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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/01/2006 29/09/2004 2 / 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
129 minuto(s)

2046: Segredos do Amor
2046

Dirigido por Wong Kar Wai. Com: Tony Leung, Gong Li, Ziyi Zhang, Faye Wong, Carina Lau, Takuya Kimura, Maggie Cheung, Chang Chen, Wang Sum.

O subtítulo que 2046 recebeu no Brasil, `Segredos do Amor`, é estranhamente inapropriado para o tom que o cineasta chinês Wong Kar Wai adota ao longo do filme: no universo concebido pelo diretor-roteirista, os confusos personagens estão em constante sofrimento por amores perdidos, não-retribuídos ou simplesmente não-manifestados. Se existe algum `segredo` para tornar um relacionamento bem-sucedido, ninguém parece interessado em desvendá-lo, já que, de certa maneira, o próprio conceito de `coração partido` obviamente soa mais romântico para estes indivíduos do que a idéia de um romance estável e feliz – e isto é especialmente verdadeiro para o escritor Chow Mo Wan, vivido por Tony Leung.

Cínico e desiludido, Chow (também presente no filme anterior de Kar Wai, Amor à Flor da Pele, ao qual não assisti) viveu uma paixão intensa por uma mulher que, por motivos particulares, optou racionalmente por não correspondê-la. Chateado (mas não tanto quanto o esperado), ele decide se mudar para o quarto vizinho ao antigo quarto de hotel de sua ex-amante, o 2046, e passa a viver uma série de romances com as mulheres que ocasionalmente ocupam o apartamento. Ao mesmo tempo, inspirado por suas experiências, Chow passa a escrever um livro sobre personagens que embarcam em um trem rumo a 2046, onde poderão reencontrar as memórias perdidas de suas vidas.

Neste sentido, 2046 se mostra tematicamente curioso: ao mesmo tempo em que projeta no `futuro` suas aspirações ao amor (também falho, como se vê por seu envolvimento com belas andróides incapazes de retribuí-lo), Chow remói suas frustrações passadas e presentes, transformando seu livro em uma alegoria sobre paixões perdidas – o que soa ocasionalmente pretensioso e constantemente óbvio, como no momento em que ele destaca que as seções 1224-1225 do trem encontram-se com o sistema de aquecimento estragado, estabelecendo um paralelo com a carência afetiva que toma conta das pessoas solitárias durante as festas de fim de ano (os números significam 24 e 25 de dezembro, percebem?). Neste sentido, é inegável que Chow é, no mínimo, um escritor medíocre. Além disso, o próprio Kar Wai peca por não perceber que, sendo seu filme uma alegoria em si, a encenação do `futuro` concebido por seu protagonista soa redundante, já que nada mais é do que um símbolo de outro símbolo.

No entanto, é possível que o diretor esteja menos interessado em sua história – ou mesmo em suas `mensagens` – do que na plástica de seu filme. Pois 2046 é, do ponto de vista estético, absolutamente impecável. Com um olhar fantástico para a composição de seus quadros, Kar Wai cria planos belíssimos, explorando ao máximo a direção de arte que teve o cuidado de preencher as paredes de todos os cenários com texturas ricas que são sempre investigadas pela câmera (não é à toa que os personagens estão constantemente se recostando nas paredes). Além disso, o cineasta emprega a câmera lenta de forma constante, além de enriquecer seus quadros com jogos de reflexos cuidadosamente estudados.

Porém, por mais espetacular que 2046 seja em seus aspectos visuais, é difícil deixar de suspeitar que o apuro estético de Wong Kar Wai representa um fim em si mesmo: no início, ao perceber que o diretor deixava seus atores constantemente em um canto do quadro, suspeitei que quisesse salientar a solidão e a fragilidade que estavam sentindo – aos poucos, no entanto, fui chegando à conclusão de que eles assim se colocavam simplesmente porque era mais bonito e elegante. Aliás, o mesmo se aplica ao plano no qual vemos uma torneira que pinga lentamente – e que surge na tela para cumprir um propósito plástico, e só. Em contrapartida, Kar Wai combina visual e narrativa de forma brilhante no plano em que Chow força a amante Bai Ling a segurar um presente – algo que o diretor claramente compara a um ato sexual, como se Chow obrigasse a moça a pegar seu pênis.

As mulheres vistas ao longo de 2046, diga-se de passagem, formam um dos elencos femininos mais belos que já vi nos últimos tempos: Ziyi Zhang, em particular, jamais esteve tão bonita, algo que certamente deve ser atribuído ao esmero com que Kar Wai trabalha com a câmera. Eu poderia até dizer que as atrizes também demonstram talento ao criar suas personagens (e demonstram), mas estaria fugindo do ponto básico, já que, na realidade, elas cumprem principalmente a função de funcionar como trampolim para as viagens introspectivas do protagonista – que, vale dizer, é vivido de maneira corretamente fria e distante por Tony Leung, que parece encarar todas as suas parceiras com desconfiança, projetando nelas uma frieza emocional que, na realidade, é sua.

Tematicamente óbvio e pouco ambicioso, 2046 é um filme que enche os olhos, mas que não tem muito a oferecer à mente e ao coração.
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06 de Janeiro de 2006

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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