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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
20/01/2006 21/10/2005 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

Nanny McPhee - A Babá Encantada
Nanny McPhee

Dirigido por Kirk Jones. Com: Emma Thompson, Colin Firth, Kelly Macdonald, Celia Imrie, Derek Jacobi, Patrick Barlow, Imelda Staunton, Thomas Sangster, Holly Gibbs, Phyllida Law e Angela Lansbury.

Em 1964 e 1965, Julie Andrews consolidou-se como grande estrela graças a dois filmes, Mary Poppins e A Noviça Rebelde, nos quais interpretou mulheres bonitas, gentis e bondosas que resgatavam a alegria das crianças colocadas sob seus cuidados. Agora, cerca de 40 anos depois, outra britânica, Emma Thompson, assume um papel similar em Nanny McPhee – A Babá Encantada, mas com algumas diferenças importantes: sua personagem não é nem bonita nem gentil – e, ainda que tenha intenções nobres, seus métodos de trabalho tampouco podem ser considerados como `bondosos`. Ainda assim, Nanny McPhee certamente seria vista com bons olhos por Mary Poppins e por Maria.

Roteirizado pela própria Emma Thompson a partir de uma série de livros escritos na década de 60 por Christianna Brand, o filme traz Colin Firth como o agente funerário Cedric Brown, um viúvo pai de sete filhos endiabrados que já conseguiram se livrar de nada menos do que 17 babás. Pressionado pela tia de sua falecida esposa para arranjar uma nova mãe para as crianças, o sujeito é obrigado a aceitar a exigência e buscar uma pretendente, já que, sem a ajuda financeira da velha milionária, acabará perdendo a casa e a guarda dos filhos. Enquanto se concentra na tarefa, ele deixa sua prole aos cuidados de uma nova babá que surgiu misteriosamente em sua casa, a estranha Nanny (Babá) McPhee, que promete cuidar dos pequenos até que estes aprendam as `cinco lições` que julga importantes – e, para isto, ela não hesita em usar seus poderes mágicos.

Com sua galeria de estranhos personagens e caracterizações exageradas, A Babá Encantada assume inquestionavelmente o caráter de fábula: basta ver o penteado da cozinheira interpretada por Imelda Staunton (sim, Vera Drake!) ou o nariz absurdamente adunco de tia Adelaide (Angela Lansbury, de volta à telona depois de 20 anos) para perceber que estamos em um universo perfeitamente capaz de hospedar Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel ou qualquer outra criação dos irmãos Grimm. A própria Nanny McPhee, com seu nariz de batata, suas verrugas, seu dente pontudo, suas sobrancelhas unidas e orelhas imensas poderia ser confundida com uma clássica Bruxa Má, embora logo revele ter alma de fada.

Da mesma forma, a brilhante direção de arte aposta em cores sempre marcantes, chapadas, investindo em tons mais tristes para a casa dos Brown e em uma inundação de rosa no chalé superdecorado da viúva Selma Quickly, a possível noiva de Cedric (e quando digo `superdecorada`, não estou exagerando: é como se a mulher tivesse passado a vida inteira comprando enfeites para sua pequena residência, o que já denuncia seu interesse por dinheiro – além de seu mau gosto, é claro). Complementando o visual, os figurinos não apenas se mostram igualmente coloridos como também refletem as personalidades de seus donos.

Dirigido pelo mesmo Kirk Jones do divertido A Fortuna de Ned, este A Babá Encantada conta com um senso de humor igualmente atípico; não é um filme que provocará gargalhadas contínuas na platéia, mas é suficientemente bem-humorado para que saiamos do cinema satisfeitos. Além disso, é uma daquelas produções que trazem situações e subtextos diferentes para adultos e crianças: enquanto os pequenos rirão do burro dançante e da guerra de tortas, seus pais certamente se divertirão com o grito de `Isto é incesto!` dado por certa personagem e provavelmente constatarão, com a maldade típica dos adultos, que há algo de `peculiar` na relação entre os dois ajudantes de Cedric, vividos pelos ótimos Derek Jacobi e Patrick Barlow. E é bastante provável que todos riam juntos do desespero do personagem de Colin Firth durante a cena em que este toma chá com a repulsiva viúva Quickly.

Porém, A Babá Encantada representa mais do que um passatempo dispensável; como toda boa fábula, o filme pode servir como um bom impulso para que pais e filhos discutam temas importantes para o desenvolvimento emocional e psicológico das crianças. Observem, por exemplo, como a produção trata a morte com naturalidade: em vários momentos, Cedric é visto em sua funerária ao lado de cadáveres de homens idosos, mas em nenhum momento as imagens soam chocantes ou são utilizadas para provocar risos ou sustos – os cadáveres simplesmente estão lá, como um fato inegável e natural da vida. Além disso, Simon, o mais velho dos irmãos, aprende uma importante lição sobre a responsabilidade que devemos assumir sobre nossos atos, arcando com as conseqüências de tudo o que fazemos.

Mas talvez a `mensagem` mais óbvia e importante de A Babá Encantada (principalmente em uma época como a nossa, dominada pela vaidade e por valores estéticos, superficiais) seja aquela sobre a aparência da personagem-título. Quando é vista pela primeira vez, com sua feiúra pavorosa e suas roupas fúnebres, Nanny McPhee é imediatamente encarada – inclusive por nós, espectadores – como alguém a se temer, como uma ameaça, uma possível vilã. Nossas expectativas baseadas no físico da personagem, no entanto, logo são subvertidas e somos obrigados a constatar que cometemos uma injustiça. E o mais interessante: à medida que o tempo passa, a protagonista vai se tornando gradualmente mais bonita, refletindo, em sua aparência, nossos sentimentos por ela. O que torna Nanny McPhee bonita como Emma Thompson não é mágica; é o fato das crianças a enxergarem com amor.

E o melhor de tudo é que, em nenhum momento, alguém solta um daqueles discursos típicos do Cinema norte-americano, mastigando todas as lições para a platéia (`Foi o amor de vocês que me tornou bela, amiguinhos! A beleza está nos olhos de quem vê!`). Inteligente e sensível, Thompson parece saber que a mensagem se torna mais forte e duradoura quando as crianças são levadas a pensar sobre o que viram e percebem, sozinhas (ou através de conversas com os pais), o que tudo aquilo significava. Lições mastigadas, pré-digeridas, muitas vezes são encaradas com desconfiança ou se tornam apenas palavras decoradas, mas não absorvidas.

Neste sentido, A Babá Encantada oferece lições muito mais importantes do que apenas aquelas cinco inicialmente sugeridas pela protagonista.
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20 de Janeiro de 2006

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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