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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
11/06/2004 27/02/2004 1 / 5 / 5
Distribuidora

A Marca
Twisted

Dirigido por Philip Kaufman. Com: Ashley Judd, Samuel L. Jackson, Andy Garcia, David Strathairn, Russell Wong, Camryn Manheim, Mark Pellegrino, D.W. Moffett, Leland Orser.

Vou começar este artigo citando um profissional raramente lembrado pela crítica cinematográfica: o editor de efeitos sonoros. Infelizmente, o motivo da lembrança não é nada lisonjeiro, já que, ao longo de A Marca, tive vontade de esganar o senhor Timothy Nielsen, que exerce a função nesta constrangedora produção. Por que? Por exibir o mesmo `vício` que tantos outros colegas: julgar que nós, ignorantes espectadores, não entenderemos que um personagem está bebendo algo a não ser que ouçamos o líquido sendo `sugado` (sim, sugado) e engolido. E como a policial interpretada por Ashley Judd passa boa parte da história enchendo a cara (algo que abordarei adiante), quando a projeção chega ao fim constatamos que fomos obrigados a escutar uma infinidade de insuportáveis `schrlps` e `glups`. Será que ninguém em Hollywood consegue beber sem fazer barulho?

Aliás, aproveitando o ensejo: será que ninguém em Hollywood percebeu que o gênero serial killer está esgotado? Quantas vezes teremos que acompanhar tramas óbvias que giram em torno de assassinos que gastam mais tempo deixando estranhas pistas para os detetives do que estripando suas vítimas? Nos últimos anos, poucos exemplares do gênero conseguiram surpreender: para cada Identidade que se salva, há dezenas de Dívida de Sangue e Caçadores de Mentes, que apenas desperdiçam os talentos de todos os envolvidos. Um dos problemas deste tipo de thriller é a dificuldade em `enganar` o público: como não pode contar com um número muito grande de personagens, as possibilidades de que a identidade do criminoso seja uma surpresa são mínimas. Além disso, o espectador está ficando cada vez mais difícil de se chocar, em função do próprio número de filmes do estilo que anualmente chegam aos cinemas: e como A Marca pode querer superar Se7en (e seus crimes engenhosos), O Silêncio dos Inocentes (e sua `roupa de pele humana`) ou mesmo Copycat (e seu assassino `versátil`) se o mais interessante que seu criminoso consegue conceber como `marca registrada` é deixar uma marca de queimadura de cigarro nas mãos de suas vítimas?

Escrito por Sarah Thorp (ou eu deveria dizer Torpe?), o roteiro é esquemático e mal desenvolvido, apelando para os diálogos até mesmo para estabelecer as ligações entre seus personagens, em vez de ilustrá-las através da própria dinâmica da narrativa (logo no início da projeção, Samuel L. Jackson diz para Judd: `Foi uma honra, para mim, ter criado a filha do meu parceiro`). Aliás, Torpe (digo, Thorp) usa as risíveis falas até mesmo para `desenvolver` os conflitos interiores de sua protagonista, como no momento em que um psiquiatra diz para a heroína: `Há 24 anos, seu pai matou várias pessoas e depois assassinou sua mãe, cometendo suicídio em seguida. Você dedica sua vida a caçar criminosos. Não vê a ligação entre as duas coisas?`. Sim, ela vê. Vê até demais, já que passa o filme inteiro analisando as fotos tiradas no local da morte dos pais. Uma dica, detetive Jessica: se você não conseguiu extrair nada de algumas fotografias depois de 20 anos, é melhor desistir e procurar evidências em outro lugar...

Mas é claro que o único motivo para que ela se mostre obcecada pelas imagens é informar o espectador de que aquilo será relevante para a história posteriormente. O problema é que, na realidade, o público simplesmente não se importa com o drama de Jessica, uma mulher agressiva, alcoólatra e promíscua que, para uma detetive considerada `inteligente` por seus colegas, revela-se burra como uma porta. Há uma linha clara entre um `herói em crise` e um `protagonista antipático`, e A Marca parece ignorar isto. E se você tem alguma dúvida sobre a burrice da protagonista, o que podemos dizer sobre alguém que, mesmo sendo considerada suspeita de vários assassinatos, não pensa duas vezes antes de sair gritando que `tem vontade de matar` um desafeto? Ainda não é o bastante? Ok: ao longo da narrativa, Jessica desmaia várias vezes, sempre depois de beber um determinado vinho que tem em sua casa. O que ela faz? Bebe ainda mais, sem sequer cogitar a possibilidade de que, oh!, possa haver algo errado com o tal vinho – algo que até Alfred Hitchcock, que já está morto há 24 anos, consegue perceber antes dela. Honestamente, sou contra a pena de morte, mas teria o maior prazer em ajudar a prender esta personagem na cadeira elétrica e dar o comando `Roll on two!`.

Enquanto isso, Samuel L. Jackson e Andy Garcia fazem o possível para manter uma expressão séria mesmo enquanto dividem a cena com uma Ashley Judd artificial e ridícula vivendo o pior momento de sua carreira. A pergunta é: como um cineasta como Philip Kaufman, que já realizou filmes corretos como Os Invasores de Corpos e obras ótimas como Os Eleitos e Os Contos Proibidos do Marquês de Sade, pode ter comandado um desastre como este A Marca? O diretor até procura estabelecer um clima de suspense quase noir ao exagerar na névoa que cobre San Francisco durante os créditos iniciais, mas logo parece desistir, chegando ao ponto de plagiar O Silêncio dos Inocentes ao incluir uma cena absolutamente hilária entre a detetive Jessica e um criminoso medíocre que esta prendeu no início da história – e nem preciso dizer que a comparação não é nada favorável ao longa de Kaufman.

É impossível compreender como um roteiro assim pode ter recebido `luz verde` da Paramount. A única explicação possível é que o projeto foi acidentalmente colocado na pilha de projetos aprovados, quando o produtor, na realidade, estava tentando atirá-lo na lata de lixo.
``

11 de Junho de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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