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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
14/07/2006 02/06/2006 4 / 5 / 5
Distribuidora

Separados Pelo Casamento
The Break-Up

Dirigido por Peyton Reed. Com: Vince Vaughn, Jennifer Aniston, Jon Favreau, Vincent D’Onofrio, Joey Lauren Adams, Cole Hauser, Judy Davis, Justin Long, Jason Bateman, John Michael Higgins, Ann-Margret.

 

É uma pena que Separados pelo Casamento venha sendo divulgado como uma comédia romântica – uma estratégia publicitária que, por vender o filme como algo que não é, pode condená-lo ao fracasso ao criar expectativas que dificilmente serão atendidas. Girando em torno de um relacionamento em crise, o longa até tem suas passagens engraçadas, mas, de modo geral, leva o espectador a constatar, com tristeza, como duas pessoas que se amam podem destruir a ligação que estabeleceram ao longo de anos apenas em função de mal-entendidos e joguinhos psicológicos tolos que, por orgulho ou imaturidade, impedem qualquer tipo de discussão mais produtiva. Desta forma, o filme tende mais a drama com toques cômicos – e se você entrar no cinema compreendendo isto, certamente terá muito mais facilidade de se envolver com a história.

           

Escrito por Jeremy Garelick e Jay Lavender a partir de um argumento concebido pela dupla ao lado do ator Vince Vaughn, Separados pelo Casamento tem início com o primeiro encontro entre o guia turístico Gary (Vaughn) e Brooke (Aniston), que trabalha como vendedora em uma galeria de arte. O casal logo se apaixona e, quando voltamos a encontrá-los, eles já estão morando juntos há dois anos. A esta altura, Brooke já não acha tanta graça do jeito despojado e infantil do companheiro, que, por sua vez, sente-se limitado pela constante vigilância da namorada. É então que uma briga um pouco mais séria leva ao rompimento do relacionamento, mas nenhum dos dois se mostra disposto a abandonar o confortável apartamento em que vivem, estabelecendo as condições ideais para uma intensa guerra de nervos.

           

Demonstrando conhecimento sobre os problemas e conflitos tão comuns em relacionamentos conjugais (e, para todos os efeitos, Gary e Brooke são casados), o roteiro faz uma opção correta ao estabelecer, como estopim da crise entre o casal, uma briga por motivos prosaicos que, como é tão comum ocorrer em qualquer casamento, rapidamente assume uma escala bem maior – e, antes que percebam o que está acontecendo, os dois passam a se agredir verbalmente com uma triste virulência. Finalmente, a discussão atinge um ponto sem volta: ou eles interrompem o bate-boca e reconhecem que passaram do limite ou colocam um fim ao casamento. E é claro que acabam fazendo o que boa parte dos casais em situações similares faz: anunciam o término do namoro, esperando que isso leve o outro a reconsiderar sua posição e a pedir desculpas, reconhecendo o “erro” cometido. Este tipo de joguinho psicológico infantil ocorre, em parte, por problemas de comunicação, é certo – mas há, também, a necessidade egocêntrica de forçar o(a) companheiro(a) a admitir não apenas que estava errado(a), mas também que não pode mais viver sozinho(a).

           

Tampouco podemos ignorar, obviamente, as eternas e aparentemente insolúveis diferenças entre homens e mulheres. Quando Brooke explica que gostaria que Gary tivesse vontade de ajudá-la a lavar os pratos, este não consegue compreender como isto poderia ser possível: quem, afinal de contas, gostaria de lavar pratos? O que Gary não percebe é que Brooke não está falando sobre o trabalho em si, mas sobre o gesto – e a garota, por sua vez, acredita que explicar a importância daquele gesto faria com que este perdesse o sentido. Assim, é como se eles estivessem falando línguas diferentes – e é divertido perceber como Vince Vaughn olha para Aniston com um inclinar de cabeça e um olhar confuso que indicam claramente seu esforço para tentar decifrar o que a namorada realmente deseja. Por fim, ocorre a situação já vivida por qualquer um que tenha namorado durante certo tempo: quando ele finalmente se oferece para fazer o que ela havia pedido, ela descarta a oferta, afirmando que “já não adianta mais”. A partir daí, é só uma questão de tempo até que a moça comece a manifestar insatisfação com incidentes ocorridos há dias ou meses atrás – uma atitude que deixa Gary (qualquer homem, na verdade) enlouquecido.

           

Encarnando seus personagens com intensidade, Vaughn e Aniston estabelecem uma dinâmica extremamente natural em suas cenas: é fácil acreditar que aqueles dois se amam, apesar de todas as discussões – algo fundamental para que nos envolvamos com o filme, já que dificilmente nos importaríamos com o casal caso não percebêssemos o afeto que nutrem um pelo outro. E é uma pena perceber que, mergulhados em seus joguinhos particulares, eles não enxergam a destruição iminente do que construíram ao longo dos anos. Aliás, é isto que difere Separados pelo Casamento das formulaicas comédias românticas de Hollywood: há conseqüências para os atos dos personagens. Há um momento, por exemplo, em que as provocações mútuas levam a uma situação-limite que, numa produção menos ambiciosa, seria utilizada apenas para provocar risos no espectador através do choque experimentado pelos protagonistas. Aqui, porém, Gary e Brooke se olham com tristeza por perceberem que, a partir dali, algo se partiu definitivamente – e que talvez tenham ido longe demais.

           

Dando-se ao luxo de utilizar atores como Ann-Margret, Judy Davis e Cole Hauser em papéis que são pouco mais do que simples pontas, o filme beneficia-se não apenas com as carismáticas performances de Vaughn e Aniston, mas também com o sempre talentoso Vincent D’Onofrio, que, como irmão de Gary, cria um personagem ansioso e introspectivo que soa real justamente por ter tanta dificuldade em se comunicar – e confesso que fiquei curioso para saber mais sobre aquele indivíduo aparentemente tão infeliz. Por outro lado, Jon Favreau e Joey Lauren Adams, como os melhores amigos de Gary e Brooke, revelam-se apenas irritantes, já que desempenham funções semelhantes: oferecer conselhos desastrosos para o casal a fim de que a história caminhe (isto é, até certo ponto, já que eventualmente parecem mudar de opinião sem maiores justificativas).

           

Depois de dirigir o fraco Teenagers – As Apimentadas e o bom Abaixo o Amor, o cineasta Peyton Reed demonstra segurança ao conduzir Separados pelo Casamento, criando uma narrativa envolvente que pontua os instantes mais intensos com outros de maior leveza – e gostei particularmente do plano que mostra Gary entrando em um elevador e tendo sua figura substituída pelo reflexo de outro homem na superfície metálica da porta que se fecha. Em contrapartida, Reed apela para o humor adolescente ao utilizar personagens gays como estereótipos cuja única função é arrancar risadas fáceis do público, o que é lamentável. 

           

Eficiente e sensível, Separados pelo Casamento ainda realiza a proeza de criar um desfecho perfeitamente coerente com a  história que apresentara até então, concluindo a projeção em um clima agridoce que enviará o espectador para fora do cinema com a satisfação de não ter sido enganado por um final hollywoodiano clichê e artificialmente feliz.
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30 de Junho de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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