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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
03/02/2006 14/10/2005 1 / 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
99 minuto(s)

Edison - Poder e Corrupção
Edison

Dirigido por David J. Burke. Com: Justin Timberlake, Morgan Freeman, John Heard, Dylan McDermott, LL Cool J, Kevin Spacey, Cary Elwes, Roselyn Sanchez, Damien Wayans, Piper Perabo, Françoise Yip.

Escrito e dirigido pelo norte-americano David J. Burke, cuja experiência no ramo se concentra principalmente em trabalhos para a televisão, Edison – Poder e Corrupção é um longa que, desde o começo, tenta assumir uma aura de filme noir, inspirando-se claramente no excepcional Los Angeles – Cidade Proibida para contar uma história de corrupção envolvendo um prestigiado departamento de polícia em uma cidade antes dominada pelo crime. Infelizmente, de todas as palavras utilizadas na frase anterior, apenas uma poderia ser usada para descrever este projeto com acuidade – e esta certamente não é `excepcional` ou `prestigiado`, mas sim `crime`. Deveria haver uma lei contra filmes como este.

Procurando iniciar-se já de maneira explosiva a fim de sugerir para o espectador que algo de interessante ocorrerá ao longo da projeção, o longa acompanha dois policiais de uma divisão similar à S.W.A.T. que, na fictícia cidade de Edison, invadem uma casa ocupada por dois traficantes de drogas e matam um deles à sangue frio, forçando o outro a confessar o crime. Durante o julgamento, um dos policiais, o torturado Deed (LL Cool J) procura amenizar a situação do réu ao descrever o assassinato supostamente cometido por este como auto-defesa – algo que inspira o traficante a sussurrar um `Obrigado` para a testemunha. Isto é o bastante para que o jovem jornalista Pollack (Timberlake) suspeite de uma armação da polícia, passando a investigar o caso a fim de escrever uma matéria denunciando o esquema, o que o coloca na mira do departamento povoado por tiras corruptos.

Aliás, ao lado de Veronica Guerin, Pollack é, desde já, um dos repórteres mais incompetentes e sem ética retratados recentemente pelo Cinema: além de tentar convencer seu editor, Ashford (Freeman), a publicar uma matéria sem qualquer embasamento factual, o rapaz acredita que um caso banal construído a partir de uma testemunha com credibilidade zero será o bastante para derrubar os poderosos da cidade – e, para grande espanto do espectador, os vilões parecem acreditar que isto é possível, já que, em vez de ignorarem o sujeito, conferem verossimilhança à investigação ao atacá-lo. Impossível dizer quem é mais imbecil, pois o fato é que Pollack boicotaria os próprios esforços sem qualquer interferência externa: quando sua testemunha oferece uma informação importante, por exemplo, o jornalista só se lembra de ligar o gravador quando o outro já terminou de falar. Além disso, seu descaso para com a ética certamente resultaria em uma matéria repleta de furos e passível de inúmeras críticas, já que, entre outras coisas, ele não julga importante ouvir o outro lado da história e se dispõe até mesmo a arriscar a segurança de sua fonte para concluir o trabalho. E se você acha que ao menos as motivações de Pollack são nobres, pense novamente: o objetivo do rapaz é ganhar prêmios.

Burro como um jumento morto, nosso herói chega a ponto de permanecer sozinho em casa, totalmente desprotegido, mesmo sabendo que está sendo perseguido por homens violentos e inescrupulosos. No entanto, talvez ele tenha lido o roteiro do filme e tenha consciência de que seus inimigos são ainda mais estúpidos: afinal, eles esperam até que Pollack tenha tempo para enviar suas denúncias para jornais de todo o país antes de finalmente decidirem atacá-lo. E, quando o fazem, confesso que torci para que machucassem bastante o personagem, que, além de idiota e fútil, é vivido por um Justin Timberlake inexpressivo e sem o menor carisma – algo que fica ainda mais evidente quando contrastamos sua performance com a de Dylan McDermott, que encarna o psicopata Lazerov de forma intensa, ainda que inquestionavelmente caricata. Fechando o elenco, vêm Kevin Spacey e Morgan Freeman, mas vou fingir que não os vi: só assim poderei continuar a respeitá-los. Para todos os efeitos, seus personagens foram vividos por David Hasselhoff e Victor Fasano.

Aliás, não consigo entender como Spac... Hasselhoff e Fasano puderam aceitar participar de um projeto como este: será que não leram o roteiro? Será que não viram os diálogos pavorosos que seriam obrigados a recitar? Será que não notaram a cena ridícula na qual o herói e o policial Deed, até então em campos opostos, começam a trocar confidências sobre suas namoradas sem mais nem menos? E, mesmo que tenham deixado tudo isso passar, será que Freem... Fasano e Hasselhoff não ficaram espantados com a cena na qual seus personagens, depois de uma breve investigação, chegam à conclusão de que o departamento policial está arquitetando `um plano secreto para o estabelecimento de um Estado fascista`? Sim, eu disse `um plano secreto para o estabelecimento de um Est...` pfffffff... HAHAHAHAHAHAHAHAHA. Desculpem, não agüentei. E não sei como os dois atores agüentaram.

Dirigido com uma incompetência ímpar por Burke (espere até ver os closes concebidos pelo `cineasta` e sua mania de colocar Spacey de perfil em primeiro plano enquanto Freeman permanece ao fundo), Edison – Poder e Corrupção traz uma série de cenas que poderiam ser incluídas em qualquer antologia de `piores momentos` da História do Cinema: particularmente, não sei se eu escolheria a seqüência final do tiroteio, durante o qual vilões e mocinhos parecem estar a meio metro uns dos outros (acabei me lembrando de um dos episódios de Corra que a Polícia Vem Aí, no qual algo semelhante ocorre), ou o instante fabuloso em que um personagem atira na cabeça de outro e os dois ainda têm tempo de trocar olhares do tipo: `Não acredito que você fez isso!`. `Pois é, mas tive que fazer!`. `Seu canalha!`. `Ah, morra logo, seu idiota!`. `Vou morrer! Fazer o quê, né? Você atirou bem no meio da minha testa... Aliás, nem sei como tivemos tempo de trocar tantos olhares!`.

Mas o mais incrível é que Edison tenha sido editado por dois profissionais, já que conta com uma das piores montagens que vi nos últimos anos: além das fusões deselegantes e das pavorosas cortinas e telas divididas, o filme ainda traz inúmeros flashbacks (em preto e branco!) sem o menor propósito ao longo da narrativa. Em certo instante, por exemplo, a mãe do traficante preso surge deitada em sua cama e, como que temendo a estupidez do espectador, os montadores incluem um rápido flashback para nos lembrar de quem é aquela mulher – algo que não seria muito difícil, já que um dos personagens diz claramente que está indo visitar a tal senhora. Pode parecer incrível, mas nem mesmo os efeitos visuais mais básicos são realizados de maneira satisfatória em Edison: quando vemos as labaredas provocadas por um lança-chamas, é perfeitamente possível discernir o recorte em volta do fogo, indicando a composição das imagens.

Eu disse no início que Edison – Poder e Corrupção tenta assumir uma aura de filme noir. Pois ignorem esta afirmação. Depois de pensar um pouco mais sobre o assunto, cheguei à conclusão de que David J. Burke provavelmente não tem a menor idéia do que seja filme noir. Para isso, ele primeiro teria que saber o que é Cinema.
``

02 de Fevereiro de 2006

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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