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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/09/2005 19/08/2005 2 / 5 / 5
Distribuidora

Vôo Noturno
Red Eye

Dirigido por Wes Craven. Com: Rachel McAdams, Cillian Murphy, Brian Cox, Jayma Mays, Angela Paton, Suzie Plakson, Jack Scalia, Brittany Oaks, Monica McSwain, Colby Donaldson, Beth Toussaint.

Com sua trama bobinha e os efeitos visuais apenas razoáveis (a explosão vista em certo ponto é fraquíssima), Vôo Noturno poderia ser um bom filme produzido para a tevê. Como esforço para Cinema, no entanto, é apenas mediano. Aliás, quando a mocinha diz a terrível piadinha final, confesso que esperei ver a tela congelar-se enquanto os créditos surgiam, sobrepondo-se a imagens de alguns dos `melhores momentos` da produção.

Escrito pelo estreante Carl Ellsworth, o roteiro gira em torno de Lisa Reisert (McAdams), uma concièrge que, durante uma viagem de avião, conhece Jackson Rippner (Murphy), um rapaz simpático com quem passa a flertar. Porém, a paquera descompromissada logo cede lugar ao pânico quando o sujeito revela ser um `demolidor de governos profissional` que tem um objetivo muito claro: obrigar a moça a fazer uma ligação para o hotel em que trabalha a fim de providenciar a mudança do quarto de um importante político prestes a se hospedar ali, facilitando, com isso, a execução de um atentado. Caso Lisa se recuse a obedecer, seu pai será morto pelos comparsas de Jackson.

A idéia, reconheço, é bastante promissora: ao limitar o espaço físico no qual a história se passa, o roteiro é obrigado a se concentrar no duelo psicológico entre os dois personagens – o que, durante algum tempo, é o que parece acontecer. Infelizmente, no entanto, a imaginação de Ellsworth logo se esgota – e, depois de um ou outro embate mais interessante entre Lisa e Jackson, o avião aterrissa, permitindo que o filme volte ao lugar-comum e se dedique a uma perseguiçãozinha corriqueira como tantas outras do gênero. Aliás, a parte de Vôo Noturno que se passa dentro do avião é decepcionantemente curta, resumindo-se a menos de um terço dos breves 85 minutos de duração do longa. Ora, o recente Por um Fio também era relativamente curto, mas, ao menos, era ambicioso o bastante para conseguir manter a ação em torno da cabine telefônica do título original, enquanto, em Red Eye (o tal vôo noturno), passamos boa parte do tempo no aeroporto, nas ruas de Miami e no hotel – sendo que, por incrível que pareça, as seqüências mais tensas são justamente aquelas que se limitam a acompanhar Lisa e Jackson em suas poltronas no avião.

O fato é que Ellsworth revela-se um autor medíocre, evidenciando, por exemplo, depositar grande fé nos ensinamentos de Syd Field, cuja popularidade entre os aspirantes a roteirista é responsável pela pasteurização de boa parte das produções hollywoodianas. Observem, por exemplo, como ele apresenta de maneira óbvia todos os personagens secundários que deverão desempenhar algum papel de relevância ao longo da projeção: a garotinha atrevida, a velhinha simpática, o médico mal-educado e, é claro, o jovem com fones-de-ouvido (que serve apenas para `perder` uma caneta, acreditem ou não). Para piorar, o `plano` dos terroristas é de uma idiotice assustadora, não servindo sequer para explicar por que seria tão importante mudar o tal político de quarto (com a arma de que dispõem, não seria mais fácil atingir seu carro? Ou mesmo seu avião? Afinal, eles sabiam exatamente quando o sujeito chegaria a Miami...).

Da mesma forma, outra das obviedades do roteiro diz respeito ao `trauma` que todo herói ou heroína de Hollywood deve ter, sendo devidamente enfrentado no momento mais apropriado da história (e que, aqui, simplesmente não tem nada a ver com nada). Ainda assim, é inegável reconhecer que Rachel McAdams faz um bom trabalho como Lisa, convencendo o espectador do desespero que sua personagem está sentindo. Em um universo esquemático e repleto de clichês, a atriz consegue a proeza de parecer real. Enquanto isso, Cillian Murphy, que este ano já fizera um belo trabalho em Batman Begins, volta a exibir uma característica que divide com atores como Ralph Fiennes e Sean Bean: apesar de bonito, seu rosto exibe um ar de ameaça e instabilidade que nunca nos deixa completamente à vontade.

Completando o elenco, Brian Cox ganha o cachê mais fácil de sua carreira ao se limitar a ficar sentado em uma poltrona durante a maior parte do filme, servindo como alvo em potencial para os assassinos. E se Jayma Mays irrita com suas tentativas forçadas de fazer graça como a apavorada Cynthia, o prêmio de pior atuação vai para Monica McSwain, uma atriz secundária que, numa tentativa de aparecer mais do que deveria, simula medo ao conversar com Jackson durante uma tempestade que envolve o avião, em certo instante (e demonstrar tensão diante dos passageiros é algo que uma aeromoça minimamente experiente jamais faria – especialmente em função de uma turbulência perfeitamente natural num temporal daqueles). Infelizmente, Wes Craven falhou como diretor ao não corrigir os impulsos equivocados da intérprete.

Craven, diga-se de passagem, não se encontra em uma boa fase: depois do péssimo Amaldiçoados, ele tropeça pela segunda vez no mesmo ano ao fazer um trabalho puramente burocrático neste Vôo Noturno. É claro que, durante a seqüência no avião, ele pouco tem a fazer a não ser concentrar-se em closes nos rostos de seus atores, deixando que os bons montadores Stuart Levy e Patrick Lussier façam o resto; porém, quando a ação deixa a aeronave, Craven retoma os clichês do gênero terror, obrigando a mocinha a correr escada acima enquanto um vilão armado com uma faca (hein? Voltamos a Pânico?) a persegue. Por incrível que pareça, o cineasta dá um jeito até mesmo de reutilizar a velha cena em que a heroína abre a cortina do chuveiro ao julgar que o assassino se esconde ali. Terrível.

Sem conseguir gerar tensão – afinal, o `terrorista profissional` vivido por Cillian Murphy é incompetente ao extremo, se igualando aos dois ladrões da série Esqueceram de Mim -, Vôo Noturno é uma experiência insatisfatória e perfeitamente descartável. Caso você queira assistir a um filme no qual um inocente é obrigado a colaborar com um crime sob a ameaça de ter um parente morto, recomendo o bacana Tempo Esgotado, dirigido por John Badham e estrelado por Johnny Depp e Christopher Walken. Não é uma obra-prima, mas é bastante eficaz – principalmente se comparado a este fraco Vôo Noturno.
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08 de Setembro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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