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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
04/04/2008 01/01/1970 2 / 5 3 / 5
Distribuidora

Loucas por Amor, Viciadas em Dinheiro
Mad Money

Dirigido por Callie Khouri. Com: Diane Keaton, Queen Latifah, Katie Holmes, Christopher McDonald, Adam Rothenberg, Roger Cross, Stephen Root, Ted Danson.

 

Vejam só a que ponto chegou Hollywood: como se já não bastassem as inúmeras refilmagens de clássicos e as adaptações de séries antigas (e novas, como prova Sex and the City), os estúdios norte-americanos agora não hesitam nem mesmo em converter filmes feitos para a televisão em produções estreladas por intérpretes de renome – e é justamente esta, a origem de Loucas por Amor, Viciadas em Dinheiro, que nasceu como um projeto exibido na tevê britânica em 2001. Oh, Deus.

 

Escrito por Glenn Gers, o longa conta a história de Bridget Cardigan (Keaton), uma dona-de-casa que, acostumada a uma vida luxuosa proporcionada pelo emprego do marido em uma grande corporação, certo dia descobre, em choque, que perderão a casa em que vivem em função dos débitos contraídos desde que o sujeito foi demitido. Arrumando emprego como faxineira da Reserva Federal (o Banco Central dos Estados Unidos), ela observa o processo diário de destruição das cédulas que saem de circulação e bola um plano para desviar parte desta quantia. Para isso, ela conta com a ajuda de duas outras funcionárias da instituição: Nina (Latifah), mãe solteira que cuida dos dois filhos com dificuldade, e Jackie (Holmes), jovem amalucada que mora em um trailer com o marido.

 

Considerando-se a natureza pouco ambiciosa do projeto, não é surpresa constatar que os problemas já surgem nos primeiros minutos de projeção, que revelam uma estrutura narrativa equivocada que, sem motivo algum, tem início no fim da história, quando a polícia está se preparando para prender todos os envolvidos no roubo. A partir daí, voltamos três anos no tempo com o auxílio de outro recurso que deveria ser usado apenas quando estritamente necessário: o protagonista que, quebrando a quarta parede, parece se dirigir diretamente ao espectador (posteriormente descobrimos que isto foi um truque bobo e que Bridget não está necessariamente falando com o público, mas aí o estrago já foi feito). Infelizmente, como se adotar o flashback já não fosse algo suficientemente equivocado, destruindo antecipadamente o suspense, a diretora Callie Khouri ainda conduz mal seus atores, permitindo que estes surjam sorrindo relaxadamente enquanto prestam depoimento diante das autoridades – num esforço claro de indicar para o espectador que tudo está bem, que tudo é muito engraçado, mas que torna a narrativa ainda mais artificial. Finalmente, o terceiro ato do longa revela-se manipulativo e falso, parecendo ter sido encaixado às pressas depois de uma má recepção durante as exibições-teste.

 

Mais conhecida pelo roteiro de Thelma & Louise, Khouri parece ter deixado no passado qualquer interesse em criar personagens tridimensionais ou minimamente interessantes: sem conseguir sequer estabelecer claramente a passagem do tempo durante a história (quando nos damos conta, vários meses já transcorreram sem que tivéssemos notado), a cineasta transforma a veterana Diane Keaton em uma careteira sem graça que em nada lembra a atriz talentosa e adorável que transformou Annie Hall em um ícone da cinematografia de Woody Allen. Compondo Bridget como uma criatura gananciosa e inconseqüente, Keaton não consegue tornar a personagem simpática aos olhos do público, o que compromete ainda mais nosso envolvimento com a trama. Queen Latifah, por sua vez, cria um tipo bem mais discreto do que de costume, o que é uma boa surpresa, ao passo que Katie Holmes se contenta em surgir como uma caricatura, transformando Jackie em uma criatura aborrecida que, quando não está dançando como uma idiota, se limita a arregalar os olhos para todos que a cercam, como se isto fosse muito engraçado. Fechando o elenco, Stephen Root surge engraçadinho (mesmo repetindo o mesmo tipo que vem encarnando desde a saudosa série NewsRadio), enquanto Ted Danson é responsável por alguns bons momentos como o tenso marido de Bridget.

 

Ganhando pontos por não tentar ser mais complicado do que o necessário, o roteiro retrata o plano das três mulheres de maneira relativamente simples, o que ao menos torna o roubo um pouco mais verossímil (isto é, desde que aceitemos que o banco não mantém controle sobre os números de série das cédulas que irá destruir). Em contrapartida, o filme tenta enganar o espectador ao não explicar como Bridget pode ter descoberto os detalhes do esquema de segurança que envolve a destruição do dinheiro: nós sabemos como tudo funciona porque o personagem de Root funciona como guia para o público (mais uma vez quebrando a quarta parede), mas não há indícios de que ele revele tudo aquilo para a faxineira vivida por Keaton (e por que ele explicaria tudo aquilo para a faxineira?). Para piorar, o roteiro também tenta trapacear ao esquecer convenientemente que os personagens revelam todo o plano – e em detalhes – para as autoridades durante a projeção, expondo ainda mais a artificialidade do terceiro ato.

 

Mas se nenhum destes argumentos serviu para convencê-lo(a) de que Loucas por Amor, Viciadas em Dinheiro (titulozinho estúpido, esse) não é um passatempo dos melhores, basta observar que o elenco do projeto conta com Christopher McDonald – também presente no outro grande lançamento da semana, Awake – A Vida por um Fio. E como comentei em meu blog recentemente, a simples presença de McDonald (ou do ator Kurt Fuller) em um filme já indica que este tem grandes chances de ficar abaixo da média. E, infelizmente, Loucas por Amor... não é a exceção prevista em toda regra.

 

04 de Abril de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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