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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/04/2004 29/04/2004 2 / 5 / 5
Distribuidora

Onde Anda Você
Onde Anda Você

Dirigido por Sérgio Rezende. Com: Juca de Oliveira, Drica Moraes, José Wilker, Tiago Moraes, Regiane Alves, Aramis Trindade, Castrinho, José Vasconcelos, Paulo César Pereio, José Dumont.

Drama e comédia são gêneros que se complementam com perfeição. Filmes como Cidadão Kane, Perdidos na Noite, Amadeus e Cidade de Deus se beneficiaram imensamente dos toques cômicos presentes em suas narrativas; da mesma forma, comédias como A Mulher Faz o Homem, Se Meu Apartamento Falasse, Parenthood e O Auto da Compadecida foram engrandecidas pelos elementos dramáticos que, de uma forma ou de outra, ajudaram a conferir maior dimensão aos seus personagens. Porém, há um certo limite para que este `cruzamento` de gêneros possa funcionar bem: acrescentar piadas típicas do humor besteirol a um drama intimista, por exemplo, é uma idéia que dificilmente trará bons resultados – mas, infelizmente, é o que o experiente cineasta Sérgio Rezende (Guerra de Canudos) tenta fazer neste seu novo trabalho, Onde Anda Você, com resultados nada atraentes.

Acompanhando a trajetória do ex-humorista Felício Barreto (Juca de Oliveira) em busca do lendário comediante Boca Pura (Aramis Trindade), com quem deseja formar uma nova dupla, o roteiro concebido por Rezende e Leopoldo Serran dispara em todas as direções: em certo momento, por exemplo, o longa reutiliza uma gag (vista recentemente no americano O Dono da Festa) que envolve uma mulher que aparentemente faz sexo oral em seu parceiro – uma piada boba e de gosto duvidoso que sequer parece pertencer ao mesmo filme no qual um dos amigos de Felício, ao comentar a morte da ex-esposa deste, diz: `A carne da bela Paloma agora está fria`.

Aliás, o roteiro de Onde Anda Você é repleto de diálogos como este, que, além de excessivamente afetados, nada acrescentam à trama e nada revelam sobre os personagens, cujas conversas não possuem foco algum. Além disso, o filme não consegue sequer encontrar o tom apropriado para a narrativa, como podemos constatar através da presença do personagem de José Wilker, o palhaço Mandarim: morto desde a década de 70, ele ressurge na vida de seu antigo parceiro, Felício, sem que este manifeste qualquer surpresa. Afinal, Mandarim é um fantasma? Uma representação da consciência de Felício? Um símbolo da jornada nostálgica provocada pela morte de sua ex-esposa (que fôra amante de Mandarim)? O roteiro não parece saber; ou, se sabe, não se importa em esclarecer (ou, no mínimo, fornecer pistas) para o espectador, que fica sem saber como reagir à presença constante do tal espectro.

Como se não bastasse, a artificialidade dos diálogos compromete a homogeneidade do elenco de Onde Anda Você: confrontados por um texto duro, os atores buscam em suas formações profissionais a melhor maneira de lidar com o desafio: enquanto Wilker e José Dumont encontram a naturalidade própria do Cinema, Juca de Oliveira recorre ao Teatro e imprime às suas falas uma cadência típica dos palcos – e, embora todos os três realizem ótimos trabalhos, é impossível deixar de constatar a falta de unidade em suas atuações, como se estivéssemos escutando uma sinfonia na qual cada músico toca seu instrumento com perfeição, mas em ritmo diferente dos demais. Para piorar, Tiago Moraes e Regiane Alves, intérpretes muito mais jovens e sem tanta bagagem profissional, são vergonhosamente derrotados pelos diálogos. (Observe, por exemplo, a desastrosa troca entre os dois na cena em que Alves pergunta `O que você quer de mim?` e ouve a inacreditável resposta `Sua penugem`.). Além disso, é impossível deixar de notar que a tal doença cardíaca de Felício nada mais é do que uma ferramenta do roteiro, já que só é mencionada quando interessa à história (nos demais momentos, o personagem pode fazer o que bem entender sem se preocupar com as conseqüências).

Mas não é só isso: sem muita experiência em comédia, o diretor Sérgio Rezende demonstra sua falta de timing cômico em diversos instantes da narrativa, como na chegada de Felício ao aeroporto de Teresina, quando o humorista acredita estar sendo recepcionado pela mídia local (o `Que mancada!` que encerra a cena simplesmente destrói a piada, que já não era das melhores). No entanto, nada poderia ser pior do que o esperado encontro entre Felício e Boca Pura, no qual os dois se entregam a um número absolutamente ridículo que não funciona sequer para demonstrar a ingenuidade do humor do antigo palhaço. Aliás, em certo momento o filme (em um de seus poucos acertos) critica a vulgaridade do que a televisão brasileira costuma chamar de `humor`, o que é admirável. O problema é que, inexplicavelmente, Rezende convidou ninguém menos do que Marcelo Madureira (Casseta & Planeta) para atuar como `Assessor Humorístico` do projeto – e o resultado pode ser visto na tela: piadas sem a menor graça que abusam do óbvio e da grosseria (`Pega na minha e balança`, diz Boca Pura, estendendo a mão para Felício). Será que ninguém da equipe de Onde Anda Você percebeu o paradoxo?

Parecendo ter uma duração maior do que seus 100 minutos, Onde Anda Você conta com várias cenas que não parecem ter propósito algum, como a longa caminhada de Felício (nome interessante para um palhaço, não?) e Rafa nas dunas do Ceará, que termina com uma tomada de nudez gratuita de Regiane Alves (ou de sua dublê, não sei dizer ao certo, pois não prestei muita atenção ao rosto da pessoa que se encontrava na tela). Aliás, até mesmo a nada sutil homenagem ao universo de Fellini, que toma conta do terceiro ato da projeção, soa desnecessária e artificial.

Assim, Onde Anda Você merece aplausos apenas pelas performances de José Wilker, que evita que a desconhecida natureza de seu personagem comprometa seu trabalho; Juca de Oliveira, que transforma Felício em uma figura simpática; e, é claro de José Dumont, o grande destaque do longa (como de hábito). Conferindo incrível energia à história sempre que surge em cena, Dumont é, sem dúvida alguma, o melhor ator de Cinema do país (ao lado de Chico Díaz) – e o filme custa a se recuperar sempre que ele não está na tela. É uma pena, portanto, que Onde Anda Você gire em torno de Felício Barreto, e não do divertido radialista Jajá.

Aliás, taí um projeto que merecia ganhar as telas.
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8 de Abril de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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