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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
11/11/2005 30/09/2005 4 / 5 / 5
Distribuidora

Marcas da Violência
A History of Violence

Dirigido por David Cronenberg. Com: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Heidi Hayes, Peter MacNeill, Stephen McHattie, Greg Bryk.

Tom Stall é um homem tranqüilo que leva uma vida pacífica ao lado da esposa e dos dois filhos em uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos. Dono de uma pequena lanchonete, ele conta com a afeição de seus vizinhos, funcionários e clientes. Certa noite, já próximo da hora de fechar, dois estranhos entram no estabelecimento e, armados, passam a intimidar todos que ali se encontram – mas antes que possam cumprir suas ameaças, são atacados e mortos pelo próprio Tom, que imediatamente passa a ser visto como herói por seus companheiros e pela mídia nacional. E é então que um homem de rosto desfigurado chega à cidade e, alegando conhecer o protagonista, leva a esposa deste a questionar se o marido não teria agido rápido demais para alguém supostamente tão pacato.

Inspirado em uma graphic novel escrita por John Wagner e Vince Locke, o roteiro de Josh Olson explora as indagações sobre o passado `misterioso` de Tom de forma direta, sem rodeios, evitando criar um suspensezinho barato através de segredos vazios. Em vez disso, a história opta por surpreender o espectador simplesmente através do próprio desenrolar dos acontecimentos, que freqüentemente assumem uma velocidade maior do que o que poderíamos esperar em um filme do gênero: quando o personagem de Ed Harris surge em cena, por exemplo, o público automaticamente se prepara para um tenso confronto que certamente ocorrerá durante o terceiro ato, mas o embate surge mais cedo e de uma maneira bastante diferente da que poderíamos supor (como ela se desdobra, não pretendo revelar). Enquanto isso, os personagens discutem suas dúvidas e apreensões abertamente, sem rodeios cinematográficos que explorem gratuitamente a situação, e freqüentemente percebemos que, naquelas circunstâncias, provavelmente teríamos conversas parecidas.

Dirigido pelo veterano David Cronenberg, Marcas da Violência não tem a menor intenção de se apresentar como um `filme de vingança`; seu objetivo é mais ambicioso, já que procura prender o espectador não através do choque ou da ação (embora estes estejam presentes na trama), mas da curiosidade: quem, afinal de contas, é Tom Stall? Ele de fato tem um passado obscuro? Quais são as relações entre todas aquelas figuras ameaçadoras que, de uma hora para outra, parecem surgir em sua vida? E, caso sua juventude realmente encerre segredos sombrios, Tom tem consciência disso? Ele está mentindo ou sofre de amnésia? Como não conhecemos as respostas para estas perguntas (assim como a família do sujeito), não temos a possibilidade de julgá-lo pelo que ele fez ou deixou de fazer anos atrás; podemos formar nossa opinião apenas pelo que sabemos sobre seu presente.

E este é justamente o tema principal de Marcas da Violência, e que torna o longa tão interessante. O que define quem somos de fato: nossas ações do passado ou nossas atitudes no presente? Quando o filme tem início, Tom já vive naquela comunidade há 20 anos e é admirado por todos em função de sua simpatia e sua bondade; caso sua juventude realmente tenha uma história reprovável a contar, isto muda nossa percepção sobre seu caráter? Ou estas duas décadas deixam de contar? Nossos pecados `prescrevem` – e, caso afirmativo, depois de quanto tempo? É possível se redimir mesmo com ações abomináveis na lembrança? Quando as dúvidas sobre a juventude de Tom começam a surgir em sua família, constatamos, com certa surpresa, que ele está sendo julgado pelo que foi há 20 anos e não pelo pai e marido com o qual todos se acostumaram. Isto é justo?

As questões apresentadas por Cronenberg vão além: depois de quanto tempo uma mentira vivida de forma consistente se transforma em realidade? Afinal, se Tom realmente era uma pessoa diferente, é inegável constatar que ele acabou passando quase tanto tempo como `Tom` quanto como `Joey` (o nome que alguns alegam ser seu verdadeiro). Além disso, o cineasta demonstra imenso interesse em discutir a natureza violenta do ser humano, manifestada em maior ou menor grau em indivíduos diferentes. Alguém com temperamento realmente violento pode mudar? Ou estamos presos àquilo que somos, mesmo que nos esforcemos desesperadamente para suprimirmos nossos instintos menos nobres?

Ao longo de Marcas da Violência, algumas destas indagações são respondidas por Cronenberg (embora, obviamente, não representem necessariamente a `verdade`; somos complexos demais para isso), enquanto outras são deixadas em aberto. De todo modo, é fascinante constatar como o diretor mostra-se consistente em seus questionamentos sobre a natureza humana, já que seus filmes freqüentemente são protagonizados por indivíduos lutando contra si mesmos, contra seus monstros interiores (em alguns casos, até literalmente, como em A Mosca). Aliás, até mesmo a fotografia de Peter Suschitzky procura ilustrar esta batalha constante entre o homem e seu (in)consciente ou seu passado, já que diversos personagens parecem estar sempre na sombra, semi-ocultos.

Encarnando Tom como um homem essencialmente ambíguo, Viggo Mortensen oferece uma performance centrada e repleta de sutilezas: uma de suas decisões mais curiosas, por exemplo, é a de adotar um tom de voz sempre baixo, salientando a calma aparente do personagem – e que pode ocultar uma personalidade bem mais explosiva. Da mesma forma, seu olhar sereno indica uma postura paciente com relação aos problemas que enfrenta, mas, quando ocasionalmente seus olhos tornam-se frios e raivosos, percebemos que possivelmente não seria muito prudente provocá-lo.

Enquanto isso, Maria Bello evita qualquer indício de glamour ao compor Edie Stall, esposa de Tom, transformando-a em uma mulher real cujo nariz escorre quando chora e cuja pele apresenta hematomas após uma sessão de sexo improvisada em uma escadaria. Esta verossimilhança, diga-se de passagem, manifesta-se também em seus conflitos internos ao tentar compreender o que está acontecendo com o marido – e é curioso perceber seu choque ao constatar que, caso Tom realmente tenha uma identidade falsa, até seu sobrenome e os de seus filhos seriam mera fantasia, o que mais uma vez dá origem a um questionamento interessante sobre o que, exatamente, define nossas identidades. Finalmente, Marcas da Violência também traz Ed Harris e William Hurt em duas participações relativamente pequenas, mas igualmente marcantes e grandiosas (Hurt, em especial, parece se divertir a valer com a caracterização de seu personagem; eu não me espantaria caso ele viesse a ser indicado a alguns prêmios por seus poucos minutos em cena).

Apesar de todas as suas virtudes, o filme conta com seus tropeços pontuais, como a forma exageradamente idealizada com que David Cronenberg retrata a família Stall durante o primeiro ato da história. Buscando ressaltar a quebra que a harmonia daquele lar irá sofrer, o cineasta força a mão e chega a ponto de incluir uma cena em que pai, mãe e filho se levantam durante a madrugada apenas para acalmar a caçula, que teve um pesadelo.

De todo modo, Marcas da Violência é um filme tematicamente ambicioso e que demonstra ter segurança suficiente da força de sua narrativa para permitir que o espectador saia do cinema sem estar completamente certo de como tudo terminou. E esta talvez seja uma das maiores virtudes do longa: evitar forçar respostas onde estas indubitavelmente soariam simplistas e artificiais.
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21 de Outubro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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