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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/10/2006 15/09/2006 3 / 5 / 5
Distribuidora

Dália Negra
The Black Dahlia

Dirigido por Brian De Palma. Com: Josh Hartnett, Aaron Eckhart, Hilary Swank, Scarlett Johansson, Mia Kirshner, Mike Starr, Fiona Shaw, John Kavanagh, Gregg Henry, Jemima Rooper, Rose McGowan.

 

Há muitas e claras semelhanças entre Dália Negra, novo trabalho do cineasta Brian De Palma, e o excepcional Los Angeles – Cidade Proibida, realizado por Curtis Hanson em 1997: ambos se passam em épocas próximas (final da década de 40 e início da de 50, respectivamente), são protagonizados por policiais durões e de caráter ambíguo, combinam personagens reais e fictícios e, é claro, abordam crimes violentos que envolvem as altas esferas do poder e da fama. Ah, e o mais importante: ambos foram baseados em livros de James Ellroy, o que explica o clima maldito de decadência emocional e moral de vários dos personagens principais. Por outro lado, enquanto Los Angeles trazia um elenco impecável em uma trama coesa, Dália Negra acaba se comprometendo em função das atuações irregulares e, principalmente, de um roteiro que, depois de fazer desvios excessivos por toda a história, ainda desmonta desajeitadamente em seu ato final.

           

Escrito por Josh Friedman (Guerra dos Mundos), o filme traz, como o livro, um fato real como seu ponto de partida: o assassinato brutal de Elizabeth Short, jovem aspirante a atriz que, aos 22 anos de idade, foi torturada, mutilada e teve o corpo abandonado em um terreno baldio em Los Angeles, naquele que até hoje permanece como um dos maiores mistérios de Hollywood (ao lado, claro, da morte do produtor Thomas Ince, em 1924, num iate que pertencia a William Randolph Hearst). Integrantes de uma força-tarefa designada para investigar o caso, os detetives Bucky Bleichert (Hartnett) e Lee Blanchard (Eckhart) mergulham em uma série de incidentes sombrios que se tornam ainda mais complicados pela estranha dinâmica que mantêm com Kay (Johannson), uma ex-prostituta cujo antigo cafetão será libertado após cumprir pena por tê-la ferido no passado. Jovens estrelas do departamento policial de Los Angeles, Lee e Bucky são também boxeadores amadores cujos embates são utilizados como peças de marketing por seus superiores – e seus diferentes estilos de luta e comportamento dão origem aos seus apelidos conflitantes: Fogo e Gelo.

           

Habitando um mundo de cinismo e corrupção, os dois detetives certamente se encaixariam com perfeição no perigoso departamento de polícia comandado pelo capitão Dudley de Los Angeles – Cidade Proibida, já que dividem várias características com os oficiais daquele filme: a ânsia por fama de Jack Vincennes aqui encontra eco em Lee Blanchard, sempre à procura de uma nova manchete – e o próprio Lee encarna, também, o zelo excessivo de Bud White com relação às mulheres vitimadas por homens violentos (e a atitude de ambos reflete traumas do passado). Da mesma maneira, as ações dos detetives acabam sendo motivadas (ou intensificadas) pelo envolvimento com prostitutas glamourosas e de bom coração que, de certa forma, assumem o papel de “prêmio” para os virtuosos (em Los Angeles, Kim Basinger; aqui, Scarlett Johansson).

           

Beneficiado por uma bela recriação de época (os figurinos são irretocáveis) e pela ótima fotografia predominantemente em tons de sépia concebida pelo veterano Vilmos Zsigmond, Dália Negra é uma produção tecnicamente impecável, embora, seja importante dizer, conte com um trabalho de câmera menos inspirado do que o habitual por parte de Brian De Palma; e os fãs do preciosismo técnico do cineasta certamente notarão a falta de planos realmente memoráveis, já que mesmo seus trabalhos mais irregulares contam com sua parcela de momentos de grande inventividade (ver Missão: Marte e Olhos de Serpente). Desta vez, o diretor até ensaia alguns de seus tradicionais planos utilizando gruas, mas sem conseguir grandes resultados – e quando tenta emplacar um plano-seqüência em câmera subjetiva, este surge de forma gratuita, sem nenhum objetivo narrativo que o justifique. Por outro lado, De Palma compõe alguns quadros que merecem destaque, como aquele que traz Lee e Bucky ao lado de uma fornalha e um saco de gelo (numa irônica rima temática com seus apelidos) e outro que, através de uma grande profundidade de campo, traz Lee em close up e Bucky ao fundo e no alto de uma escada.

           

Um dos poucos diretores do primeiro escalão de Hollywood a ter coragem (na verdade, uma quase obsessão) de usar o sexo como um dos principais elementos impulsionadores de suas narrativas, De Palma utiliza o desejo de seu protagonista pelas contrastantes Madeleine (Swank) e Kay justamente como uma das principais formas de ilustrar a confusão emocional do sujeito – embora, é claro, as cenas de sexo aqui não tenham a mesma intensidade daquelas vistas em O Pagamento Final ou Femme Fatale, por exemplo. Além disso, o cineasta também não foge da violência gráfica (outra de suas características) e, portanto, Dália Negra contém imagens que poderão incomodar aqueles com o estômago mais fraco.

           

Hábil ao estabelecer uma convincente atmosfera noir, De Palma emprega, para isto, a correta trilha instrumental de Mark Isham, que não hesita em abusar dos trompetes comumentes associados ao gênero, e a inteligente montagem de seu colaborador habitual Bill Pankow, que chega a utilizar transições freqüentes na década de 40, como cortinas e fusões. Como se não bastasse, Pankow se destaca também em duas das cenas mais marcantes do longa: a luta de boxe entre Bucky e Lee (quando ilustra com talento a técnica de defesa do primeiro, levando o espectador a perceber quando o sujeito baixa intencionalmente a guarda) e o tenso confronto na escadaria.

           

Infelizmente, porém, qualidade técnica não é tudo – e Dália Negra peca, entre outras coisas, por seu elenco heterogêneo: enquanto Josh Hartnett faz um trabalho adequado (mas não mais do que isso) como o complicado Bucky, Aaron Eckhart já erra ao criar uma voz anasalada e estridente para Lee, talvez por julgar que esta combinaria com os trejeitos exagerados e os modos agitados do personagem. Sem jamais conferir veracidade à obsessão do policial pelo homicídio que investiga, que soa tristemente artificial, Eckhart empalidece ainda mais quando nos lembramos do fenomenal desempenho de Russell Crowe como o similar Bud White de Los Angeles – Cidade Proibida. Já Scarlett Johansson surge como uma inexpressividade decepcionante, já que, na maior parte do tempo, ela parece mais preocupada em posar com suas roupas de época e sua elegante piteira. Ainda assim, ela se sai bem melhor do que Fiona Shaw, que, como a perturbada mãe de Madeleine, se entrega de corpo e alma a uma composição caricatural e histérica que compromete o filme de forma quase irremediável. Por outro lado, Hilary Swank encarna bem a femme fatale, saindo-se surpreendentemente bem em um papel absurdo e desenvolvido de forma inconsistente pelo roteiro. Pena que, apesar de seu talento, sua escalação revela-se incorreta em função de um detalhe sobre o qual a atriz nada poderia fazer: ela em nada se parece com Mia Kirshner, que encarna a pobre Elizabeth Short – e a “semelhança” entre as duas mulheres é constantemente citada pelos demais personagens, o que acaba se tornando incomodamente falso. (E o pior: como Swank e Kirshner não se parecem, anula-se o interessante pathos relacionado à atração que Bucky sente por Madeleine.)

           

E já que mencionei Kirshner, é importante destacar que a moça estabelece Elizabeth Short como uma figura tragicamente vulnerável. Dominada pelos sonhos de sucesso e fama, Elizabeth é uma jovem confusa e – o que é mais triste – sem talento que, vencida pelas circunstâncias de uma vida infeliz, acaba fazendo a opção de oferecer o corpo em troca de oportunidades, o que possivelmente se tornou o motivo de sua morte violenta e precoce. Extremamente parecida com a verdadeira vítima do assassinato, Kirshner, dona de um rosto belíssimo e com uma “vocação” imensa para a fotografia em preto-e-branco (que olhos!), consegue a proeza de criar a personagem mais humana e complexa de Dália Negra, apesar de seu relativamente pequeno tempo em cena.

           

É lamentável, portanto, que a morte de Elizabeth acabe funcionando como um elemento apenas periférico em um filme que opta por se concentrar em personagens bem menos interessantes, reduzindo o misterioso assassinato a uma subtrama que acaba sendo (mal) resolvida em um terceiro ato que procura desesperadamente amarrar todas as pontas soltas através de explicações implausíveis, deduções improváveis e flashbacks risíveis. A Dália Negra merecia seu próprio longa.
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04 de Outubro de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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