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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
04/06/2010 01/01/1970 3 / 5 3 / 5
Distribuidora

Príncipe da Persia: As Areias do Tempo
Prince of Persia: The Sands of Time

Dirigido por Mike Newell. Com: Jake Gyllenhaal, Gemma Arterton, Ben Kingsley, Alfred Molina, Steve Toussaint, Richard Coyle, Toby Kebbell, Ronald Pickup, Gísli Örn Garðarsson.

Um poderoso exército invade uma importante cidade do Oriente Médio alegando que esta esconde armamentos que poderiam comprometer sua segurança. Estas armas, porém, jamais são encontradas, já que não passavam de uma desculpa para que o exército invasor pudesse ocupar o território a fim de explorar aquilo que realmente despertava o interesse de seus líderes: algo precioso existente em seu subsolo. Acreditem ou não, os roteiristas Boaz Yakin, Doug Miro e Carlo Bernard, que jamais escreveram um script que prestasse em suas vidas, não hesitam em usar uma tragédia contemporânea (a invasão do Iraque) como fonte de inspiração para um projeto cujo maior mérito é o de ser suficientemente tolo para não ser levado a sério – e se o trio de picaretas fez isso por canalhice, estupidez ou simplesmente por contarem com uma consciência política terrivelmente ingênua (e que talvez os levasse a acreditar que estavam fazendo algo “relevante”), o fato é que Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo só começa a funcionar minimamente quando foge de seu óbvio subtexto e se concentra na imbecilidade de seus ridículos personagens.

Ambientado na (duh!) Pérsia (leia-se: Irã), o filme traz Jake Gyllenhaal como o príncipe Dastan, que, órfão e miserável, foi adotado pelo rei Sharaman (Pickup) ainda criança e que, já adulto, ajuda seus irmãos Tus (Coyle) e Garsiv (Kebbell) na invasão de uma cidade sagrada governada pela bela Tamina (Arterton). No entanto, depois de ser acusado de conspirar para matar o rei, Dastan é obrigado a fugir e, acompanhado por Tamina, descobre que a adaga que carrega é capaz de fazer com que o tempo retroceda brevemente, percebendo que o objeto foi a verdadeira motivação por trás da guerra. Determinado a provar sua inocência, ele busca a ajuda do tio Nizam (Kingsley) e, no caminho, acaba conhecendo um trapaceiro (Molina) que pode representar uma ameaça ou um bem-vindo auxílio.

Inspirado no jogo criado por Jordan Mechner, Príncipe da Pérsia não oculta suas origens: já a partir dos primeiros minutos de projeção, cada salto e acrobacia executados pelo herói (e claramente inspirados nas proezas vistas no game) são exibidos em uma câmera lenta que, de tão empregada, apareceu em minhas anotações feitas durante o filme nada menos do que sete vezes – e se o cineasta Mike Newell queria ressaltar os feitos físicos do personagem-título, conseguiu apenas torná-los desinteressantes e artificiais. Por outro lado, nos momentos em que se permite rodar os planos com os 24 quadros por segundo habituais, o diretor consegue imprimir a energia desejada às cenas – especialmente graças à boa coreografia inspirada no parkour.

Com uma direção de arte que concebe cidades imponentes e grandiosas (e obviamente criadas em sua totalidade no computador), a produção cria a problemática impressão de ter sido quase totalmente rodada em estúdio, já que mesmo as externas remetem à artificialidade do green screen e dos cenários digitais, o que é uma pena. Enquanto isso, os abundantes efeitos visuais buscam sempre chamar a atenção para si mesmos, como na seqüência em que Dastan “surfa” num imenso desabamento – e justamente por isso acabam enfraquecendo a narrativa ao atirarem o espectador para fora do filme. Aliás, até mesmo os figurinos, que merecem créditos pela escala e diversidade, passam a forte impressão de... bom, de figurinos, jamais soando naturais mesmo naquele universo fantasioso.

Concebido por Jerry Bruckheimer numa clara tentativa de se estabelecer como uma nova franquia ao estilo Piratas do Caribe, este Príncipe da Pérsia falha, porém, ao exibir um senso de humor forçado, já que todas as tentativas feitas pelo protagonista de soar engraçadinho resultam em desastre – o que, somado ao clichê do casal que “briga-mas-se-ama”, serve apenas para ilustrar a falha dinâmica entre praticamente todos os personagens (a exceção fica por conta de Alfred Molina e Steve Toussaint, que, como o sheik Amar e seu braço-direito Seso, criam uma dupla carismática e com ótima química). Surgindo apropriadamente malhado e com a típica barba-por-fazer de heróis românticos, Jake Gyllenhaal parece perdido como Dastan, sem jamais conseguir encontrar a essência de um personagem que ora soa irreverente, ora terrivelmente sério (e nem vou abordar o absurdo étnico de Gyllenhaal interpretar um persa), ao passo que Gemma Arterton, como Tamina, surge tão expressiva quanto Megan Fox.

Estabelecendo-se como mais um produto genérico da fábrica Bruckheimer (num pacote que inclui até mesmo o velho compositor Harry Gregson-Williams e suas trilhas genéricas de ação), Príncipe da Pérsia representa mais um ponto baixo na carreira de Mike Newell, que parece cada vez mais distante daquele cineasta que um dia comandou obras como Quatro Casamentos e um Funeral e Donnie Brasco. Seja como for, ao menos a narrativa é suficientemente ágil para manter nossa atenção (embora o filme pareça longo para seus 116 minutos).

Mas – sejamos honestos - o mesmo poderia ser dito sobre um golfinho fazendo acrobacias num tanque e nem por isso consideraríamos a experiência como algo particularmente sofisticado ou inteligente.

04 de Junho de 2010

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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