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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
02/12/2005 09/09/2005 3 / 5 / 5
Distribuidora

O Exorcismo de Emily Rose
The Exorcism of Emily Rose

Dirigido por Scott Derrickson. Com: Laura Linney, Tom Wilkinson, Jennifer Carpenter, Campbell Scott, Colm Feore, Joshua Close, Kenneth Welsh, Mary Beth Hurt, Henry Czerny, Shohreh Aghdashloo, Duncan Fraser.

Em julho de 1976, a alemã Anneliese Michel, de apenas 23 anos de idade, morreu depois de passar várias semanas sendo submetida a uma série de exorcismos comandados por dois padres de sua paróquia e aprovados por seus pais. Esgotada física, emocional e psicologicamente, a garota faleceu em função de inanição – e os quatro adultos responsáveis foram levados a julgamento por permitirem que a tragédia acontecesse. É justamente neste incidente que se baseia O Exorcismo de Emily Rose, escrito por Paul Harris Boardman e Scott Derrickson (que também assumiu a direção).

Na realidade, o filme adota duas linhas narrativas: uma, abordada através de flashbacks, lida com a `possessão` da personagem-título e as tentativas feitas pelo padre Moore (Wilkinson) de livrá-la do(s) demônio(s; já a outra, ambientada no presente, traz o julgamento do pároco, que é defendido pela competente advogada Erin Bruner (Linney). Das duas abordagens, a única que funciona é a segunda, já que as cenas envolvendo Emily Rose (Carpenter) jamais conseguem provocar medo ou tensão no espectador. Há alguns sustos espalhados aqui e ali – normalmente associados às visões da moça -, mas a própria estrutura escolhida pelos roteiristas mata o suspense, já que revela, desde o princípio, como tudo irá acabar. E ainda que a seqüência do exorcismo seja correta, com sua câmera nervosa e cortes rápidos, está longe de representar algo de verdadeiramente impactante.

Por outro lado, O Exorcismo de Emily Rose é um drama de tribunal no mínimo interessante. Acompanhando as estratégias dos advogados de defesa e de acusação (a começar pela decisão da promotoria em escalar um sujeito religioso para comandar o caso), o filme estabelece um bom confronto entre as partes, que se revelam igualmente competentes – observem, por exemplo, quando Erin diz que havia distribuído uma nova lista de testemunhas e o assistente do promotor, no canto da tela, se movimenta para conferir a informação: imediatamente, seu superior (vivido pelo sempre ótimo Campbell Scott) faz um leve aceno para que deixe a lista de lado, já que isto certamente denotaria uma certa desatenção que poderia ser observada pelo júri. É um gesto tão discreto que pode passar desapercebido por muitos espectadores, mas que indica o bom trabalho de composição dos atores e revela a atenção do diretor para os detalhes.

(Aliás, justamente por ser tão zeloso em seus aspectos legais, o roteiro desaponta em determinado momento, quando o padre Moore decide ler uma carta escrita por Emily Rose e o promotor não protesta, deixando de observar que esta poderia ser falsa ou mesmo irrelevante para o caso. Seria fácil incluir um ou dois diálogos que tornassem a situação aceitável, mas o filme não o faz, num raro exemplo de descuido. Além disso, a sentença final – que não vou revelar, obviamente – é curiosamente ambígua, soando como uma tentativa forçada dos roteiristas em satisfazer ambos os lados da questão, o que é inverossímil e mesmo ofensivo.)

Mas talvez o erro mais grave de O Exorcismo de Emily Rose seja apoiar a tese de possessão, descartando as explicações médicas para os problemas vividos pela moça. Pontualmente, o filme até procura inserir cenas curtas que apresentam as possíveis causas médicas dos `fenômenos`, mas estes momentos são apresentados de forma tímida, quase como uma desculpa para que a narrativa possa voltar a mergulhar na aura de terror que realmente lhe interessa. Além disso, como a própria advogada interpretada por Linney passa a testemunhar ocorrências sobrenaturais, estas causas naturais logo são desconsideradas pelo público. Ora, caso tivessem mantido a ambigüidade, os roteiristas certamente teriam tornado a trama mais complexa, permitindo que cada espectador fizesse sua própria interpretação da situação – o que seria absolutamente normal; afinal de contas, depois de passar a vida inteira em uma família extremamente religiosa e repressora, Emily Rose finalmente abandonou o lar para viver em uma universidade – algo que poderia ter despertado, na garota, um sentimento de culpa potencialmente capaz de levá-la a manifestações psíquicas extremas. Espantosamente, no entanto, o filme jamais aborda esta questão óbvia, optando por investir em uma subtrama absolutamente dispensável envolvendo um conflito moral que acomete Erin Brunner (e que também é resolvido de maneira artificial e melodramática).

Ainda assim, O Exorcismo de Emily Rose merece créditos por seus aspectos técnicos, a começar pela fotografia de Tom Stern (colaborador habitual de Clint Eastwood desde Dívida de Sangue), que cria uma atmosfera melancólica já no plano que abre o filme, no qual vemos a casa da protagonista em um lugar desolado e mergulhado em cinza, numa paleta de cores que, aliás, dominará a projeção, sendo complementada pela direção de arte e pelos figurinos. Seguindo a mesma lógica, os cenários apresentam cores chapadas, sempre tristes, que parecem oprimir os personagens – e o vermelho que cobre o quarto de Emily Rose mais tarde irá compor uma bela rima visual com a cortina de luz que veste a fachada de um dos prédios de sua universidade, num dos momentos mais tensos do filme (logo que ela abandona a sala de aula, durante uma prova, e caminha em direção ao dormitório). O único momento em que a produção abandona esta coerência interna é, também, um dos mais fracos do longa e acontece quando Erin descreve como encontrou um relicário de ouro: mais iluminada e inundada de branco, a cena é tão despropositada que, confesso, achei que iria se revelar como sendo uma mentira contada pela advogada, o que justificaria, inclusive, a quebra do visual.

Já as atuações oferecidas pela maior parte do elenco principal de O Exorcismo de Emily Rose são bastante contidas, até mesmo frias, falhando em estabelecer uma conexão com o espectador – e ainda que a jovem Jennifer Carpenter consiga trazer certa intensidade para a personagem-título, esta jamais recebe atenção suficiente do roteiro, o que neutraliza seus esforços (do outro lado do espectro, a atriz Shohreh Aghdashloo, que havia se destacado no ótimo Casa de Areia e Névoa, aqui surge embaraçosamente ruim, soltando seu texto como se estivesse sendo obrigada a participar de um projeto do qual não gosta).

Boicotado por sua abordagem mística e pela mensagem forçada que tenta transmitir, O Exorcismo de Emily Rose é um filme perigosamente irregular que, na maior parte do tempo, mantém seu público à distância – e o resultado é que, ao longo de sua duração, pouco pensamos e nada sentimos, transformando a experiência em algo vazio e decepcionantemente superficial.
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01 de Dezembro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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