caminho mais inteligente e, provavelmente, mais relevante: aponta (sem pregações) a enorme hipocrisia das leis que regulamentam a questão. Pois o fato é que, na maioria dos países que proíbem o aborto (incluindo o Brasil), as leis aplicam-se, na prática, apenas às mulheres carentes; da classe média para cima, qualquer uma pode interromper uma gravidez indesejada, bastando estar disposta a desembolsar a quantia requisitada por médicos e clínicas particulares. O efeito é trágico: sem contar com apoio do Estado, as gestantes sem recursos financeiros entregam-se aos carniceiros de plantão, que executam a tarefa por trocados. Ou seja: em vez de solucionar uma questão cuja discussão é tumultuada por moralistas baratos saídos das igrejas e da extrema-direita, a legislação limita-se a entregar as mulheres carentes à própria sorte, fechando os olhos para as conseqüências de uma política vergonhosamente capenga.

Como eu disse, porém, Mike Leigh aponta o problema, mas só: o principal foco de seu filme é mesmo a família de Vera Drake e o impacto provocado pela revelação de suas atividades clandestinas. Empregando todos os seus esforços para conferir dimensão emocional e psicológica a todos os parentes da protagonista, o diretor leva o espectador a se sentir parte da família; passamos a conhecer a dinâmica do relacionamento entre George (marido de Vera) e seu irmão Frank e até mesmo os problemas que este último enfrenta com a própria esposa, uma mulher fútil e interesseira. Além disso, ao permitir até mesmo que `visitemos` todos em seus trabalhos, a história estreita ainda mais nossa ligação com aquelas pessoas. O resultado é que um dos momentos mais dramáticos do filme não diz respeito a uma cena de tribunal ou algo do gênero, mas sim ao triste (e simples) instante em que Vera é obrigada a explicar para o marido por que a polícia decidiu interrogá-la.

Adotando o mesmo método de alguns de seus longas mais recentes, Mike Leigh trabalhou com seus atores durante semanas em cada uma das cenas, construindo a história através de improvisações (quando o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, Leigh foi obrigado a escrevê-lo apenas para formalizar os procedimentos, já que o roteiro simplesmente não existia). Com isso, o cineasta consegue extrair performances absolutamente brilhantes de todo o elenco, cuja concentração pode ser observada ao longo de toda a projeção: quando Vera é procurada pela polícia, por exemplo, observe que, ao fundo, fora de foco, podemos divisar o rosto da esposa de Frank e perceber que, ao contrário dos demais, ela parece sorrir levemente, como se estivesse excitada pela possibilidade de um escândalo.

Da mesma forma, Richard Graham retrata o amor tranqüilo de seu personagem pela esposa, Vera, com uma simpatia singular, enquanto Eddie Marsan, como o retraído Reg, emociona ao explicar que jamais tivera um Natal tão bom quanto aquele que passara com os Drake – mesmo com todos os problemas. Aliás, o envolvimento entre Reg e Ethel (filha de Vera) resulta em algumas das melhores cenas do filme: já mais velhos e sem grandes perspectivas amorosas, os dois parecem se aproximar não em função de uma atração física ou de temperamentos, mas sim graças às suas carências individuais – e é emocionante ver o rosto simplório de Ethel (vivida com ternura por Kelly) enquanto esta avalia o pedido de casamento de Reg, parecendo considerar todas as possibilidades até perceber que aquela é sua única chance de felicidade – o que é o bastante para fazê-la sorrir.

Porém, é inegável constatar que o centro emocional de O Segredo de Vera Drake reside mesmo na atuação de Imelda Staunton, que, mesmo com apenas 48 anos de idade, transforma-se em uma senhora frágil e delicada, vivendo visceralmente cada uma das fases da personagem, desde a serenidade inicial até o pânico frente à Lei. Permitindo que percebamos apenas indícios de um passado trágico (que talvez a tenha levado a especializar-se em aborto), Staunton cria uma figura bondosa, mas irremediavelmente ignorante: sim, compreendemos que ela age com as melhores intenções, mas não há como negar que suas ações colocam a vida de suas jovens pacientes em perigo. Perfeita em todos os momentos, a atriz merece aplausos especialmente em função do plano em que vemos Vera, em close, enquanto esta se dá conta do significado da presença de um detetive em sua casa (detetive, diga-se de passagem, interpretado com simpatia imensa por Peter Wight: fica óbvio que ele percebe as intenções nobres de Drake e que detesta ser obrigado a desempenhar suas funções naquele caso específico).

Moralmente complexo, O Segredo de Vera Drake está longe de representar uma experiência `satisfatória` para o espectador, que sairá emocionalmente esgotado do cinema. Isto é ruim? De forma alguma; aliás, é uma característica que o engrandece ainda mais.
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12 de Maio de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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