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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
07/04/2006 17/03/2006 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

V de Vingança
V for Vendetta

Dirigido por James McTeigue. Com: Natalie Portman, Hugo Weaving, John Hurt, Stephen Rea, Stephen Fry, Tim Pigott-Smith, Rupert Graves, Roger Allam, Ben Miles, Sinéad Cusack, Billie Cook.

De certa forma, é possível que V de Vingança seja um dos filmes mais corajosos realizados por Hollywood depois dos atentados de 11 de Setembro. Ao contrário de praticamente todas as obras igualmente críticas do governo Bush que citei em minha análise sobre Syriana, esta é uma superprodução voltada não apenas para um segmento politizado do público, mas para aquele que consome cinema com pipoca – e sua mensagem obviamente panfletária não se esconde por trás de simbolismos sutis que poderiam disfarçar sua verdadeira natureza: seu discurso é claro e inegável e, com isso, corre grande risco de espantar os espectadores que estão em busca apenas de escapismo (justamente seu público-alvo). Isto não torna V de Vingança mais nobre do que seus companheiros, mas, como já dito, certamente mais corajoso por ter mais a perder.


Inspirado na ótima graphic novel roteirizada por Alan Moore e ilustrada por David Lloyd, a adaptação escrita pelos irmãos Andy e Larry Wachowski (sim, os responsáveis pela trilogia Matrix) atualiza o contexto político do texto de Moore (a era Thatcher) para os dias atuais, nos quais vemos a gestão Bush convencendo a população norte-americana de que trocar parte de sua liberdade por um pouco mais de segurança (ou a ilusão de) é um bom negócio. Assim, quando um personagem afirma, durante a projeção, que “o medo tornou-se ferramenta fundamental deste governo”, é impossível negar a alfinetada nos governos norte-americano e britânico do pós-11 de Setembro. E mais: quando, no cenário pós-apocalíptico que abre a narrativa, vemos um apresentador de televisão discursando raivosamente e atribuindo o fim dos “antigos Estados Unidos” à perversão de costumes, à falta de fé e à homossexualidade, entre outros, é fácil perceber que o personagem é uma mistura clara entre o nojento Bill O’Reilly (da Fox News) e o ainda mais desprezível Jerry Falwell (o televangelista canalha que realmente atribuiu a culpa pelos atentados de 2001 aos fatores citados acima e de quem você deve se lembrar como sendo o arqui-inimigo do personagem-título em O Povo Contra Larry Flynt).

Numa sociedade totalitária que combina a Alemanha nazista, os Estados Unidos atuais e a Oceania de 1984, a jovem Evey (Portman) se arrisca, certa noite, a sair depois do toque de recolher e é atacada por oficiais de segurança do governo encabeçado por Adam Sutler (Hurt). É então que surge V (Weaving), que, oculto sob a máscara de Guy Fawkes (mais sobre ele daqui a pouco), salva a moça e a leva para seu esconderijo, a “Galeria Sombria”, depois de brindá-la com um espetáculo particular: a destruição de um importante monumento britânico. A partir daí, V dá início a um elaborado plano para destruir o governo fascista de Sutler enquanto procura convencer Evey do valor de sua causa e é perseguido pelo persistente investigador Finch (Rea).

É fácil perceber, portanto, a atração que os Wachowski sentiram pela história concebida por Moore e Lloyd: um homem com características sobre-humanas lutando contra o sistema? Uma pessoa ingênua que é levada a encarar a triste realidade de um mundo liderado com mão de ferro por governantes impessoais? As similaridades com Matrix são, de fato, óbvias – assim como as alterações feitas pelos irmãos roteiristas remetem a acontecimentos atuais: os ataques biológicos atribuídos a “extremistas religiosos”, por exemplo, podem ser vistos como uma alusão às cartas com anthrax enviadas nas semanas seguintes ao atentado ao World Trade Center (e que muitos acreditam ter sido obra de agências do próprio governo norte-americano com o objetivo de aumentar o pânico da população depois da queda das torres); e o comentário sobre como a eleição de Sutler era incerta até que tais ataques ocorressem se aplicam perfeitamente à força de Bush após o 11 de Setembro (o filme inclui até mesmo uma alusão rápida à gripe aviária – algo que acredito firmemente ter sido uma adição de última hora ao longa).

Não é só: a escalação de “especialistas” para a construção de falsas verdades que justifiquem a ação do governo é uma tática que recende à guerra contra o Iraque e os “relatórios” sobre armas de destruição em massa; a propaganda massificante da ideologia oficial via TV pode ser compreendida como o papel da Fox News nos Estados Unidos contemporâneos; os “Artigos de Lealdade” nada mais são do que uma versão simbólica do Ato Patriótico; e a tática da polícia secreta de cobrir a cabeça de seus prisioneiros com sacos pretos (outra modificação com relação à graphic novel) é uma alusão clara ao escândalo (já esquecido) envolvendo os prisioneiros de Abu Ghraib. E se o próprio George W. Bush admitiu utilizar escutas ilegais, não é difícil estabelecer mais um paralelo com o filme (desta vez, com um elemento já presente no texto de Alan Moore) quando vemos os asseclas de Sutler captando conversas de civis através de equipamentos móveis.

Nenhuma destas referências ao mundo real é feita de maneira sutil; não é preciso possuir grande poder de observação para constatá-las – e esta certamente era a intenção dos realizadores de V de Vingança. Por outro lado, o filme se presta a discussões mais complicadas quando parece defender a violência e atos terroristas como uma forma legítima de luta contra um poder estabelecido. A questão é: quando tais ações se tornam moralmente justificáveis? Ou jamais se tornam? Há uma violência que seja benéfica? Como parte de uma família que teve alguns de seus integrantes presos e torturados pela Ditadura militar na década de 70, eu talvez seja suspeito para opinar, mas uma coisa é inegável: justificadas ou não, ações revolucionárias sempre surgirão como reação ao totalitarismo – e há uma seqüência fantástica neste filme durante a qual o inspetor Finch descreve exatamente como uma reação em cadeia inevitável levará a população a se revoltar contra os poderosos: chega um momento em que basta uma única atitude estúpida por parte de um único indivíduo para que tudo saia de controle (vide o excepcional Domingo Sangrento, de Paul Greengrass). E, da mesma forma, sempre surgirão aqueles que, através de grandes ou pequenos atos, empurrarão a causa revolucionária adiante – muitos dos quais já viraram personagens do Cinema, de Sophie Scholl a Che Guevara, passando por Lamarca, Marighella, William Wallace, Gandhi, Emiliano Zapata, Malcolm X, Michael Collins, Rosa Luxemburgo e André Rigaud, para citar apenas alguns entre centenas de nomes.

Aliás, aí reside outro inteligente detalhe de V de Vingança: ao ocultar o rosto de V durante toda a projeção, o filme o transforma em algo mais do que um personagem: ele se torna um símbolo de todos aqueles que se levantaram em protesto contra os abusos de poder de qualquer governo em qualquer época. Ele pode ser um único homem ou pode ser muitos; pode ser um justiceiro solitário ou uma organização revolucionária; pode ser qualquer um ou todos. Ganhando vida graças à elocução e à voz imponente de Hugo Weaving, V é um indivíduo que se libertou através da arte em um mundo no qual esta é condenável (ecos de Fahrenheit 451?) – e sua impassível máscara sorridente, na melhor demonstração do efeito Kuleshov, muitas vezes assume significados que o próprio espectador se encarrega de projetar: cinismo, sabedoria, satisfação, ironia ou contida frustração.

Enquanto isso, Natalie Portman assume o papel de ligação entre o espectador e o mundo de V: é através de Evey que conheceremos aquela realidade deprimente e seremos apresentados às idéias do personagem-título (assumindo que o “V” do título também se aplica a ele). Retratando com sensibilidade o arco dramático atravessado por sua inicialmente ingênua personagem, Portman oferece um de seus melhores desempenhos, o que é um alívio depois de vê-la tão sem vida na nova trilogia Star Wars. Já o ótimo Stephen Rea encarna Finch como um homem triste, mas diligente; um investigador que faz seu trabalho sem prazer nem o sadismo de boa parte de seus colegas, mas que não se deixa deter pelos percalços que encontra – e esta postura é fundamental para que aceitemos com naturalidade algumas de suas decisões durante o terceiro ato da trama. Quanto a John Hurt, que vive Sutler com divertido histrionismo, basta dizer que é fascinante vê-lo fechar um círculo curioso em sua carreira: 22 anos depois de viver Winston Smith em 1984, ele agora encarna, de certa maneira, sua contraparte – algo que certamente pesou em sua escalação para o papel.

Estreando como diretor depois de 15 anos como assistente de direção, James McTeigue se revela uma grata surpresa: com bom domínio da narrativa, ele confere o grau certo de grandiosidade à história de Moore e Lloyd, imprimindo energia e elegância ao filme graças à forma segura com que compõe seus quadros e movimentos de câmera. Além disso, ao lado do montador Martin Walsh, ele cria interessantes ligações entre V e Evey através de montagens paralelas (em certo instante, ela aperta o botão de um elevador enquanto ele dispara um botão de emergência; em outro, são vistos enquanto se aprontam para sair), o que mais tarde culmina em uma bela metáfora sobre as personalidades contrastantes dos dois: enquanto V encontra sua liberdade em meio ao fogo, Evey se liberta sob a chuva.

Apesar de todas as suas virtudes, V de Vingança apresenta sua parcela de problemas: alguns de natureza cinematográfica; outros, de natureza ideológica. Entre os primeiros, certamente encontra-se a formulaica “história de amor” entre V e Evey, muito mais óbvia no filme do que na graphic novel. Em vez de conferir uma dimensão humana a V (o que, para começar, vai contra a despersonalização bem estabelecida pela máscara), o romance resulta nos momentos em que este se torna menos verossímil, evocando um drama estilo O Fantasma da Ópera quando isto não seria minimamente necessário (ao contrário, prejudica o tema principal). Da mesma forma, embora seja importante estabelecer parte do passado de V, toda a explicação de sua origem é feita de forma apressada, sem jamais deixar claro o que de fato envolviam aquelas experiências no “campo de concentração” (nos quadrinhos, tudo é explicado com muito mais detalhes) – e, assim, suas características “sobre-humanas” soam absurdas, fugindo ao realismo de suas demais ações. E, ainda que a cena envolvendo os dominós seja bela por seu efeito, soa ilógica por exigir tempo demais de um homem que deveria estar ocupado em preparar seu golpe final, não em brincar de Grande Soldador.

Para finalizar, minha discordância “ideológica” diz respeito ao estabelecimento de Guy Fawkes como figura heróica (a máscara usada por V, lembrem-se, representa seu rosto): certamente que o desejo de V em explodir o Parlamento britânico remete diretamente ao complô do qual Fawkes fez parte, mas, do ponto de vista histórico, as motivações deste eram, senão totalmente condenáveis, ao menos profundamente irresponsáveis (tanto que resultaram em dificuldades maiores para aqueles mesmos católicos que ele julgava representar). Há um motivo para que a efígie de Guy Fawkes seja queimada (como um Judas britânico) ainda hoje como parte da celebração anual do fracasso de sua conspiração – e é estranho vê-lo tornar-se ícone de heroísmo em um filme inteligente como este.

Mas creio que, do ponto de vista dramático, é mais sedutor ver alguém usar uma máscara cujo visual remeta aos Três Mosqueteiros do que, digamos, uma que trouxesse a carequinha e os óculos de Mahatma Gandhi.

06 de Abril de 2006

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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