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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/03/2012 01/01/1970 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Disney

John Carter - Entre Dois Mundos
John Carter

Dirigido por Andrew Stanton. Com: Taylor Kitsch, Lynn Collins, Mark Strong, Dominic West, Ciarán Hinds, James Purefoy, Bryan Cranston, Polly Walker, Daryl Sabara, Samantha Morton, Thomas Haden Church, Willem Dafoe.

Inspirado no personagem criado em 1912 por Edgar Rice Burroughs (autor das aventuras de Tarzan), John Carter é uma aventura de ficção científica que combina western, piratas e gladiadores em solo marciano. Assim, chega a surpreender que uma narrativa tão absurda em essência também possa ser tão lenta e frequentemente entediante – e se ainda assim o filme diverte, isto se deve mais aos excessos do universo de Burroughs do que ao trabalho dos roteiristas Mark Andrews, Michael Chabon e Andrew Stanton ou da direção deste último.

Pecando já numa estrutura que exige a utilização de nada menos do que dois prólogos antes de nos apresentar ao protagonista e à sua trama principal, o roteiro acompanha o personagem-título (Kitsch), um veterano da Guerra Civil norte-americana que, marcado por uma tragédia pessoal, vive solitariamente em busca de uma caverna de ouro. Certo dia, após ser perseguido por índios, ele encontra o que procurava, mas acaba sendo atacado por um ser misterioso e transportado para Marte, que se encontra dividido por uma guerra feroz entre dois grupos de humanos – um deles auxiliado pelo imenso poder de criaturas imortais. Capturado por alienígenas de quatro braços que se espantam com sua habilidade de saltar longas distâncias (resultado da diferença de gravidade entre Terra e Marte), John Carter acaba se envolvendo com a luta da princesa Dejah Toris (Collins), que está sendo obrigada a se casar com o cruel Sab Than (West).

Sab Than, Dejah Toris, tharks, therns, Helium, Zodanga, bathans e macacos albinos – basta ler estes nomes de personagens, criaturas e cidades para entender que tipo de filme é John Carter: uma fantasia que, se rodada entre as décadas de 50 e 70, certamente traria o nome mágico de Ray Harryhausen na elaboração dos efeitos visuais. Em 2012, porém, os seres imaginados por Burroughs ganham vida graças à animação digital, sendo concebidos com imensa atenção devotada à textura de suas peles e ao realismo de seus movimentos – e, neste aspecto, os tharks de quatro braços merecem destaque, embora os animadores pequem pela falta de imaginação ao trazerem, na maior parte do tempo, cada par de membros superiores executando as mesmas ações. E se os cenários digitais complementam bem as locações marcantes do estado de Utah (território usado fartamente por John Ford, o que não é coincidência), ainda assim é necessário apontar que nem sempre os elementos reais e virtuais parecem interagir naturalmente, bastando notar como o boneco CGI de John Carter revela sua natureza artificial nos imensos saltos que dá ao longo da projeção (e ainda não entendi por que estes saltos são acompanhados por um efeito sonoro característico).

Enquanto isso, o roteiro tropeça ao investir numa série de subtramas que, embora pudessem servir para tornar os personagens secundários mais complexos, acabam apenas por comprometer o ritmo da narrativa: além do esforço de Carter para retornar à Terra, de sua dinâmica com a princesa e dos planos malignos do vilão, o filme ainda aborda a rivalidade entre o líder dos tharks e um guerreiro da tribo; acompanha os abusos sofridos pela thark Sola (Morton; expõe a relação entre esta e Tars Tarkas (Dafoe; traz flashbacks envolvendo o passado de Carter; e assim por diante. Além disso, a trama traz furos absurdos, como o plano dos supostamente inteligentes therns envolvendo Dejah (que não faz o menor sentido) e a hesitação destes em lidarem com o herói por algum motivo misterioso. Com isso, um filme que obviamente busca ter apelo junto aos espectadores mais jovens acabando se tornando desnecessariamente complicado e lento, afastando justamente esta parcela do público.

Marcando a estreia de Andrew Stanton (Vida de Inseto, Procurando Nemo, Wall-E) na direção de longas protagonizados por atores de carne-e-osso, John Carter infelizmente não se revela uma promessa como a primeira investida de Brad Bird no live-action (Missão: Impossível 4), já que, além do ritmo irregular, ainda traz personagens unidimensionais e se perde completamente na extensa batalha que ocorre no clímax e que surge como um caos absoluto em sua montagem, na decupagem dos planos e na própria mise-en-scène. E se Taylor Kitsch se revela até convincente ao retratar o personagem-título como um homem destemido que frequentemente exibe olhares de impaciência diante de inimigos e contratempos, a bela Lynn Collins acaba surgindo apenas... bela, já que a imponência que tenta atribuir à princesa e aos seus diálogos soa apenas artificial (e o mais interessante em sua composição são seus olhos impossivelmente – mesmo - azuis). Quanto ao restante do elenco, basta dizer que os melhores desempenhos vêm dos movimentos e das vozes de Samantha Morton e Willem Dafoe, já que Ciarán Hinds parece constrangido diante dos figurinos, dos diálogos e da trama do filme, ao passo que Mark Strong nem parece estar mais tentando criar personagens diferentes, limitando-se a repetir o vilão que vive em praticamente todos os seus trabalhos.

Fortalecido pelas cenas em Nova York que amarram as pontas da trama (e que transformam o próprio Burroughs em personagem), John Carter é um filme falho, mas que ao menos resgata o romantismo de uma época na qual a ficção se beneficiava das lacunas da Ciência, imaginando sem hesitação civilizações em Marte e a possibilidade de um humano viver aventuras em sua superfície sem morrer sufocado. E isto, ao seu próprio modo, já é o bastante para divertir.

09 de Março de 2012

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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