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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
18/11/2005 18/11/2005 3 / 5 / 5
Distribuidora

O Libertino
The Libertine

Dirigido por Laurence Dunmore. Com: Johnny Depp, Samantha Morton, John Malkovich, Kelly Reilly, Tom Hollander, Rosamund Pike, Francesca Annis, Richard Coyle, Rupert Friend, Jack Davenport, Paul Ritter, Claire Higgins.

 

            - Eu te condeno a ser você pelo resto dos seus dias.

 

Quando o Rei Charles II dirige estas palavras ao poeta e dramaturgo John Wilmot, em certo momento de O Libertino, sua condenação traz o peso do reconhecimento de que aquele é um homem cuja vida tornou-se um fardo: consumido pela doença e odiado por muitos, Wilmot parece mais abatido por permanecer vivo do que ficaria caso fosse sentenciado à guilhotina. Isto, porém, não vem como surpresa para o espectador, já que, na introdução do filme, o protagonista rompe a quarta parede e, dirigindo-se ao público, manifesta orgulho pela própria falta de caráter, avisando-nos de que não gostaremos dele.

           

Uma das figuras mais conhecidas da Inglaterra durante o período pós-restauração da monarquia britânica (1660), John Wilmot, o Segundo Earl de Rochester (título que herdou do pai), era um autor conhecido, entre outras coisas, por seus textos picantes e nada comportados – e uma de suas peças, Sodoma, é considerada o primeiro exemplar impresso de pornografia da História. Arrogante, egoísta e inconseqüente, casou-se por interesse financeiro com uma jovem herdeira, chegando a seqüestrá-la a fim de obrigá-la a aceitá-lo – um plano frustrado pelo próprio Rei Charles II que, mesmo sendo seu amigo, ocasionalmente o enviava para o exílio como punição por seus exageros (eventualmente, a tal herdeira, Elizabeth Malet, se casaria com Wilmot por vontade própria). Hedonista convicto, não desperdiçava a chance de ir para a cama com quem quer que fosse – homens ou mulheres – e, entre suas “conquistas”, encontra-se a renomada atriz inglesa Elizabeth Barry, cujo imenso talento nos palcos teria sido lapidado justamente por Wilmot, seu “tutor” (algo que o filme retrata, embora ainda haja grandes discordâncias sobre o fato entre historiadores).

           

Aliás, um dos pontos fracos de O Libertino diz respeito justamente às inúmeras sessões de ensaios entre os amantes: pretensiosas e inverossímeis, as “lições” dadas por Wilmot parecem sair de um manual de auto-ajuda – e se Barry realmente dependesse daquelas aulas para se tornar uma grande atriz, seu futuro no elenco de Malhação estaria assegurado. Um dos principais problemas atribuídos à moça pelo filme, por exemplo, é o pouco alcance de sua voz - e mais tarde, quando a vemos “brilhando” no palco, sua performance contida funciona para o Cinema, mas continuaria inaudível para qualquer membro da platéia que não se encontrasse na primeira fila. Como se não bastasse, Samantha Morton, embora seja uma atriz talentosa, parece determinada a quase sempre transformar suas personagens em figuras extremamente frágeis e vulneráveis (observem como ela cobre o rosto ao ir para a cama com Wilmot) e, neste caso, esta característica soa implausível, desnecessária e enfraquece o impacto que Elizabeth Barry deveria causar em Wilmot.

           

Enquanto isso, a bissexualidade do protagonista é praticamente ignorada pelo roteiro de Stephen Jeffreys (também autor da peça que deu origem ao filme), que limita-se apenas a insinuar o interesse de John Wilmot por outros homens. Da mesma forma, O Libertino jamais se preocupa em explicar por que o sujeito era tão respeitado profissionalmente – o que fazia dele um autor tão conceituado, bem-sucedido? Seu processo criativo jamais é abordado pelo longa, que se mostra muito mais interessado em seu dom para a auto-destruição. Desta forma, a impressão que temos é a de que Wilmot não era verdadeiramente talentoso; apenas tinha coragem para ser vulgar em seus textos, o que o diferenciava de boa parte de seus contemporâneos.

           

Por outro lado, o filme demonstra coragem ao abraçar um protagonista tão desprezível: sempre com um olhar inegável de desprezo para todos que o cercam, o escritor não faz o menor esforço para ocultar seu egoísmo monstruoso – a não ser, é claro, ao julgar estar perdendo sua influência sobre alguém, quando, então, volta a utilizar todo seu charme para reconquistar sua “vítima”. Em certo instante, por exemplo, sua esposa manifesta sua frustração em um pequeno monólogo escrito com grande elegância:

 

            - John, eu poderia suportar nosso casamento mais facilmente caso não houvesse fingimento. Caso eu fosse uma mera dona-de-casa e um passaporte para que você tivesse acesso à linhagem nobre. Mas quando você está longe, escreve tão convincentemente sobre o quanto me ama e... não acho que queira me torturar, mas é uma tortura ser informada à distância sobre sua paixão e, então, ser tratada com tamanha frieza pessoalmente.

 

Ainda assim, há momentos em que O Libertino parece tentado a justificar as ações de seu protagonista: além da cena introdutória (que fará uma rima narrativa com o desfecho do longa), que busca mostrar um John Wilmot mais razoável, ainda que ciente de sua própria canalhice (se ele nos alerta contra si mesmo, não pode ser tão mau!), o filme investe no intenso amor do escritor por Barry como forma de torná-lo mais vulnerável e menos frio – e o fato é que o interesse romântico do sujeito jamais soa realmente convincente. Felizmente, por mais que o roteiro busque aproximar o espectador de seu personagem-título, mostrando-o apaixonado, retratando sua busca pela redenção ou mesmo confessando seus pecados, o brilhante Johnny Depp simplesmente não permite que isto aconteça. Sempre que o filme cria uma situação que possa inspirar nossa simpatia por Wilmot, Depp carrega no cinismo, como para nos lembrar de que não devemos confiar no sujeito – o que engrandece a produção.

           

Enquanto isso, o diretor estreante Laurence Dunmore revela um moralismo irritante ao encenar as cenas de sexo (e orgias) de maneira carregada, desagradável, como se víssemos um quadro do Inferno na Terra. Em contrapartida, demonstra sensibilidade ao manter sua câmera afastada do protagonista enquanto este mantém uma conversa delicada no fim de um corredor, como se quisesse preservar sua intimidade (o que me fez lembrar de Taxi Driver, quando Scorsese desvia o olhar de sua câmera enquanto Travis se embaraça ao telefone com Betsy). Da mesma forma, Dunmore faz uma escolha particularmente interessante quando Wilmot, já com o rosto desfigurado pela sífilis, faz um discurso: mantido fora de foco, o personagem caminha em direção à câmera, mas, sempre que se torna claramente visível para o espectador, o cineasta volta a se afastar, como se a repulsa provocada pela figura grotesca do personagem não permitisse sua aproximação.

           

Trazendo ainda o sempre competente John Malkovich (que retrata a ambigüidade de sentimentos de Charles II com relação a Wilmot de maneira sensível), O Libertino é mais um veículo que comprova o imenso talento de Johnny Depp e seu eterno interesse por personagens malditos, à margem da Sociedade. Taí um ator que, mesmo em filmes irregulares como este, é sempre capaz de despertar o interesse do espectador.
``

 

05 de Julho de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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