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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
07/12/2007 28/10/2007 2 / 5 / 5
Distribuidora

Bee Movie - A História de uma Abelha
Bee Movie

Dirigido por Steve Hickner, Simon J. Smith. Com as vozes de Jerry Seinfeld, Renée Zellweger, Matthew Broderick, Patrick Warburton, John Goodman, Chris Rock, Kathy Bates, Rip Torn, Larry Miller, Barry Levinson, Larry King, Ray Liotta, Sting, Oprah Winfrey, Megan Mullally, Michael Richards.

 

O humorista Jerry Seinfeld é um sujeito incrivelmente inteligente – algo que pode ser constatado simplesmente ao analisarmos o nome com o qual batizou seu personagem em Bee Movie – A História de uma Abelha. Funcionando em vários níveis, o nome Barry B. Benson é, a princípio, uma homenagem à série de tevê Benson, que, protagonizada por Robert Guillaume entre 1979 e 1986, foi a primeira incursão bem-sucedida de Seinfeld na mídia que o tornaria rico e famoso. Porém, “Barry” também é sonoramente similar a “Jerry”, o que é mais do que apropriado se considerarmos que o comediante construiu sua carreira interpretando uma versão de si mesmo. Além disso, o “B.” é obviamente uma referência a “bee” (abelha), ao passo que a aliteração presente em “Barry B. Benson” é uma alusão a Benjamin Braddock, nome do personagem de Dustin Hoffman em A Primeira Noite de um Homem e cujos dilemas existenciais eram similares aos vividos pelo protagonista deste filme.

 

É uma pena, portanto, que os neurônios de Seinfeld (e de seus três co-roteiristas – dois dos quais, velhos colaboradores) tenham se cansado depois do esforço inicial, já que o restante de Bee Movie jamais volta a exibir o mesmo grau de inteligência presente no nome do herói. Apresentando-se claramente como uma versão abelhuda de Formiguinhaz, o filme gira em torno de um inseto que se nega a seguir a rotina que a vida na colônia lhe reserva, arriscando-se no mundo exterior (que, como naquele longa, é representado pelo Central Park e por Nova York) e protagonizando aventuras que irão alterar a existência pacífica de seus pares até que o próprio protagonista perceba a importância da velha dinâmica de sua comunidade. Aliás, até mesmo a cena em que Z ficava grudado em um chiclete na sola do sapato de um humano ganha nova versão nesta produção – com a diferença que, aqui, ele fica preso em uma bola de tênis.

 

Procurando desajeitadamente uma história para contar, o roteiro de Bee Movie parece mudar de direção a cada vinte minutos: inicialmente, a narrativa parece se concentrar na insatisfação de Barry com suas perspectivas, mas isto logo cede lugar à sua paixão pela humana Vanessa (Zellweger). Mais uma vez, porém, o filme muda de rumo ao enfocar a surpresa do herói ao descobrir que o mel produzido pelas abelhas é roubado e comercializado pelos humanos – e então o longa se transforma num quase drama de tribunal, o que, nem preciso dizer, se mostra pouco eficaz numa produção voltada para o público infantil (e o falatório destas cenas provavelmente deixará as crianças menores inquietas). Mas se a esta altura as mudanças de foco do roteiro poderiam ter originado dez filmes diferentes, a bagunça continua quando Barry é forçado a enfrentar as conseqüências de suas ações, o que leva a história (acredite ou não) para dentro de um avião prestes a desabar.

 

Lamentavelmente, a falta de estrutura não é o único problema do roteiro, que ainda é prejudicado por diálogos pouco inspirados (o estilo de comédia de Seinfeld, aqui representado por monólogos sobre “anéis de dedos do pé”, não se adapta bem ao gênero e ao público-alvo) e pelo desenvolvimento descuidado de várias situações (Vanessa, por exemplo, aceita a existência de uma abelha falante com muita facilidade). Apostando excessivamente nos trocadilhos, Bee Movie parece não compreender que esta é uma forma de humor pouco engraçada (ainda que engenhosa) – e menções à “Enhon” (o escândalo da Enron, que ganha a ótima tradução de “melsalão”) podem até provocar sorrisos de reconhecimento, mas não são o bastante para classificar o filme como uma comédia particularmente eficaz. Um pouco melhores são as brincadeiras com celebridades como Sting, Ray Liotta e Larry King (que dublam suas versões digitais, demonstrando bom humor), bem como as citações a filmes como A Primeira Noite de um Homem (Barry mergulha na piscina para se isolar da realidade) e Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!, mas, mais uma vez, isto não é o suficiente para salvar o filme, além de certamente passar despercebido pelo público mais jovem.

 

Pouco inspirado também em seus aspectos visuais (a colméia retratada aqui empalidece diante do formigueiro de Formiguinhaz), Bee Movie ao menos cria boas seqüências de ação (excluindo aquela do avião) que mantêm o espectador acordado graças aos interessantes movimentos de câmera e à perspectiva particular do pequeno protagonista diante de objetos do nosso cotidiano. Já o design dos personagens é suficientemente simpático para justificar a comercialização de bonecos e outros produtos relacionados ao filme, o que já era de se esperar.

 

Seguindo a tendência de resgatar as grandes corporações como vilãs ideais do mundo moderno (vide a crítica sobre Conduta de Risco, que também estréia no Brasil esta semana), Bee Movie faz ainda referências veladas aos campos de concentração nazistas e à paranóia provocada pelo terrorismo, mas, mais uma vez, sem muita inspiração. E se o nome do herói oferece vários níveis de interpretação, o trocadilho presente no título do projeto perde totalmente o sentido quando constatamos que, de “filme b”, esta produção não tem absolutamente nada.

 

A não ser, é claro, que estejamos falando da qualidade de sua narrativa.

 

05 de Dezembro de 2007

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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