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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
16/04/2004 12/03/2004 4 / 5 / 5
Distribuidora

A Janela Secreta
Secret Window

Dirigido por David Koepp. Com: Johnny Depp, John Turturro, Maria Bello, Timothy Hutton, Charles S. Dutton, Len Cariou.

Ao longo de sua carreira, o bem-sucedido autor Stephen King adotou, em várias ocasiões, um protagonista cuja principal atividade era justamente escrever. Há razões para tanto: mergulhados em uma ocupação de natureza essencialmente introspectiva, os escritores podem se tornar ótimos personagens, já que estão constantemente avaliando (consciente ou inconscientemente) suas próprias vidas e ideologias – e é no trabalho que estas figuras podem encontrar alívio para suas ansiedades (como uma válvula de escape) ou, paradoxalmente, podem se deparar com fontes ainda maiores de estresse. Assim, um típico `bloqueio de escritor` pode simbolizar, em um romance, a luta do protagonista por sua identidade e por seus valores – e é por esta razão que é tão comum que, ao final do livro (ou do filme, no caso de adaptações), o herói utilize suas experiências como base para seu próximo trabalho. King, aliás, já retratou ambas as circunstâncias: tanto autores mergulhados em problemas por causa de suas obras (como em Louca Obsessão) como `inspirados` por suas experiências tristes (Conta Comigo).

Já em A Janela Secreta, mais recente adaptação de uma das histórias de King, o escritor Mort Rainey (Depp) se enquadra nos dois casos: ao mesmo tempo em que encontra refúgio na Literatura depois do fracasso de seu casamento (mesmo que não consiga escrever de fato, já que está sofrendo... adivinhou?... um bloqueio), Rainey passa a ser atormentado por um estranho homem, John Shooter (Turturro), que o acusa de ter plagiado um de seus contos. Agressivo e claramente perigoso, Shooter concede um prazo a Rainey para que este apresente a prova de que não `roubou sua história`: uma versão, publicada anos antes, do tal conto. Caso falhe, o rapaz terá que atribuir os créditos a Shooter e `corrigir o final` da trama. O problema é que a revista na qual a história fôra publicada originalmente se encontra na casa da ex-esposa de Rainey – e o sujeito ainda está deprimido demais para revê-la.

Assumindo um personagem pesado, que poderia facilmente se tornar desagradável para o espectador, Johnny Depp resolve o problema com seu talento habitual e confere pequenos toques cômicos a Rainey, que se transforma em uma figura estranha, mas carismática. Facilmente intimidado por tudo e por todos, o escritor é um homem comum que não consegue se impor sequer diante da pacata senhora que arruma seu chalé, escondendo desta seu hábito de fumar e até mesmo fingindo trabalhar em seu novo livro sempre que ela está presente (no restante do tempo, ele volta para seu velho sofá a fim de dormir). Assim, a presença de Shooter torna-se algo insuportável para o sujeito, já que, além de ameaçá-lo profissionalmente, ainda o impede de entregar-se à auto-piedade e à depressão.

Aliás, as opções de Depp devem ser aplaudidas também por sua coragem, já que os vários tiques nervosos utilizados para compor Mort Rainey (e seu hábito de conversar sozinho) poderiam convertê-lo em uma mera caricatura; mas, ao contrário, acabam ajudando a esculpir sua personalidade (e, o que é mais importante, se tornam amplamente justificados depois que o espectador compreende sua relevância para a trama). Além disso, o ator é hábil ao retratar o medo de seu personagem frente à ameaça representada por Shooter – que, por sua vez, torna-se realmente amedrontador graças à composição de John Turturro, com sua figura imponente e seu carregado sotaque.

A preocupação em criar personagens interessantes também deve ser atribuída, é claro, ao roteiro do excelente David Koepp, que, ao longo de sua carreira, freqüentemente provou seu talento ao conceber figuras fascinantes e complexas, como nos excepcionais O Jornal e O Pagamento Final. E o que é melhor: Koepp também não é estranho ao gênero suspense, sendo o responsável pelo eficiente O Quarto do Pânico. Assim, o roteirista não hesita em utilizar recursos interessantes que levam o espectador a se identificar ainda mais com o herói e sua paranóia crescente, como ao permitir que escutemos os pensamentos de Rainey e também ao nos fazer ouvir incorretamente falas ditas por outros personagens, como no momento em que o escritor pensa ter escutado uma garota dizer que `vira o que ele fizera` quando, na realidade, ela dissera algo totalmente diferente. Ato falho auditivo? A moça realmente sabe o que está acontecendo entre Shooter e Rainey? Ao estabelecer esta dúvida na mente do protagonista (e do espectador), Koepp não apenas aumenta o clima de suspense e tensão como ainda estabelece pequenas regras que justificam os acontecimentos no terceiro ato da história.

Mas David Koepp não é bem-sucedido apenas como roteirista; como diretor ele também se supera, realizando seu melhor trabalho na função (o que não é difícil, se considerarmos que seu currículo como cineasta inclui apenas os corretos Ecos do Além e O Efeito Dominó). Dando início ao filme com uma excepcional tomada na qual a câmera (através, obviamente, de recursos digitais) aproxima-se de uma casa, entra por uma pequena janela do sótão e vasculha o interior do imóvel à procura de Rainey, Koepp já dá o tom da narrativa ao mostrar o personagem através de seu reflexo em um espelho – que logo se revela a versão `real` do sujeito. Com isso, percebemos que a `janela secreta` do título não é necessariamente aquela que se encontra no sótão, mas sim aquelas que, num simbolismo psicológico, nos levam para dentro de nós mesmos e que revelam nossos desejos e medos mais escondidos – e não é apenas Rainey quem `abre esta janela`, mas também Shooter, Amy (a ex-esposa de Mort) e até mesmo Ted, o atual marido da garota. De uma forma ou de outra, ao longo de A Janela Secreta todos os principais personagens descobrirão e enfrentarão suas próprias contradições e anseios (como Amy, que claramente se divide entre Mort e Ted).

Com isso, A Janela Secreta se torna não apenas um suspense eficiente, mas também um curioso estudo de personagens – e o que é melhor: sem se `acovardar` diante das convenções de Hollywood, aposta em uma conclusão diferente e impactante. E, como o próprio Mort Rainey afirma em certo ponto da projeção, `A parte mais importante da história é o final. E este é muito bom`.
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15 de Abril de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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