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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/11/2005 26/09/2003 3 / 5 / 5
Distribuidora

Direção

David Mackenzie

Elenco

Ewan McGregor , Tilda Swinton , Peter Mullan , Emily Mortimer , Jack McElhone

Roteiro

David Mackenzie

Produção

Jeremy Thomas

Fotografia

Giles Nuttgens

Música

David Byrne

Montagem

Colin Monie

Design de Produção

Laurence Dorman

Figurino

Jacqueline Durran

Direção de Arte

Stuart Rose

Pecados Ardentes
Young Adam

Dirigido por David Mackenzie. Com: Ewan McGregor, Tilda Swinton, Peter Mullan, Emily Mortimer, Jack McElhone.

Durante a 27a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, fiquei particularmente surpreso com a quantidade de produções que adotavam uma estrutura narrativa cronologicamente livre, com utilização (às vezes excessiva) de flashbacks e de ações paralelas que se passam em tempos distintos: em alguns casos, esta estrutura revelou-se eficaz (como em Elefante e Narradores de Javé; em outros, nem tanto (Benjamin, A Janela da Frente). Infelizmente, O Jovem Adam se encontra entre estes últimos.

Escrito e dirigido pelo escocês David Mackenzie, o filme é baseado em livro de Alexander Trocchi e conta a história de Joe Taylor (McGregor), um rapaz que reside e trabalha em uma barcaça de transporte de carvão. Certa manhã, ele encontra o cadáver de uma jovem flutuando no rio e comunica o fato à polícia. À medida que as investigações sobre a morte da garota vão transcorrendo, Joe passa a relembrar seu envolvimento com Cathy (Mortimer), de quem se separara há alguns anos, e também acaba se tornando amante de Ella (Swinton), esposa do homem que o empregou, Les (Mullan). E, como os três moram juntos na barcaça, o clima logo se torna tenso entre todos.

O primeiro grande problema do roteiro diz respeito à obviedade da identidade do cadáver, cujo rosto não é revelado a princípio: qualquer pessoa que já tenha assistido a dois ou três filmes do gênero imediatamente percebe que o corpo é de Cathie - e é inexplicável, o motivo que leva Mackenzie (errando duplamente, como diretor e como roteirista) a tratar o assunto como um enigma. Para piorar, o afogamento da garota (cujas circunstâncias não revelarei, embora não faça a menor diferença) é encenado de forma implausível, artificial. É difícil acreditar que pudesse ter acontecido daquela maneira, mesmo em um filme.

Por outro lado, a abordagem que O Jovem Adam faz do sexo é bem interessante, mesmo que nada original: aqui, os personagens se entregam ao sexo não por amor - e nem mesmo por atração física -, mas por puro instinto animal. Transar é a única forma que eles encontram de sentir alguma coisa, mesmo que não seja prazerosa. Para estas pessoas, o sentimentalismo é pura abstração; algo irreal e ao qual eles não podem se dar ao luxo de conhecer. Assim, quando Joe pergunta a Ella, depois de transarem pela primeira vez, se ela está arrependida, a resposta é lógica e direta: `Que bem isso me faria?`.

Aliás, Tilda Swinton, como Ella, faz o possível e o impossível para aniquilar qualquer traço de sensualidade (ou mesmo feminilidade) que sua personagem pudesse ter: com os cabelos sempre oleosos e a postura encurvada (mesmo nas cenas de nudez, o que prejudica a forma dos seios e da barriga), Swinton ainda faz questão de exibir as axilas não depiladas e de comer sempre com a boca aberta. O resultado óbvio é que o espectador não consegue compreender o que levaria o belo e culto Joe a se tornar parceiro de Ella, que sequer é simpática, divertida ou particularmente inteligente - o que ressalta o foco animalesco que o filme confere ao sexo.

Mas Swinton não é a única a fazer escolhas corajosas: ao compor Joe, Ewan McGregor criou um personagem introspectivo, que jamais deixa transparecer qualquer tipo de emoção. Ora, quem assistiu a Trainspotting, Velvet Goldmine ou Moulin Rouge sabe que McGregor é um ator talentoso e expressivo - e que, portanto, a caracterização de Joe é uma opção, e não uma limitação de seu intérprete. E é formidável que ele consiga retratar os conflitos internos do protagonista sem `utilizar` o rosto.

Ainda assim, há algo que McGregor não consegue evitar: graças principalmente à introspecção do personagem, O Jovem Adam se torna um filme frio que encontra sérias dificuldades em estabelecer conexão com o espectador - e, ao final da projeção, temos uma certa sensação de `E daí?`, o que compromete a experiência. Da mesma forma, o título pode soar inexplicável para parte do público, já que não há Adam algum na trama. Porém, se observarmos que a barcaça na qual Joe mora se chama Lady Eve, o título começa a fazer um pouco mais de sentido - principalmente se lembrarmos que Adão e Eva protagonizaram uma história clássica de tentações (especialmente sexuais) e de conseqüentes promessas não cumpridas.

Pena que nada disso transforme O Jovem Adam em um filme melhor.

``

28 de Outubro de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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